Literatura infantojuvenil,

As crianças de rua do México

Juan Pablo Villalobos estreia na literatura infantil com livro que trata da fome e do abandono familiar em meio a elementos fantásticos

08set2022 - 02h35


 Ilustração de Raysa Fontana [Divulgação]

Tem que estudar muito para escrever para crianças e adolescentes. Foi o que concluiu o escritor mexicano Juan Pablo Villalobos, que estreia na literatura infantil com Uma viagem cósmica a Porto Ficção, que está sendo lançado agora pela editora FTD, com tradução do também escritor Miguel Del Castillo e ilustrações de Raysa Fontana. Autor de outros quatro romances adultos – Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal, Te vendo um cachorro e Ninguém precisa acreditar em mim (publicados pela Companhia das Letras), Villalobos apresenta nessa obra a história de três crianças de rua que moram na cidade fictícia de Porto Ficção, cuja rotina de pedir tacos para matar a fome e buscar um lugar seguro para dormir é quebrada quando se deparam com uma criatura extraterrestre saída do mar. Esse ser é sequestrado e as crianças tentam resgatá-lo, enquanto tentam descobrir que poderes ele possui. Em entrevista concedida à Quatro Cinco Um (revista para a qual já colaborou) concedida em português (ele morou três anos no Brasil), o escritor falou sobre abandono familiar, a vida dura das crianças mexicanas e brasileiras e como as histórias de Charles Dickens e os romances picarescos inspiraram seu livro.
 


Juan Pablo Villalobos [Juan Lemus/Divulgação]

O que levou você a escrever o livro?
Estava trabalhando em um livro de crônicas de não ficção, ainda não publicado no Brasil, chamado Yo Tuve un Sueño: El Viaje de los Niños Centroamericanos a Estados Unidos, que fala de crianças migrantes de Guatemala, Honduras e El Salvador. Elas viajam dos seus países de origem até os Estados Unidos, percorrendo o México, sofrendo todo tipo de violência, discriminações. Esse livro fez uma diferença na trajetória da minha escrita. Até então eu tinha publicado quatro romances, que tinham um tipo de humor e de comédia mais ácido. Foi por causa desse tipo de humor que um selo muito bacana de literatura infantil do México [Fondo de Cultura Económica] me contatou e perguntou se eu gostaria de escrever um livro infantil. Gostei muito do projeto, porque meus filhos eram leitores dele. Só que aconteceu antes esse livro das crianças migrantes, o que mudou muito minha forma de ver o mundo e de entender literatura. Porto Ficção é, provavelmente o meu livro mais sério. Levei muito a sério essa história de escrever para crianças e adolescentes. No sentido de não querer ser condescendente, nem usar uma “linguagem mais acessível”, ser mais pedagógico. Crianças são muito inteligentes. A leitura tem que ser um desafio.
 
Esse foi o aspecto mais desafiador de escrever para um público mais jovem?
Esse esforço não era para desenvolver uma linguagem adequada para as crianças, ou para identificar ou escolher os assuntos. O esforço era tentar não entrar nessa posição de olhar de cima, como adulto, maior idade, de outra geração, estudei mais, experimentei mais coisas na vida. Estaria narrando de cima e a criança estaria em um patamar mais baixo. O esforço era “descer”, não no sentido de perder coisas, empobrecendo meu vocabulário, simplificar meu pensamento, por exemplo, para a criança entender. Não é isso. É “descer” no nível das emoções, dos sentimentos, do que significa ser uma criança de dez, doze anos, e tentar voltar para esse momento, conectando com o que significa ser criança e adolescente hoje. O que eu não fui. Fui nos anos 80. E é muito diferente.
 


Ilustrações de Raysa Fontana [Divulgação]

Você retrata a vida das crianças de rua no livro e sua relação com a fome, o abandono familiar e a falta de políticas públicas para a infância. Pensou em fazer algum tipo de denúncia social no livro? Compara a vida das crianças de rua no México com as do Brasil?
Tem duas coisas aqui: a primeira tem a ver com a ver com a realidade social do México, do Brasil e da América Latina toda, do que significa ser uma criança pobre, excluída, discriminada. A segunda, sendo escritor – não sou ativista nem político que vai mudar essas realidades com programas sociais –, tem uma questão estritamente literária que tem a ver com gênero. Nossa tradição hispânica tem a picaresca, que é um gênero que os leitores do mundo hispânico  identificam muito rápido. Temos uma tradição muito rica. Tem um grande clássico da picaresca da Espanha, Lazarillo de Tormes [romance de autoria anônima publicado em meados do século 16], que é sobre uma criança de rua, que tem que sobreviver com todas as explorações e violências no mundo no qual ela vive. Gosto muito desse gênero, porque a figura do pícaro é essa criança que tem que aprender a sobreviver nesse mundo. 

