A Feira do Livro,

Segundo dia d’A Feira do Livro debateu samba, Pelé, trabalho doméstico, direitos LGBTQIA+ e antirracismo

Com mais de uma dezena de mesas, segundo dia do festival literário reuniu grandes nomes em torno de pautas identitárias e políticas

08jun2023 - 22h16 | Edição #70

O segundo dia d’A Feira do Livro teve mais de uma dezena de mesas. Entre os temas, as implicações políticas da alimentação, as vias para uma educação infantil mais inclusiva, preconceito e heranças coloniais, o legado de Pelé, samba e diáspora, o colapso ambiental, direitos LGBTQIA+, abolicionismo e a luta antirracista. Na quinta-feira, 8, feriado de Corpus Christi, também aconteceu o primeiro Interlúdio Musical da Feira: faixa de conversas – acompanhadas de voz e violão – evocando grandes nomes da música brasileira.

Na primeira mesa do dia, “Da cozinha ao boteco”, a chef de cozinha, comunicadora e ativista Bela Gil e a jornalista, mixologista e pesquisadora Néli Pereira defenderam o valor do trabalho doméstico e dos saberes tradicionais na alimentação. A conversa, mediada pela cozinheira e escritora Clarice Reichstul, girou em torno da importância do cozinhar não só como atividade afetiva ou prática, mas também social e econômica.“Tento desromantizar essa questão [de fazer a comida] e entender como dar às pessoas a possibilidade de cozinhar. Descobri que era uma questão de tempo e caí em uma coisa feminista”, disse Bela Gil.


Bela Gil e Néli Pereira [Sean Vadaru/Divulgação]

Em “Literatura infantil: entre arte e educação”, os escritores Bel Santos Mayer e Marcelo Maluf e o professor João Luís Ceccantini traçaram caminhos para mediações mais inclusivas e debateram a atuação das bibliotecas públicas e o papel das escolas na contação de histórias para as crianças. “Arte e educação caminham juntas. É assim que crianças podem reconhecer traços de um artista, referências de um autor e, a partir de um livro, devorar mais cinco”, disse Mayer.

O suíço-camaronês Max Lobe e o franco-marroquino Abdellah Taïa, que se identificam como LGBTQIA+, discutiram pertencimento, preconceito e heranças coloniais. Intitulada “Imigração, poesia e identidades” e mediada pelo jornalista e escritor Diogo Bercito, a mesa também abordou a relação dos autores com a língua francesa e sua experiência como imigrantes. “Num livro que escrevi sobre a colonização em Camarões me foi dito que não poderia usar a palavra negro, que é pejorativa em francês. Uma coisa doentia: os descendentes do opressor dizem a mim, descendente do oprimido, qual linguagem tenho que usar”, disse Lobe.


Max Lobe, Abdellah Taïa e Diogo Bercito [Sean Vadaru/Divulgação]

Em uma homenagem a Pelé, o crítico de arte Lorenzo Mammì e o historiador Luiz Antonio Simas, mediados pela jornalista Anita Efraim, falaram sobre as qualidades que tornaram o atleta tão cultuado no Brasil e no exterior. “Ele tinha uma superioridade mental. Fazia a escolha mais certa. E tinha uma extraordinária capacidade de prever o que os outros jogadores iriam fazer”, disse Mammì. Eles também comentaram o racismo que o Rei do Futebol enfrentou. “Mesmo quando o Pelé se destacava mostrando que o negro conseguiu romper barreiras e atingir protagonismo, ainda havia um discurso fundamentalmente racista de que a corporeidade era negra e a intelectualidade era branca”, disse Simas.


Luiz Antonio Simas e Bianca Tavolari [Sean Vadaru/Divulgação]

Na conversa-show “Passageiros de relâmpagos”, o pesquisador, produtor e cronista Hermínio Bello de Carvalho e a cantora Joyce Moreno rememoraram os artistas com quem trabalharam, mediados pela jornalista Patricia Palumbo. Alaíde Costa e Zé Renato, que estavam na plateia, participaram cantando e tocando.

O inesperado das ruas, a questão diaspórica no Brasil e o samba como documento histórico foram os temas abordados pelo historiador Luiz Antonio Simas em papo com Bianca Tavolari, professora, pesquisadora e colunista da Quatro Cinco Um. “Eu acredito que o campo da cultura é uma encruzilhada. É o lugar da alteridade, do encontro com a diferença, do inesperado, do inusitado, do assombro e do espanto”, disse Simas.

Ao lado do jornalista Bernardo Esteves, especializado na cobertura de temas ambientais, o historiador Luiz Marques discutiu o colapso ambiental e as perspectivas para a vida no planeta. “Temos que sair do sistema alimentar globalizado – fazendeiros, corporações, agroquímicas que controlam todo esse sistema. O fazendeiro é a vanguarda de um sistema que é altamente destrutivo, mas é só a linha de frente. Esse sistema tem que ser desmontado” disse Marques.

O escritor e pioneiro na luta por direitos LGBTQIA+ João Silvério Trevisan conversou sobre sua trajetória e seu novo romance Meu irmão, eu mesmo (Alfaguara), título que deu nome à mesa, com o professor de direito Renan Quinalha, que assina uma editoria especial sobre livros LGBTQIA+ na Quatro Cinco Um. Eles falaram sobre masculinidades, preconceitos, resistência e democracia. “Não podemos repetir quatro anos de facismo nesse país. Se há alguma coisa que a comunidade pode oferecer, e está oferecendo, é a capacidade de amar. Estamos ensinando esse país a amar”, disse Trevisan.

Almanaque A Feira do Livro 2023

Na mesa “De Gama a Rebouças”, as historiadoras Ligia Fonseca Ferreira e Hebe Mattos evocaram o pensamento de Luiz Gama e André Rebouças, dois grandes intelectuais negros e aboliconistas, com mediação da historiadora e editora de podcasts da Quatro Cinco Um Paula Carvalho.


Bianca Santana e Sueli Carneiro [Sean Vadaru/Divulgação]

Encerrando o dia, as escritoras, intelectuais e ativistas Sueli Carneiro e Bianca Santana falaram das conquistas e novos desafios dos movimentos antirracista e feminista na concorrida – e emocionante – mesa "Continuo Preta", mediada pela colunista da Quatro Cinco Um Juliana Borges. Carneiro, muito aplaudida em diversos momentos, avaliou que houve avanços nas últimas décadas. "O que mudou foi essa presença extraordinária das mulheres negras na cena dos debates feministas. O feminismo brasileiro não tem mais a possibilidade de existir como uma força política sem estar radicalmente assentado na perspectiva que as mulheres negras apresentam, de se considerar gênero, raça e classe", afirmou. Bianca contrapôs afirmando que "temos muito a comemorar, mas a maior parte das mulheres negras no Brasil segue em condição de trabalho subalterno, com piores salários. A pirâmide é exatamente igual à da época da abolição". Para Carneiro, o desafio do feminismo negro atual tem a ver com esse ponto: "Esse feminismo negro, herdeiro dessa tradição de lutas anteriores, que inclusive se hegemoniza, qual é o projeto dele para emancipar todas as mulheres?".

A Feira do Livro acontece de 7 a 11 de junho na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo.

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Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.