A Feira do Livro,

‘Brancos, escutem nossas palavras’, pedem pesquisadores Yanomami n’A Feira do Livro

Autores de ‘Diários Yanomami’ dão seu testemunho da destruição causada pelo garimpo

06jul2024 - 12h08 • 10jul2024 - 11h27
(Matias Maxx)

Darysa Yanomami e Mozarildo Yanomami fizeram uma viagem longa e penosa para chegar até a praça Charles Miller, em São Paulo. Vieram à Feira do Livro para lançar Diários Yanomami: testemunhos da destruição da floresta (ISA, 2024), relatos em primeira mão dessa tragédia brasileira que tem que parar imediatamente.

Eles são dois dos cinco pesquisadores indígenas que escreveram os capítulos do livro. O antropólogo Corrado Dalmonego, um dos organizadores da edição, participou com eles da mesa “Diários Yanomami”, mediada por Fabrício Araujo, jornalista do programa Rio Negro, realizada no fim da tarde de sexta (5) no auditório Armando Nogueira.

(Matias Maxx)

“Eu fiz minha pesquisa porque queremos viver bem e com saúde. E quero que vocês brancos escutem nossas palavras e defendam nossa floresta. Queremos viver em uma floresta bonita”, disse Darysa, lendo o texto que preparou para a conversa n’A Feira do Livro.

Pesquisadora que escreveu o capítulo com depoimento de mulheres, Darysa perguntou para outras mulheres Yanomami o que achavam da presença dos garimpeiros na Terra Indígena. Ouviu de todas que eles acabam com a floresta e com as crianças, contaminam os rios e matam os peixes.

“Nossa pesquisa se tornou um livro. Estou satisfeita porque agora você não indígena pode ler o que nós verdadeiramente pensamos. Ao ler nossas palavras, vocês também irão pensar direito, conhecer nosso sofrimento e defender nossa floresta. Por isso quero falar com vocês em São Paulo”, disse Darysa.

Escutem essas palavras

Mozarildo também leu um texto para o público, falando do trabalho coletivo para publicar o livro, que teve como parceiros o ISA (Instituto Socioambiental) e a Hutukara Associação Yanomami, e contou com a colaboração da arquidiocese de Roraima.

Mozarildo Yanomami (Matias Maxx)

“Se tivéssemos trabalhado sozinhos, poucos veriam nosso trabalho. Agora, muitos podem saber o que os garimpeiros provocam. Escutem essas palavras, eu não escrevi à toa. Vocês brancos, que moram em diversos lugares e estão aqui n’A Feira do Livro, leiam. Vocês vão entender direito e nos defender dos garimpeiros”, disse Mozarildo, conclamando os leitores à ação: “Depois de lerem, eu ficaria feliz se pudessem fazer pressão sobre deputados, sobre o governo e os políticos que tomam as decisões”.

O livro (ou “pele de papel”, como Mozarildo traduziu de sua língua indígena) surgiu para dar voz à visão interna do impacto do garimpo, contou Dalmonego. Para realizar a obra, que começou a ser preparada durante a pandemia de covid-19, foram realizadas muitas oficinas e conversas sobre o papel dos não indígenas no projeto, até chegarem aos textos que depois foram traduzidos. No livro, todos os textos estão publicados em língua Yanomami e em português.

“O bonito deste livro é ser coletivo e colaborativo. Além de suas vozes, os autores trazem a de parentes, de lideranças e as vozes da floresta que está morrendo”, disse o antropólogo.

Apesar de as notícias sobre a destruição já terem começado a sair nos jornais, o livro causa impacto pela força dos detalhes contados por quem vive cara a cara com a tragédia. “Eles contam a primeira vez que viram um corpo boiando no rio, as águas escurecidas por causa do garimpo, a desnutrição das crianças”, contou Dalmonego, que ficou com olhos marejados ao lembrar das crianças Yanomami morrendo de fome.

O livro é um chamado à responsabilidade, como está no primeiro texto do capítulo “Diários”, escrito por Mozarildo e lido para a plateia no auditório:

“Quero que vocês, brancos que nos defendem à distância, ouçam estas minhas palavras. Não pensem ‘as palavras desses textos de pesquisa são falsas’. Os garimpeiros já devastaram nossa Terra Yanomami. Por que eles continuam a mexer com nossas mulheres? Se vocês, brancos distantes, não sabem que eles estão nos afligindo, as palavras escritas da minha pesquisa irão alertá-los.”

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)