A Feira do Livro,

Eugênio Bucci fala do avanço inexorável da tecnologia e da urgência de regulação

O jornalista alerta que a regulação das plataformas digitais é essencial para preservar a democracia

10jun2023 - 08h14 | Edição #70

“Todo mercado tem uma regulação, em todas as democracias. O mercado não é um dado da natureza, é um dado da cultura. Se ele não é regulado, a selva prevalece, e a censura prevalece. Sem regulação, alguns discursos ganham destaque e outros não”, falou o jornalista Eugênio Bucci sobre o Projeto de Lei 2630, conhecido como PL das Fake News, na mesa A era da incerteza digital, que aconteceu neste sábado, 10, no Auditório Armando Nogueira. “Com que pressuposto? Não sabemos. Começamos a encabrestar o debate público. Os esforços de regulação precisarão ser feitos. Estou falando desses monopólios que são globais, não de uma economia nacional.”

Ele está lançando o livro Incerteza, um ensaio pela editora Autêntica, que reúne ensaios e ilustrações de sua autoria nos quais reflete sobre o domínio inexorável dos meios tecnológicos, da internet e das redes sociais na nossa vida cotidiana, na forma de circulação de informação e no modo de fazer política, colocando em risco as democracias ao dar relevância a discursos que resvalam no autoritarismo.

Com mediação da editora da Quatro Cinco Um Beatriz Muylaert, a conversa girou em torno de alguns temas entrelaçados: a importância da incerteza nas nossas vidas, a maneira como as informações são passadas do emissor para o receptor e como os algoritmos das redes sociais destacam determinados discursos em detrimento de outros. Na sua visão, os discursos da extrema direita, mais simplistas, estão mais bem adaptados para o modelo das redes sociais, onde existe um consumo rápido e acelerado de informação, e que não é amigável a discussões complexas e dialógicas.


O jornalista Eugênio Bucci e a editora da Quatro Cinco Um Beatriz Muylaert [Divulgação]

Segundo ele, o problema são as relações de propriedade e de poder que envolvem as tecnologias: é um problema político, e não tecnológico. “No totalitarismo, a vida privada é acessível ao poder, em qualquer tempo e circunstância. Hoje, a vida privada das pessoas recebeu paredes de vidro, para usar uma expressão de Ruy Barbosa. Não existe mais privacidade, entre nós isso pode existir, mas não entre nós e o centro do poder tecnológico. De fora, as pessoas não conseguem saber como funciona o algoritmo, como os dados são combinados, como se prestam à manipulação política. O controle democrático não sabe disso. Nesse aspecto estamos vivendo sob totalitarismo”, disse Bucci.

“Quem faz a fiscalização, quem vigia a vida do outro são as próprias pessoas”, continuou. “O Grande Irmão é o seu vizinho, é você mesmo, o exibicionismo, o narcisismo, tudo isso trabalha de graça pra essa ordem.”

Ao ser perguntado por Muylaert se o espaço das tecnologias continuará dominando a vida das pessoas, Bucci disse que esse é um movimento inexorável. “Não há retorno possível. Esse triunfo da técnica veio antes do que chamamos de era digital. Não há ponto de retorno. Não dá mais para reverter. Agora, os desdobramentos disso requerem muitas interpretações, e seus efeitos ainda são muito obscuros. O humano talvez venha a se tornar coadjuvante nessa tragédia”. Fez ainda a ressalva de que não é um embate entre humanos e máquinas, como se poderia imaginar, mas sim um embate entre classes sociais mediado pelas máquinas.

A Feira do Livro acontece de 7 a 11 de junho na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.