Literatura infantojuvenil,

O ‘livrokê’ de Lulu Santos

‘Songbook’ com os maiores sucessos do cantor e compositor carioca é complementado com ilustrações do artista gráfico Daniel Kondo

01jan2022 - 16h51 | Edição #54

“A gente apelidou de livrokê. Foi o que fizemos na Bienal do Livro, onde a gente promoveu um vasto karaokê”, conta o cantor e compositor Lulu Santos, sobre o lançamento do livro Lulu traço & verso, feito em parceria com o artista gráfico Daniel Kondo. A colaboração surgiu depois de Lulu ver a matéria “Onde quer que eles estejam”, em que Kondo retratava dezessete pessoas falecidas em 2020 no ano passado e que foi publicada na edição de junho de 2020 da revista Piauí. A partir daí, surgiu a ideia de trazer um livro com as letras e os acordes das principais canções de Lulu, que completou quarenta anos de carreira. Há também no livro uma canção inédita, “Hai kai”, de inspiração japonesa. 

Kondo participou ativamente na criação do livro, trabalhando vários registros da cultura pop, seguindo a linguagem das músicas de Lulu Santos. “Sou fã de carteirinha desde a adolescência. Estudo as letras, escuto em looping os álbuns, traço relações entre as canções”, falou Kondo. “Em muitos momentos Lulu tinha claro o que queria nas páginas do livro e em outros ele se surpreendia com a proposta que eu apresentava. Esse desafio nos motivava e quando percebemos tínhamos pleno domínio da proposta gráfica, da paleta de cores, do traçado do livro”, contou sobre a parceria. 

“A escolha dele é justamente pelo encanto que eu tenho pela forma gráfica”, contou Lulu à Quatro Cinco Um, que também falou da razão de lançar um songbook na era da internet e revelou quais livros marcaram sua infância.

De onde veio a vontade de publicar esse livro?
Veio do encontro com o Daniel Kondo, que é um ilustrador. Hoje em dia pensar que querer fazer um songbook, com a inundação de informação dessa natureza que tem on-line, pode parecer meio anacrônico e até desnecessário. Mas, até por causa disso, achei que era bonito ter um objeto. Eu propus a ele essa história, porque o songbook faz parte da minha juventude, da minha formação. Toda a minha juventude eu tive um songbook, editado na década de 70, dos Beatles, já com a banda extinta, com toda a obra, era vagamente ilustrado, mas era o compêndio de que eu precisava: letras e cifras. Achei que a minha música precisava disso.

Como foi esse processo de trabalhar com Daniel Kondo?
Foi bastante colaborativo, porque algumas coisas eu tinha ideias para fornecer. Algumas vezes eu encomendei, outras ele me surpreendeu. A escolha dele é justamente pelo encanto que eu tenho pela forma gráfica. Isso está dentro desse universo pop, que é bastante o que o livro explora, é o que ele é. A minha música é de natureza pop, então a ilustração, o grafismo está dentro desse espectro.

Tem alguma ilustração preferida?
O Kondo é nipo-brasileiro, então pedi  que a ilustração para a canção “Hai kai” fosse bastante japonesa. Só dei esse direcionamento, porque o título já implica isso. Ele fez uma imagem de um sabor oriental, ao mesmo tempo muito gráfico, que eu achei que ficou muito lindo. A da “Adivinha o quê”, que foi uma dessas que eu encomendei, ele executou superbem. É uma porta entreaberta com uma sombra, bem gráfica e bem representativa da canção. Também a de “De repente, Califórnia”, uma Golden Gate bem vermelha e bonita, bem a cara do livro.

Ele coloca seu nome cifrado em algumas das ilustrações, inclusive nessa da ponte. É uma especialidade dele, me esconder (risos).

“Hai kai” é uma música inédita.
É uma canção inédita. Estava dentro de uma programação que a gente tinha e que ficou para “quem sabe daqui a pouco?”, de lançar um EP. A gente fez dois singles, com duas canções inéditas, uma das quais é “Hai kai”. 

Organizar esse songbook acabou sendo uma forma de você rever seus quarenta anos de carreira?
Acho que foi bonito ver isso realizado em outro meio. Isso foi mais emocionante, ver as ilustrações. A canção é para os outros. Uma parte dessas canções são os clássicos que as pessoas associam comigo, com a minha obra e com a sua própria vida. Eu tenho essa leitura de que nós, brasileiros, temos uma relação com a música que passa ou pelo coração ou pela bunda, ou serve para dançar ou serve de trilha sonora para um determinado momento que a gente estava vivendo. Acho que as ilustrações traduzem esse sentimento, do ponto de vista do próprio ilustrador, que tem uma relação com a obra; isso foi o mais bonito para mim. Eu exercito a minha obra o tempo todo, nesses quarenta anos, não tem muito essa coisa de flashback. A verdadeira emoção é ver as músicas realizadas como grafismo.

