O escritor Guilherme Ricardo Dicke, em foto sem data (Acervo pessoal/Divulgação)

Literatura brasileira,

O tesouro de Ricardo Guilherme Dicke

O pesquisador Rodrigo Simon de Moraes conta sobre a descoberta de dezenas de contos inéditos do autor de Madona dos Páramos

23mar2026

Num raro desafogo entre as leituras obrigatórias do doutorado em teoria e história literária, o pesquisador Rodrigo Simon de Moraes se deliciava com uma entrevista concedida por Hilda Hilst a Caio Fernando Abreu quando se deparou pela primeira vez com o nome do mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke. Descrito pela autora paulista como dotado de um texto mais bonito que o de Guimarães Rosa, Dicke era desconhecido não só de Moraes como também do grande público. O jogo parece ter virado nos últimos anos, quando a Record passou a editar a obra de Dicke.

Em abril de 2016, exausto de procurar informações sobre Dicke com conhecidos e em instituições que preservam seu acervo de artes plásticas, Moraes telefonou para a filha única do autor, morto oito anos antes, na esperança de alguma boa notícia. E ela veio quase de maneira displicente. Sem se dar conta do tesouro que guardava em seu apartamento em Cuiabá, a herdeira de Dicke comentou, de passagem, sobre a existência de “um monte de papel”. Foi o suficiente para o pesquisador pegar um avião e iniciar a pesquisa que mudaria sua trajetória acadêmica e a recepção de Dicke no Brasil.

O pesquisador Rodrigo Simon de Moraes (Acervo pessoal/Divulgação)

Entre os milhares de folhas datilografadas, ele encontrou um caderno com o título Música de mortos suaves, contendo dezenas de contos escritos à mão na década de 60, que seria o embrião do volume que a Record publica agora, com organização e fixação de texto pelo próprio Moraes.

Reunindo catorze contos, o volume revela um autor que soube manejar a prolixidade que marca seus romances — e mais de uma vez foi apontada como causa de seu ostracismo — com a necessidade de concisão inerente às narrativas breves. O resultado é uma literatura quase impressionista, que recusa a adesão a correntes modernistas e neorrealistas de seus contemporâneos, e nos leva a uma experiência sensorial que potencializa, em vez de diluir, a intensidade do narrado.

A filha única do escritor comentou, de passagem, sobre a existência de ‘um monte papel’

No primeiro conto, vertiginoso, uma família se muda da cidade para uma propriedade rural — esse contraste também é central na obra de Dicke — e, um a um, os filhos são acometidos por moléstias que acabam por matá-los. A aparente resignação do pai causa incômodo; contudo, logo entendemos que a superação da oposição entre vida e morte é um dos temas fundamentais nas histórias. 

Hoje professor da Universidade de Princeton, Moares conversou com a Quatro Cinco Um sobre a edição de Música de mortos suaves e o seu trabalho quase arqueológico nos arquivos de Ricardo Guilherme Dicke.

Como alguém merecedor de elogios e distinções de autores como Hilda Hilst e Guimarães Rosa acabou praticamente invisível no país?
Isso se deu por três motivos. O principal deles foi que, na década de 70, depois de alguns anos vivendo no Rio de Janeiro, Dicke voltou a morar em Cuiabá, o que o deixou distante das editoras. Naquela época, o contato era difícil, feito especialmente por cartas, e os telefonemas eram caros. Além disso, Dicke era extremamente tímido e tinha grande dificuldade para desempenhar um papel, digamos, social, que já naquela época era importante no meio literário. Por fim, Dicke defendia aguerridamente seu estilo voltado a longos textos. Tenho cartas de editores, como Ênio Silveira, mencionando certo excesso de palavras em um original de Dicke. 

Você menciona a dificuldade de Dicke em encontrar editoras tradicionais para os romances dele. Poderia falar dessa barreira?
As dificuldades foram ficando maiores com seu afastamento dos grandes centros. Caieira, seu segundo romance, foi publicado pela tradicionalíssima Francisco Alves. Porém, quanto mais tempo longe do Rio de Janeiro, mais foi sendo esquecido. Ele viveu um caso curioso, que chamei em uma apresentação de “conhecido por ser desconhecido”. De tempos em tempos um grande jornal se lembrava dele, mas o caracterizava como ermitão, isolado. Além disso, seus escritos eram diferentes do que se produzia na época. Na literatura sempre se procuram parentescos, linhagens, aproximações. Mas Dicke não se parecia com nada. Houve tentativas de associar seu estilo ao de Guimarães Rosa, mas, se bem observados, é possível ver que eram muito diferentes.

