Literatura infantojuvenil,

As crianças de María José Ferrada

Do exílio forçado no México ao desaparecimento durante a ditadura do Chile, a autora chilena resgata histórias dolorosas vividas por crianças

15mar2021

A autora chilena María José Ferrada não escolhe temas fáceis de serem abordados para o público infantil. Do exílio forçado de crianças espanholas na cidade de Morelia, no México, em meio à Guerra Civil Espanhola (1936-39), em Mexique, passando pelo envelhecimento da protagonista de Meu bairro (os dois ilustrados por Ana Penyas), e chegando ao desaparecimento de crianças durante a ditadura no Chile, tema dos poemas de Crianças (que traz ilustrações de María Helena Valdez), Ferrada consegue trazer leveza a temas áridos. Esses três títulos chegam ao mercado brasileira pela Pallas Míni, mostrando a força do trabalho da autora chilena. No Brasil, a editora ÔZé já havia publicado Escondido, feito em parceria com Rodrigo Marín Matamoros, outro livro seu voltado para crianças, além do romance Kramp (Moinhos, 2020), voltado para o público adulto. Nessa entrevista concedida à Quatro Cinco Um, a escritora fala mais sobre o resgate da memória dessas crianças e como é importante se confrontar com a dor do outro.

Em Mexique Crianças, você aborda temas difíceis e complexos, como imigração, guerra, morte e ditadura no Chile. Como tratar esse tipo de tema para um público infantil? Quais os desafios?
Acho que o desafio tem a ver com abordar as questões de forma que elas estejam ao alcance das crianças, sem perder sua complexidade, sem amenizá-las. Porque são livros que abordam partes obscuras da nossa história e do ser humano que as crianças também percebem — muitas vezes no papel de vítimas. Então o objetivo desses livros é que paremos nessas histórias, que usemos o livro como uma ferramenta de reflexão, que discutamos por que essas coisas acontecem para rever o que podemos fazer, a partir do lugar em que estamos, para que essas coisas não aconteçam novamente. Não podemos esquecer que por trás dos exilados, por trás da violência política está sempre a intolerância e a incapacidade de acolher quem pensa ou é diferente. Portanto, esses livros buscam que desde pequenos reflitamos sobre qual é o nosso papel na construção de sociedades violentas ou pacíficas.

Ilustração de Ana Penyas

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Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de ireito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).