451,

Uma pequena retrospectiva de um ano notável

Edições marcantes, novos colunistas, 24 episódios de 451 MHz, encontros e coberturas especiais, além de nove títulos e uma feira com 35 mil pessoas

21dez2023

Consideramos que 2023 foi o melhor ano da melhor fase da Quatro Cinco Um, iniciada em fins de 2021, quando tudo começou a mudar por aqui. Começamos o ano com o especial Estado Repensado, produzido com apoio do Instituto República, num momento histórico de alternância de governo e reafirmação da democracia. Com abordagem pluralista e apartidária, essa edição buscou contribuir para a reflexão em torno do Estado e do funcionalismo público. Foi um sucesso de audiência, que só não pudemos saborear com tranquilidade porque, uma semana depois da publicação, em 8 de janeiro, o Estado brasileiro, na forma dos edifícios-sede dos Três Poderes, foi atacado por extremistas. A destruição em Brasília se tornou um tema incontornável para a edição de fevereiro, na qual procuramos reagir com rapidez e espírito crítico, num conjunto de textos que traz reflexões sobre a barbárie extremista e as utopias brasileiras que Brasília representa. Mas talvez ainda seja possível criar novas utopias em outros espaços e linguagens, por isso a Quatro Cinco Um é a revista em que lemos os grandes autores da literatura e de não ficção brasileiros e internacionais.

Neste ano, novos colunistas se juntaram à nossa brigada: a escritora e pesquisadora Juliana Borges trata de literatura, feminismo negro e políticas do livro na coluna Perspectiva Amefricana; o escritor angolano Ondjaki substituiu o bravo Kalaf Epalanga e assina a coluna de crônicas Deslembramentos, ilustrada por fotos de Jordi Buch; o jornalista Fernando Luna passou a publicar a sua The Emoji Review, de resenhas em forma de emojis, no Instagram da Quatro Cinco Um; o professor e crítico de fotografia Humberto Brito se juntou à companheira Djaimilia Pereira de Almeida na coluna Onde Queremos Viver; e Renan Quinalha se tornou editor da seção especial que trata de livros lgbtqia+ de todas as áreas: o projeto Livros e Livres, com apoio do governo holandês. Ao lado dos já veteranos Paulo Roberto Pires, Bianca Tavolari, Pedro H. G. F. Souza e Renato Parada, os novos colunistas nos ajudam a garantir a bibliodiversidade, o pluralismo e o espírito crítico em nossas páginas. Chegamos a mais de 50 encontros (!!!) do nosso Clube de Leitura de Literatura Japonesa, realizado em parceria com a Japan House São Paulo, sob a direção cultural de Natasha Barzaghi Geenen, com quem também realizamos uma cobertura especial que inclui revista impressa, site e newsletter sobre os destaques da ficção japonesa publicada no Brasil.

Literatura é coisa séria por aqui, assim a capa da revista estampou autores e autoras que estão entre os mais relevantes da atualidade: Antonio Candido, Annie Ernaux, Robert Jones Jr. e Clarice Lispector. Foram 12 edições impressas, publicadas com apoio dos assinantes, dos leitores das bancas e livrarias e dos nossos anunciantes fixos: a Companhia das Letras, as Edições Sesc-sp e a Ipsis.

Clarice esteve presente também em dois episódios históricos que publicamos no 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos: uma entrevista de 1976, realizada por Affonso Romano de Sant’Anna, Marina Colasanti e João Salgueiro para o mis-rj, que foi recuperada por Benjamin Moser, biógrafo da escritora. Esse foi o nosso pico de audiência no podcast este ano. Publicamos 24 episódios! No site, a audiência não paga — isto é, pessoas que leem os nossos conteúdos abertos, sem ter assinatura — deu um salto de quase 30% em 2023, segundo o Google Analytics. Esse número deve crescer ainda mais no começo de 2024, quando vamos subir o nosso novo site, uma plataforma novinha em folha que vai trazer tudo o que fazemos aqui. Mas a receita de assinaturas, que é a nossa principal fonte de financiamento, não acompanhou esse crescimento e se manteve estável. Além disso, tivemos queda na receita de publicidade, doações privadas e apoios institucionais na revista.

Por isso tudo precisamos de contribuições, que podem chegar por diferentes meios: assinaturas, doações e patrocínios com isenção fiscal, apoios a projetos editoriais, parcerias e permutas, como a que temos com a gráfica Ipsis. Também recebemos doações diretas, como a que permitiu, em março, a reimpressão do nosso best-seller: Livro do desassossego, de Fernando Pessoa. A edição de referência do clássico de Pessoa foi preparada por Jerónimo Pizarro e voltou às prateleiras das livrarias pela Tinta-da-China Brasil com a colaboração de uma doação privada, realizada por meio do nosso programa de patronos editoriais. Você pode apoiar uma edição inédita do nosso prelo de 2024 ou uma reedição relevante por esse programa.

