Literatura infantojuvenil,

Os dez anos de Gildo

Em meio às comemorações do aniversário do elefantinho, a autora Silvana Rando lança dois novos livros

01out2020 - 01h00 | Edição #38 out.2020

O ano de 2020 é bastante especial para a escritora Silvana Rando, pois marca o aniversário de dez anos do elefante Gildo, personagem que apareceu pela primeira vez em 2010 e vendeu 130 mil exemplares. Protagonista de vários livros da autora, o carismático elefantinho ganha uma nova aventura com O incrível livro do Gildo, que sai agora pela Brinque-Book. Outra novidade é o lançamento da primeira história protagonizada pela barata Socorro, figurinha cativa nas histórias do Gildo, com Socorro em: uma vida nada fácil, que sai pela Editora Escarlate, selo infantojuvenil da Brinque-Book. Em entrevista à Quatro Cinco Um, Rando comenta como Gildo ganhou vida própria e como ela e Socorro são parecidas.

Imaginava que seu personagem ia fazer tanto sucesso? Na sua opinião, a que se deve essa popularidade? 
Gildo é um garoto de sorte. Muito carismático, leva uma vida agitada, recebe inúmeras cartas e tem vários amigos que o adoram. Anda tão independente que eu nem consigo acompanhar. Tem festas e mais festas com ele, crianças o levam para casa e tiram fotos. Para mim, tudo isso é um grande mistério.

Como surgiu esse personagem?
Gildo nasceu de um desenho, um rabisco. Queria criar um personagem grande, forte, corajoso, mas que também fosse sensível. Sempre vi doçura nos olhos dos elefantes. Aquele seu sorriso de canto me cativa. Confesso que também tenho uma queda por hipopótamos, mas no desenho o elefante se saiu melhor.

Em O incrível livro do Gildo, ele acaba escrevendo um livro seguindo as sugestões de várias pessoas e só no fim resolve escrever aquilo de que realmente gosta. Já aconteceu de você escrever um livro tentando agradar todos menos você mesma? 
O livro foi inspirado em meus alunos. Durante um ano, dei aula em um colégio onde cada criança fazia o próprio livro. Foi uma experiência fantástica acompanhar e direcionar o processo de criação de cada um. Eram tantas ideias, tanta energia. Eles queriam colocar tudo na mesma história: amigos, filmes, desenhos, jogos, família… mas o resultado foi incrível. Com o passar do tempo, aprendi que faço meus livros para mim. Primeiramente precisa me agradar, senão a coisa toda desanda.

‘Tenho uma queda por hipopótamos, mas no desenho o elefante se saiu melhor’  

Tem algum livro com o Gildo que seja seu preferido?
Gosto de todos, mas tenho um carinho especial pelo primeiro, Gildo, que me trouxe reconhecimento. E A irmã do Gildo me emociona por eu ter feito para meu irmão.

De onde surgiu a ideia para criar a história de Socorro em: uma vida nada fácil?
O livro é uma junção de várias coisas de que eu gosto. Eu queria criar um universo para ela, separado do Gildo, por isso fiz a Cidade de Três Pares. Uma primeira inspiração foi Joe’s apartment, um filme divertidíssimo dos anos 1990 [lançado no Brasil com o título Joe e as baratas]. Mas depois misturei um bocado de coisas do meu universo, como a cena punk, por exemplo.

No livro da Socorro, você diz que ela é sua personagem favorita. Por quê? 
Eu adoro acrescentar a Socorro nas histórias do Gildo. Ela traz um humor que me representa. Acho ela mais parecida comigo.

Que livro você gostaria de ter lido quando jovem?
Nos anos 1970 era difícil ter acesso a bons livros, principalmente se a condição social não ajudava. Na escola, conheci a coleção Vaga-lume que me fez gostar de ler. Hoje tem tantas coisas incríveis na literatura infantojuvenil. Histórias fantásticas, ilustrações que são verdadeiras obras de arte. Não saberia escolher um livro apenas. Mas acho que eu adoraria ter lido as obras do Roald Dahl, como Os pestes, por exemplo [lançado no Brasil pela Editora 34]. Roald Dahl me representa… [risos].

Como criar o hábito de leitura entre crianças?
Toda pessoa gosta de uma boa história. As crianças também gostam, é claro. Mas é preciso apresentar uma história que seja interessante para ela. A leitura vira consequência de uma curiosidade. 

Em tempos de protestos antirracistas e uma busca por maior diversidade no mercado editorial brasileiro, gostaria de saber se poderia trazer alguma reflexão em torno da polêmica em torno do seu livro Peppa, ocorrida em 2016. [Na história, a personagem principal Peppa, que possui cabelos encaracolados, decide alisá-los, mas depois descobre que é mais feliz deixando seu cabelo natural. O livro causou uma série de debates sobre racismo na época, e a autora pediu que a editora o retirasse de circulação, no que foi atendida.]
Pessoas que nunca tiveram voz agora gritam. E que importante é isso! Que toda a clareza possa tirar o véu dos olhos daqueles que concordam com a homofobia, o racismo, o feminicídio… É um grande momento para a humanidade, um crescimento. Meu livro Peppa não era racista, claro. Mas trazia gatilhos e brincadeiras de mau gosto. Ainda bem que pude refletir e tirá-lo ele de circulação. Ouvi muitas pessoas e aprendi bastante com isso. Entendi verdadeiramente o que é a empatia.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #38 out.2020 em setembro de 2020.