Literatura infantojuvenil,

O oceano de cada um

Usando a metáfora de uma baleia, livro mostra como menino autista lida com a família, os amigos da escola e o seu silêncio interior

22abr2021 - 12h09 | Edição #45

   
Lulu Lima e Natália Gregorini  Divulgação

 

Lançado pela editora Mil Caramiolas em 2 de abril, no Dia Mundial da Conscientização do Autismo, Menino baleia, de autoria de Lulu Lima e ilustrado por Natália Gregorini, conta a história de Roger, um garoto que carrega dentro de si uma baleia, metáfora utilizada pelas autoras para falar das necessidades especiais de crianças autistas. Nesta entrevista concedida à Quatro Cinco Um, Lima e Gregorini falam sobre a representação de um tema tão delicado nas páginas de um livro.
 

 

De onde surgiu a ideia de fazer um trabalho sobre autismo?
Lulu Lima: Em 2019, conheci o Rafael, que veio a se tornar meu companheiro. Devido à pandemia, nós decidimos viver na mesma casa. Foi somente assim que eu pude perceber que Rafael trazia comportamentos especiais: necessidade maior de isolamento e silêncio, por exemplo, assim como algumas dificuldades nas interações sociais. Suspeitamos que ele tivesse Síndrome de Asperger. Para ele, foi libertador conhecer melhor a si mesmo, para que pudesse se respeitar e se amar muito mais. Hoje, eu e ele somos grandes amigos.
Quando a inspiração para o livro surgiu, eu entendi que tinha ali também uma missão. Trazer um olhar mais gentil e amoroso para crianças e adultos com autismo. É fundamental conhecer mais para incluir. É importante que crianças neurotípicas também conheçam, dialoguem, compreendam melhor a realidade de seus amigos no espectro. É só assim, representando e se vendo representado, que a inclusão pode acontecer de forma natural e humana. Autismo não é doença e nem é fraqueza da vida.
Natália Gregorini: Quando recebi o convite para ilustrar o Menino baleia, a Lulu já tinha a história. Ela me enviou o texto, que ainda não estava pronto, e assim eu fui também apresentada a Roger e todo seu universo, incluindo o autismo como uma temática para o livro. Eu, inclusive, abracei com muito cuidado e carinho o tema, mas não acho que esse livro fale apenas sobre autismo. Acho que ele permite muitas outras leituras. Gosto do cuidado que a Lulu teve de não deixar explícito no texto que Roger é um menino autista.

 
Como nasceu a metáfora da baleia?
LL: Ela surgiu num momento de solidão e silêncio. O meu companheiro, no espectro autista, precisou estar isolado em seu quarto, a portas fechadas, para se sentir melhor. Eu estava sozinha no sofá da sala, era noite, tentando compreender tudo. Foi quando, na tela da TV, me apareceu uma baleia, nadando no oceano. Ela e o mar me pareciam uma coisa só, um inteiro silêncio. Eram cúmplices na imensidão e na profundidade. Pertenciam-se, ocupavam-se, misturavam-se. Foi quando eu senti: “É isso. Eu o vejo. Tornando-se um com seu próprio mar, com seu próprio silêncio”. Assim me surgiu a vontade de trazer à vida este menino, Roger, com olhos de baleia e todo um oceano dentro de si.
NG: Esse é o elemento que permite contar a história da maneira como contamos. Essa metáfora foi uma das coisas que mais me chamaram atenção para as diversas possibilidades que eu teria para entrar com a narrativa visual no livro. Foi essa imagem da baleia morando no olhar do menino que me encantou de cara.
 