Os contos de Música de mortos suaves permaneceram inéditos até a sua descoberta. Você entende o movimento como uma opção do autor ou como uma resignação em relação ao mercado editorial da época?
Mais uma resignação que, a bem da verdade, nunca foi totalmente pacífica. Até o fim ele lutou para ser publicado. No caso dos contos, Dicke achava que eles tinham se perdido devido aos cupins que surgiam sempre no início da temporada de chuvas em Cuiabá. Eu conto isso no prefácio do livro. Ele certamente gostaria de ter visto publicados não só os contos, mas todos seus escritos. 

O que sentiu ao abrir as caixas contendo os inéditos em Cuiabá? 
A primeira sensação foi de êxtase, uma consciência da importância histórica de tudo aquilo, mas veio acompanhada de ansiedade. A princípio eu tinha apenas uma semana para conhecer todo aquele material, que ali não contava com qualquer organização. Estavam os inéditos misturados aos originais de romances já lançados, além de poemas, desenhos, cartas, documentos pessoais e crônicas publicadas na imprensa cuiabana. Meu grande medo era que tudo aquilo se perdesse. Foi só quando Ariadne, sua filha, me pediu que cuidasse de tudo aquilo que me tranquilizei. 

Você defende que Dicke seria um autor sui generis no cânone da segunda metade do século 20. O que torna sua literatura tão singular são características estruturais? Temáticas?
Ambas. Dicke jamais se associou aos valores modernistas predominantes na literatura chamada modernista. Nenhum traço solar, nenhuma coloquialidade ou despojamento neorrealista que entre muitos escritores da mesma geração buscava dar conta da bruta realidade vivida na ditadura brasileira. A Dicke importava menos a realidade imediata e mais uma certa metafísica. Como ele mesmo diz em uma carta a Hilda Hilst, “a gente só respira mistérios, nós lidamos com o imponderável das coisas eternas”. Para dar conta disso ele lançou mão de um estilo único, caudaloso, ou como a própria Hilda definiu tão bem: uma linguagem que tem uma oleosidade fascinante.

O escritor Guilherme Ricardo Dicke, em foto sem data (Acervo pessoal/Divulgação)

Como posicionar a literatura dele em relação à produção literária então hegemônica?
É difícil enxergar assimilações na obra de Dicke. Quando muito, vejo uma certa proximidade de sua literatura não com um autor brasileiro, mas venezuelano, que é o Rómulo Gallegos. Me atentei a isso pois, em todo seu material, encontrei uma única tradução realizada por Dicke, que foi do conto “Marina”, publicada por Gallegos pela primeira vez em 1919. Também vejo Dicke incorporando em seus livros sua visão de artista plástico. Sempre descrevendo cenas de maneira muito pictórica, especialmente no efeito que a luz exerce sobre os objetos. E o que ele parecia mais rejeitar era justamente uma autoanálise no interior da narrativa. 

Uma marca de Dicke é a prolixidade: abuso de adjetivos e advérbios, divagações de personagens e prolongamento de descrições. Como essa poética se traduz na escrita dos contos, gênero historicamente associado à unidade de efeito e à concisão?
Acho que essa é a grande riqueza dessa novidade na obra de Dicke. Dadas as peculiaridades, digamos, ornamentais, seu texto corre sempre o risco de escorregar para momentos de dispersão, resultando em perda de tensão, como se vê em alguns dos seus romances. Ou seja, quando livre do propósito de concentração, há o risco de a prolixidade levar a uma desordem, perdendo o poder de impacto sobre o leitor. No entanto, no caso dos contos, quando a narrativa está conectada a um centro que a organiza, a prosa de Dicke faz algo fabuloso, que é manter suas cores vibrantes sem permitir que acabem se tornando um grande borrão.

