Literatura infantojuvenil,

Ancestrais do avô

A escritora cubana Teresa Cárdenas lança livro infantojuvenil sobre família, afeto e ancestralidade

24nov2023

Em 2022, Teresa Cárdenas desembarcou no Brasil para lançar Awon Baba (Pallas), romance que mistura ficção e memória em histórias sobre pessoas que viveram na escravidão e sobreviveram a ela. Neste outubro, a escritora cubana voltou para falar sobre seu novo livro. Lançado pela Editora de Cultura com tradução de Caio Riter, Meu avô Tatanene traz a história da relação de afeto de uma neta com seu avô quilombola, que sonha em ir à África conhecer suas origens.


Meu avô Tatanene, de Teresa Cárdenas, é narrado por Reglita, uma menina de 12 anos, que conta sobre seu avô Gregório, um quilombola que sonha em ir à África para conhecer a terra de seus antepassados

De onde veio a inspiração para escrever Meu avô Tatanene
Em toda minha carreira de escritora, esse é meu segundo projeto como novela. Escrevi Meu avô Tatanene três anos depois de Cartas para a minha mãe (Pallas, 2010). A inspiração veio da minha experiência como assistente social ligada à área da saúde em Cuba. Basicamente, minha carreira estava direcionada à ajuda aos mais desfavorecidos, desamparados, idosos, crianças e adultos com deficiência física e mental, assim como mulheres que engravidam e não possuem apoio familiar etc. 

Mas acredito que essa vontade de ajudar as pessoas tenha muito a ver comigo, não somente com a profissão. Quando me apresentaram a esse serviço, eu não sabia do que se tratava; mas assim que o vi na prática, soube que era o que queria ser. Um dos tantos lugares em que trabalhei foi precisamente um hogar de ancianos, como chamam os asilos para idosos em Cuba. Foi uma mudança radical na minha vida, porque minha família era muito unida e tínhamos várias gerações vivendo juntas, com recém-casados, anciãos e bebês habitando o mesmo lugar. Então foi impressionante encontrar tantas pessoas, principalmente idosos, em situações de desamparo físico muito acentuado — como os personagens de Meu avô Tatanene, que não tinham mais alguns membros do corpo devido à idade avançada, ferimentos de guerras e adoecimento —, mas que tinham tanta sede de viver. Eles eram como fortalezas. Ainda que entre fortificações, havia também a solidão e o abandono, conferidos por alguns familiares que mal os visitavam, mesmo depois de terem entregue as próprias vidas em favor de sua criação.

São histórias fortes, chocantes, e tudo o que vivi e todos que conheci me marcaram profundamente e estão em cada página desse livro. É a minha maneira de agradecer-lhes, homenagear suas vidas e o tempo que me deixaram viver a seu lado.

Como foi contar sobre a diáspora africana em Cuba para crianças e jovens?
Em Cuba nunca foi um problema contar às crianças sobre a diáspora africana. É um assunto muito conhecido por todas elas, na verdade. Tanto em relação a Cuba e a África, quanto ao que devemos às pessoas que resistiram e sobreviveram ao terrível fenômeno da travessia, do tráfico, da tortura e da morte no sistema colonial. A raiz africana é parte da identidade nacional e isso é bem conhecido e visto em livros infantojuvenis nas nossas escolas e, mesmo que muitas vezes apresentado de maneira superficial, sinto que ao menos o tema é tratado.

Crianças precisam sentir que vieram de grandes histórias, de grandes civilizações humanas, e não dos barcos onde seus ancestrais foram tratados como animais

Creio que o problema não vem das crianças, mas sim dos adultos. Ou das pessoas que escrevem para os pequenos. Muitas dessas pessoas não veem a necessidade de conversar ou escrever sobre o assunto. Bem, eu sou uma mulher negra e vim de uma família negra. As problemáticas da escravidão têm a ver comigo em todos os sentidos: meus ancestrais sobreviveram a ela e por isso estou aqui. Muitos não conheci, mas todos vivem em mim. Estão na minha memória, no meu sangue, no que sou, na minha maneira de pensar, de atuar, de amar, respirar etc. Por isso, também me parece natural que eu escreva sobre a parte do mundo em que essas famílias se originaram. Como existem muitas escolas que não contam sobre esse período da história, muitas crianças não sabem sobre suas próprias famílias. É importante que as crianças saibam que a história de sua afrodescendência não começa com a escravidão — e sim muito antes: no continente africano, onde existiam normalmente, gostavam da vida e eram artistas, maestros e médicos, em meio a universidades e reinos. Creio que precisam sentir que vieram de grandes histórias, de grandes civilizações humanas, e não dos barcos onde foram tratados como animais. 

E quais são os impactos de lerem obras com temas considerados difíceis?
Esses e tantos outros temas não se tornam complicados se devidamente dedicados a crianças e jovens. Com eles pode se discutir sobre quaisquer temáticas. Vejo minha literatura e meus livros serem muito bem aceitos pelos jovens leitores. Crianças fizeram desenhos ligados à história de Meu avô Tatanene, em uma passagem que fiz por uma escola na Venezuela. Seus desenhos eram sobre cenas fortes do livro, mas eles as encheram de flores e nuvens, porque estes elementos também fazem parte da vida cotidiana junto às dificuldades. O que quero dizer é que elas entendem o que estamos escrevendo. Creio que o problema não está em tratar sobre estes assuntos, mas sim em como os abordamos e quanta honestidade, inteligência e sinceridade colocamos nisso. É parte do nosso trabalho pensar em como queremos apresentá-los. Há autores negros que não gostam de tocar nessas temáticas, ou não as acham necessárias, mesmo que tenham tanto a ver com eles. Eu as abordo por também considerá-las uma parte da luta e resistência por aqueles que sobreviveram.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.