Literatura infantojuvenil,

Viver o que temos que viver

Premiada escritora chilena fala sobre como a literatura é importante para preparar as crianças para a vida adulta

30set2023 - 20h00 | Edição #74

Foi com uma trovoada e um frio na espinha que Sara Bertrand se viu impelida a escrever A mulher da guarda, vencedor do New Horizons/Bologna Ragazzi, prêmio da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha e considerado o melhor título infantojuvenil de 2019 pelos colaboradores da Quatro Cinco Um. A escritora chilena era perseguida por imagens repetitivas de uma mulher pequena, mas que lhe passava muita força. Era Jacinta, protagonista dessa história ilustrada por Alejandra Acosta e traduzida por Cícero Oliveira, e que incorpora um conto tradicional do Tibete para tratar da morte.

   

Quatro anos depois, Bertrand veio ao Brasil para participar da Flipelô (Festa Literária Internacional do Pelourinho), em Salvador, onde lançou dois novos livros: Lá fora, os fantasmas (com ilustrações de Amanda Mijangos) e A memória do bosque (ilustrado por Elizabeth Builes), ambos pelo Selo Emília e pela editora Solisluna, traduzidos por Valéria Pergentino com ajuda da autora. Nesta visita, Bertrand também passou por São Paulo e conversou com a Quatro Cinco Um sobre morte, abandono parental e leitura de entretenimento.

Seus livros abordam temas difíceis, como morte e abandono. Como falar disso com crianças?
Uma das únicas certezas na vida é a morte. Deixar de fora as temáticas que são parte da vida é não entender que essa criança vai virar um adulto que terá que lidar com essas questões para ser uma pessoa íntegra. Se nos afastarmos de temas difíceis, não estamos nos preparando para viver o que temos que viver.

Esses livros também tratam da relação das crianças com as mães.
Sim, é bonito ver essa linha de continuidade. Em A mulher da guarda, você tem uma mãe que morreu, a menina Jacinta tem que cuidar de seus irmãos. Em A memória do bosque, a mãe está presente, mas tem uma filha que sente saudade da vida deixada para trás, pois estão mudando de casa.

‘A mãe traduz o mundo para as crianças. A literatura também faz isso: traduz o mundo para as pessoas’

De início, a mãe traduz o mundo para as crianças. A literatura também faz isso: traduz o mundo para as pessoas. Já em Lá fora, os fantasmas, temos uma mãe que abraça seu filho, que diz que está sempre com ele. É um livro que fala dos medos, algo que também faz parte da vida humana.

Como foi trabalhar com cada uma das ilustradoras? 
Com a Amanda Mijangos [de Lá fora os fantasmas], conversamos sobre os nossos medos quando meninas. Nessas trocas, Amanda me falou que não queria fazer um livro triste, então foram saindo imagens carinhosas.

Em A memória do bosque foi bem diferente, porque a ilustradora Elizabeth Builes gostou do conto de fada, pois tinha violência, um dragão, tudo isso. A primeira versão das ilustrações foi mais “adulta”. A editora então sugeriu uma coisa diferente. E ali entrou o bosque, um arquétipo. Você sempre será pequeno no bosque, e se surpreenderá.

Ao escrever, você pensa em imagens?
Sim, em geral, para mim a escrita começa com uma imagem. Com A mulher da guarda tudo começou com uma muito forte: vi essa menina pequena mexendo um purê de batatas. Estava escrevendo outro livro e apareceu Jacinta, e fiquei muito tocada. Uma mulher pequena, mas com uma força incrível. À medida que escrevia, ela continuava aparecendo. Tinha que escrever a história dela. Para mim, a escrita é uma questão de imagem, emoções, ideias, pensamentos que de repente tomam conta de você e não vão embora.

Essas imagens da Jacinta desapareceram depois que você escreveu A mulher da guarda
As imagens vão embora e me deixam tranquila quando eu escrevo. Por isso, para mim é muito difícil não escrever quando eu me sinto pressionada ou puxada por uma imagem, elas vêm com muita força.

Você se inspirou em alguma história da mitologia tibetana para escrever A mulher da guarda?
Gosto muito de lendas japonesas, tibetanas etc. Tenho na minha biblioteca uma estante só de contos populares de todas as partes do mundo. Essa lenda tibetana diz que essa mulher ajuda todo mundo. Foi muito legal descrevê-la, tem uma coisa mágica. Acho que o mundo que estamos deixando para as nossas crianças tem muita informação. Você precisa de um pouquinho de fantasia, de magia, de explicações sobrenaturais que são bonitas. De alguma maneira, elas enaltecem a alma. Gostei da ideia de uma mulher, não de um anjo ou um homem, para acompanhar essa menina. Uma mulher pequena, além do mais.

Em Patos e lobos-marinhos: conversas sobre literatura e juventude, livro que reúne vários ensaios de sua autoria, de você comenta a importância dos tipos de livros que os jovens leem. Qual seria o problema de ler apenas o que chamamos aqui de romances de entretenimento?
Você pode ler o que quiser. Mas nem tudo vai formar pensamento crítico, nem tudo vai fazer com que você seja um ser humano melhor, ou uma pessoa comprometida com os outros, sensata e empática. Por isso, não gosto que as crianças leiam qualquer coisa, nem livros feitos para o mercado.

E o que você gostaria de ter lido na sua biblioteca infantil que você não leu quando criança?
Gostaria de ter lido um livro de Mark Twain, O estranho misterioso [no Brasil, publicado pela editora Axis Mundi, em 2012]. É um livro muito especial. Outro livro precioso é Meu pequenino, de Albertine e Germano Zullo [publicado pela editora Amelì em 2019]. Ele é perfeito!

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #74 em setembro de 2023.