Sua análise aproxima Dicke de uma experiência do sagrado. Como explicar essa dimensão sem reduzi-la à religião institucional?
Esse ponto é central e posiciona a literatura de Dicke como profundamente atual e, ao mesmo tempo, diretamente inserida em certa tradição, no que se tem de melhor entre os grandes clássicos da literatura universal. A linha de força que atravessa sua obra é a busca pela superação daquilo que divide a vida e a morte. Ele vai em busca da superação do tempo cronológico, que se dá por um reencantamento do mundo, o que Webber também chama de “remagificação” do mundo, uma experiência do sagrado que ele localiza na natureza e na arte, não na igreja. 

O contraste entre o cenário urbano e o rural nos contos se torna o terreno mais fértil para o desenvolvimento de reflexões metafísicas? 
Torna o terreno ainda mais interessante no contexto da obra de Dicke como um todo. É fantástico observar como ele busca estar em conexão direta com a natureza mesmo em um ambiente urbano. Notar todo o exercício que ele faz para alcançar isso. É importante lembrar que, ao contrário da obra de autores como José Eustasio Rivera, ou do próprio Rómulo Gallegos, nos que foram chamados no início do século passado de romances da selva, onde a natureza é a inimiga que destrói, que engole o homem, na poética de Dicke a natureza é caminho não para reduzir, mas para ampliar a condição humana.

Seu estilo único foi definido por Hilda Hilst como uma linguagem que tem uma oleosidade fascinante

Ao lidar com manuscritos e peças datilografadas, há decisões delicadas. Quais foram os critérios que você usou para a edição?
O principal foi publicar apenas os contos que, escritos na década de 60 em um pequeno caderno à mão, foram datilografados pelo escritor. Os demais aguardam que, em meio a seus escritos possíveis, eu encontre versões datilografadas, pois isso me parece um sinal claro de que o autor os considerava prontos. Ao fixar o texto, busquei manter o máximo a dicção de Dicke, fazendo correções apenas no que era claramente erro de digitação ou mesmo de ortografia. Ou seja, fizemos o trabalho que um editor faria com qualquer escritor.

Há dez anos, você saiu de Cuiabá com cinquenta quilos de papel na mala. Em algum momento teve medo de que tudo aquilo fosse grande demais para dar conta?
O tempo todo. E a angústia se tornou ainda maior porque, para além do trabalho sobre os textos em si, eu quis fazer um mergulho profundo na vida de Dicke. Isso certamente ajudou a iluminar sua obra. Ao longo do tempo, muitas lendas foram criadas. Dou um exemplo: muitas pessoas que escreveram sobre Dicke mencionam a existência de um romance chamado Como o silêncio, que teria sido publicado em 1968. Até hoje não encontrei uma só pessoa que tenha esse livro ou mesmo que o tenha visto. 

Além de Música de mortos suaves, podemos esperar mais descobertas no material que você resgatou?
Sim. Nesse pequeno caderno onde os contos foram escritos à mão, existem 49 contos. Desse total, apenas três haviam sido publicados antes, entre 1968 e 1978. Depois, eu mesmo publiquei um deles em um artigo em uma revista acadêmica em Portugal. Outros dois eu cedi a Eliane Robert Moraes para que fossem publicados em antologias no Brasil e em Portugal. Por fim, ofereci à revista piauí o conto “Música de mortos suaves”. Há ainda 31 contos inéditos que Dicke talvez possa ter datilografado. Neste semestre estou dando aulas aqui em Princeton e envolvido em diversos outros projetos, mas pretendo voltar em breve a esse material. Além disso, há poesia nunca publicada entre seus papéis e pode haver romances inéditos. 

Se hoje um leitor curioso quiser conhecer Ricardo Guilherme Dicke, por onde deveria começar: pelos romances ou pelos contos?
Eu recomendaria que começasse justamente por Música de mortos suaves. Os contos exibem a espetacular habilidade de Dicke no manejo da língua, mas em pequenas doses, abrindo caminho para leituras que exigem um pouquinho mais de fôlego — mas que, ao mesmo tempo, oferecem um imenso deleite —, caso de romances fabulosos de sua autoria, como Caieira e Madona dos Páramos, que encantaram nomes como Guimarães Rosa, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro e Hilda Hilst.

Quem escreveu esse texto

Lucas Verzola

Escritor e editor, é autor de Infelizes à sua maneira (Incompleta)

Para ler este texto, é preciso assinar a Quatro Cinco Um

Chegou a hora de
fazer a sua assinatura

Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.

Ecobag Exclusiva

Há nove anos nutrindo leitores onívoros!

Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil

Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.

Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.

Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.