E a gente apelidou o livro de livrokê. Foi o que fizemos na Bienal do Livro, onde a gente promoveu um vasto karaokê. Ali, fizemos os playbacks de karaokê, com a letra passando numa tela, com as ilustrações do Kondo. As pessoas se esbaldaram cantando as canções, dentro do contexto emocional da vida de cada um! Teve uma enfermeira do Rio de Janeiro que foi cantar “Como uma onda” aos prantos, porque todo dia ela cantava essa canção. A moça cantava e chorava. Foi tudo muito tocante, porque dá para ver a utilidade que tem. Rememora a minha carreira e a vida das pessoas que foram tocadas por essas músicas. 

Você vê a música como uma forma de literatura?
Não, eu sou bastante definitivo em relação a isso. Não me considero um poeta. Eu escrevo letras de música. É outro meio. Um texto literário lido ou recitado é diferente de uma melodia e harmonia que carregam em si significados muito potentes. Muitas vezes a letra é apenas uma forma de delinear sentimentos que já estão embutidos no que a canção pretende. Mas, acredite, eu não escrevo no papel as minhas próprias letras, eu as decoro. Se eu não decorar, é porque provavelmente o público vai ter dificuldade de decorar também. Por outro lado, eu também simplifico a minha prosa. 

Às vezes, sou convidado para escrever uma canção, com Marcos Valle ou Ed Motta, ou para o Djavan, e daí, quando recebo aquela canção sem palavras, eu fico tentando adivinhar o que essa pessoa tentou dizer e não conseguiu. Tem um indizível que é dito na melodia, no encontro da melodia com a harmonia, o sentimento ou a emoção que aquilo carrega tem que ser decifrado. Eu acho que a letra é um pouco o hieróglifo da literatura, tem uma simplificação que se adéqua à melodia e à harmonia. É um outro processo. Uma canção pode ser cantada, não necessariamente ser escrita, como meu próprio meio de compor explicita.

Qual a sua relação com os livros?
Eu gosto de literatura. Eu leio o tempo todo. Sou uma pessoa da geração revista. Meu pai comprava as revista Cruzeiro e Manchete na banca toda semana. A gente lia a revista toda semana. O Clebson [Teixeira], que é meu companheiro, tem 29 anos, ele vê as pilhas de livros e já fala: “Está acumulando de novo?”. Ele fica zangado, nervoso, porque tem um senso de ordem muito forte. Eu falo para ele: “A pilha de livros é o fato cultural da vida de uma pessoa”. 
Eu gosto muito de quadrinhos. E tem uma produção brasileira contemporânea muito boa, que reúne a arte gráfica com o universo pop e texto, muitas vezes um texto que é esquelético ali, mas que carrega tanta força e tanta expressão. Neste ano que passou li um chamado Luzes de Niterói, de Marcelo Quintanilha, que é uma das melhores coisas que eu li em 2021. Acabei de ler um chamado Eu, lixeiro [de Derf Backderf]. Sou muito fã da editora Veneta também. 

Literatura é uma presença na minha vida. Não tenho a pretensão de ser um literato. Sou parceiro de um imortal da Academia Brasileira de Letras, porque Antonio Cícero é um deles, e temos que celebrar Gilberto Gil como acadêmico e literato. Não tenho essa pretensão, porque meu universo é o da compreensão pop.

Qual livro marcou sua infância?
Tenho uma canção que se chama “Tesouros da juventude”, na verdade é uma letra do Nelson Motta. Tesouros da Juventude era o nome de uma coleção de livros infantojuvenis que toda família de classe média para cima tinha. Eram duas coleções: O Mundo da Criança, que tinha doze volumes, e Tesouros da Juventude, com quinze. A casa dos meus pais tinha uma estante grande com os títulos. Li muita literatura infantojuvenil, depois teve um período em que eu gostei muito de arqueologia. 
Vou dizer o título principal da minha infância, provavelmente o primeiro livro que foi meu, com onze, doze anos de idade, que é do Erico Verissimo, As aventuras de Tibicuera. É uma espécie de Tom Sawyer brasileiro. É um relato de um índio, cativante. Por acaso, reencontrei e recomprei esse livro numa livraria virtual, e está ali na minha pilha de livros.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #54 em outubro de 2021.