 
Como foi o processo de trabalho conjunto?
LL: A escolha da Natália foi intuitiva e certeira. Não teria melhor pessoa para traduzir o universo interno de Roger. O bonito dessa história é que ela não chegou pronta, foi se construindo com o imaginário, a sensibilidade e as experiências individuais, minhas, da Natália e da coeditora Carolina Moreyra. Foi importante conceder à Natália o espaço e o silêncio de que a sua baleia precisava para nadar com liberdade. Como uma estudiosa do livro-álbum, ela pôde nos oferecer a sua própria perspectiva da história e convidar todos os leitores a uma nova interpretação.
NG: Foi um processo de muito aprendizado. Fazer um livro ilustrado é uma entrega muito grande de todas as partes. Tem horas em que precisamos ouvir e ceder, e horas em que precisamos falar e colocar nossas ideias. Esse é, de alguma forma, o próprio movimento que as palavras e as imagens também fazem no livro. No início, quando eu estava trabalhando na elaboração da narrativa visual, foi quando eu, Lulu e Carolina Moreyra mais tivemos trocas. Acho que esse é o momento mais importante mesmo, pois é quando se define o essencial do livro, como o ritmo da narrativa, o que será contado pela imagem e o que será contado pela palavra, formato do livro etc.
 
Quais cuidados vocês tiveram na hora da criação ao tratar desse tema?
LL: Acho que a delicadeza é o cordão que alinhava toda a história. E ela é, por si só, um cuidado com o nosso sentir. Em todas as etapas do processo, desde que a história era apenas um texto, eu recebi, como um presente da vida, o acompanhamento e a orientação da neuropsicóloga e amiga Andrea Bahia, que tem um trabalho muito importante no diagnóstico e acompanhamento de crianças com autismo. Andrea contribuiu para que o menino Roger fosse protagonista de sua trajetória, não se tornando vítima nem coadjuvante de sua própria história. Até mesmo a forma como as outras crianças aparecem no livro, enxergando e incluindo Roger, é fruto de muitas conversas sobre a iniciativa das crianças em sala de aula e os benefícios de uma educação mais inclusiva.
NG: Procurei respeitar ao máximo as pessoas que vivem no espectro e não trazer para as ilustrações situações ou imagens estereotipadas. Busquei em estudos, séries e filmes pontos de convergência que pudessem nos ajudar a trazer para as imagens os sinais de que Roger é autista, mas com o cuidado de não reduzir as possibilidades de leitura da imagem. As cenas em que ele aparece brincando em seu quarto, por exemplo, em que os brinquedos estão enfileirados, foi uma das ideias que tivemos para trazer ações recorrentes em crianças no espectro. Mas há também aquilo que escapa à ordem, um desenho na porta do guarda-roupa, uma ou duas peças não enfileiradas, o uniforme em cima da cama; todo um universo pessoal do personagem que pode ser de qualquer criança, inclusive uma criança autista. Há outras cenas em que o comportamento de Roger suscita perguntas, como aquela em que as crianças estão indo para a escola de mãos dadas com seus responsáveis e Roger não segura a mão de ninguém. Ele anda pertinho, mas sem segurar as mãos. Essas são sutilezas da imagem que trabalham, junto com a palavra, para criar essa leitura e essa ambientação, mas que não fecham as possibilidades de leitura.
 

Como incentivar o hábito de leitura entre as crianças?
LL: Lendo junto com elas. Sendo, em primeiro lugar, um apaixonado pelos livros e pela leitura. Não é só da história do livro que as crianças gostam. O momento da leitura é muito mais do que uma ferramenta para educação e formação de leitores. Mas, antes, é um momento de fortalecimento de vínculo entre a criança e o adulto, que vai reverberar em muitas esferas de sua vida. É também importante dar liberdade à criança. Deixar que ela leia e interprete a história da sua forma. Encontrar o caminho do meio entre mediar e ser conduzido pela criança, ela que é coautora, que está vivendo sua própria história no momento da leitura.
NG: Acredito que o maior incentivo ao hábito da leitura é que as crianças nos vejam lendo, é ler junto com elas, demonstrar a nossa afeição pelos livros e pelas histórias.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #45 em abril de 2021.