Voltando para a questão social, muitas vezes existe um julgamento moral sobre essas crianças e sobre o seu comportamento que a sociedade faz a partir da sua vida confortável. Se faz o julgamento de uma criança que, por exemplo, faz um pequeno roubo, como acontece no livro, e já imediatamente se fala “essas crianças são um perigo, são criminosas”, sem parar para pensar qual a realidade dessas crianças. Sendo ciente de que os leitores do livro iam ser crianças e adolescentes de classe média, média alta, achei interessante propor uma reflexão sobre em que lugar se está no mundo, como esse lugar está cheio de privilégios, de possibilidades de vida que outras pessoas não têm. E que é muito injusto julgar dessa posição de privilégio as pessoas que não têm esses privilégios. Felizmente, aqui no México, o livro foi adotado pelo governo para ser distribuído para as escolas. É o meu livro mais vendido! Foram 97 mil exemplares comprados pelo governo mexicano. Para um outro tipo de leitor, de escola pública.

O abandono familiar também é um tema muito presente.
Essa era outra questão importante para mim. As crianças estão na rua porque os pais migraram e as deixaram para trás. Essas crianças têm que se virar nesse mundo. Esses personagens têm aventuras nessa cidade fictícia de Porto Ficção, e, através dessas aventuras, sem que eu tenha que fazer apologia de uma ideologia, os leitores podem refletir um pouco sobre as circunstâncias dessas crianças.

Como encontrar o equilíbrio entre esses temas sérios e difíceis, como fome, violência e abandono, de uma forma leve?
Acho que a diferença parte desse esforço de se colocar no lugar dos leitores, de se colocar no lugar dos personagens, por isso era importante a escolha de quem é a narradora da história [Sabina, irmã gêmea de Sabino, que andam pela rua com a garota Nellie], o ponto de vista dela. Se eu tivesse escolhido um narrador em terceira pessoa, onisciente, como no romance do século 19, isso seria um tipo de narrador que estaria mais próximo das minhas ideias, do meu julgamento, com olhar condescendente. Como a narradora é uma das protagonistas, ela não tem autocomiseração, não fica choramingando. Ela conta as coisas normais entre aspas, porque uma criança não teria que procurar todos os dias por tacos ou onde dormir. Ela conta com naturalidade porque é a vida que ela conhece. Quando o leitor sabe mais que o personagem, a gente fala "ironia dramática", mas nesse caso é uma ironia de classe. Eu sou um homem de classe média, média alta e eu percebo que o que a narradora conta com naturalidade não é para ser normal, que é inaceitável, mas é a vida que a personagem conhece, que ela conta sem choramingar. Tem todos os elementos fantásticos, mágicos, que eu já faço em outros livros. Gosto muito da ideia do cachorro que fala, do caranguejo, essa possibilidade de entrar num mundo de fábula, de desenho animado, onde as leis da realidade funcionem de outro jeito. Quando entra o elemento social e político, ele não é didático, pois é contado com distanciamento pela narradora. Isso dá uma tranquilidade de que nada horrível aconteceu, de que ela sobreviveu.
 
Tem algum livro que você gostaria de ter lido quando era criança?
Acho que gostaria de ter lido Charles Dickens quando criança. Li depois na faculdade. Os personagens de Dickens se viram de um jeito absurdo e inspiraram o livro, assim como personagens crianças da literatura russa.
 

Como incentivar o hábito da leitura entre as crianças?
Lógico que tem fatores ligados à família e à escolarização, que são mais difíceis de mudar. Se na casa não tem livros ou se os pais não têm hábito de leitura, é difícil de o livro ser um objeto do cotidiano. Se a escola não está fazendo o trabalho de formar leitores (de ensinar a gostar dos livros), é difícil. Mas, nos últimos tempos, tem uma coisa para mim que tem dado resultados interessantes: é o mecanismo de tirar a literatura de um lugar de isolamento. Tanto na criação quanto na leitura existe essa percepção de que é algo que se faz sozinho. É uma meia verdade. Temos, então, as oficinas de escrita e os clubes de leitura. São lugares onde a literatura entra num diálogo, tem a possibilidade de compartilhar um espaço onde estamos expressando o que achamos, pensamos e sentimos. Quando a literatura se torna social. Essas redes vão ser cada vez mais importantes no mundo em que a gente vive. Há cada vez mais clubes de leitura de pessoas que se reúnem espontaneamente, que gostam de um determinado tipo de literatura, estão espalhadas pelo mundo e se encontram a cada mês. Aí é onde a literatura sai do isolamento e vira um fenômeno social. Se as crianças e os adolescentes conseguem encontrar esses grupos, eles podem dialogar, não só de literatura mas de tudo, e é um lugar onde os livros podem estar no mundo. A principal pergunta da literatura é: como é que podemos viver juntos, sem violência, sem conflito, com possibilidades mais reais de igualdade? Não é qual o meu lugar no mundo, mas como eu consigo me relacionar com os outros, como me integro no mundo.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).