Também publicamos Ler Pessoa, de Pizarro, um guia sintético para compreender a obra do gênio português, e seguimos lançando em média um livro por mês, cumprindo a missão de suprir lacunas na bibliografia de história, literatura e crítica literária, com desvios pelos quadrinhos, humor e jornalismo. Publicamos estudos de história sobre Salazar e os fascismos europeus, sobre as fake news seiscentistas em torno do rei dom Sebastião, a revista Granta em Língua Portuguesa e uma coleção de filosofia e crítica literária que foi lançada em parceria transatlântica, a Ensaio Aberto, coproduzida em São Paulo e Lisboa, por meio de uma parceria estratégica (e afetiva) com nossa irmã portuguesa, a Tinta-da-China. O caminho da autocracia — Estratégias atuais de erosão democrática levou para o formato de livro a parceria editorial da Quatro Cinco Um com o LAUT — Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo, que reforça a nossa missão institucional de defesa da democracia e liberdade de pensamento, temas que atualmente exigem atenção vigilante e ressurgem de diferentes maneiras em nossos projetos.

A liberdade de expressão e a “epidemia de autocensura”, por exemplo, foram o tema da capa de março da revista dos livros, em ensaio assinado pela autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Em junho, publicamos um livro que, sem querer, acabou se tornando um símbolo da liberdade de expressão nos Estados Unidos: Gênero queer — Memórias, de Maia Kobabe, graphic novel sensível e poderosa que narra a transição de gênero da autora de menina para queer, não binário. A tradução é de Clara Rellstab. O livro despertou a ira conservadora e foi considerado pela ala (sigla em inglês da Associação de Bibliotecários Norte-americanos) o título “mais perseguido” pelos movimentos dos eua de proibição de livros em bibliotecas, que têm se alastrado pelo país.

Junho ainda foi o mês em que realizamos, em parceria com a Maré Produções, a terceira edição do nosso festival literário, A Feira do Livro, que reuniu 35 mil pessoas, na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo, para conhecer a produção de mais de 150 editoras, livrarias e instituições ligadas ao livro e à leitura e assistir a debates com quase cem autoras e autores convidados. Iniciada em 2022, em esquema de mutirão com os expositores e autores em 2022, A Feira do Livro agora é viabilizada pela fundamental Lei de Incentivo à Cultura, com patrocínio do Itaú, do uol e da Suzano e importantes apoios e parcerias — Museu do Futebol, Prefeitura de São Paulo, Sesc-sp, Ibirapitanga, Dois Pontos, Etad, além de Embaixada da França, Fundação Pro Helvetia, Instituto Camões e Istituto Italiano. Desde o início, construímos esse festival de rua com livreiros, editores, autores e leitores, e já estamos preparando a edição 2024 da nossa feira.

Além de realizar o nosso próprio festival, em 2023, participamos de outras festas literárias Brasil afora: em novembro, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), conduzimos a programação da Casa da Música (e da Literatura), debates literários com curadoria da Quatro Cinco Um, em parceria com a Casa da Cultura de Paraty. Ainda produzimos um almanaque impresso especial sobre a Flip, com distribuição gratuita na cidade, trazendo entrevistas, textos, imagens e diversos conteúdos.

Realizamos outras coberturas especiais de festivais: em junho, na Feira do Livro, é lógico, fizemos uma baita cobertura; em outubro, cobrimos a Festa Literária Internacional da Mantiqueira (Flima), em Santo Antônio do Pinhal (sp); em novembro, publicamos um almanaque impresso e uma cobertura especial da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), no Recôncavo Baiano, com o apoio do Governo do Estado da Bahia; e, em dezembro, cobrimos a programação e publicamos um almanaque impresso no Festival Literário do Museu Judaico de São Paulo (FliMUJ), com apoio do museu.

Pois é, fizemos muita coisa neste 2023, e esperamos fazer ainda mais no ano que vem! Por isso tudo precisamos de sua contribuição. A Associação Quatro Cinco Um é um projeto cavado com a mão, realizado por pouco mais de 20 jornalistas, editores e profissionais da cultura, independente de grandes grupos econômicos e com um objetivo claro: divulgar a produção editorial brasileira e levar o livro para o centro do debate. Nesses sete anos, atravessamos muitas adversidades, mas não deixamos de realizar coisas incríveis.

Vamos juntos em 2024?