Literatura infantojuvenil,

A transformação do luto

A cantora e compositora Anelis Assumpção estreia na literatura infantil com história inspirada na relação de infância com sua irmã Serena

01jul2022 - 12h50 | Edição #60

“Serena era Serena porque veio antes. Por ter chegado antes, tinha saberes que despertavam sua irmã curiosa, que veio depois.” É assim que começa o livro de estreia da cantora e compositora Anelis Assumpção, Serena finitude, com ilustrações da artista Aline Bispo, que acaba de ser lançado pela Oh! Outra História, selo infantil recém-criado da editora Veneta. O livro foi inspirado na relação de infância de Anelis com sua irmã mais velha Serena, também cantora, compositora e produtora cultural, que morreu em 16 de março de 2016, em decorrência de um câncer de mama.

Filha do cantor e compositor Itamar Assumpção, cujas obras infantis vêm sendo publicadas pela editora Caixote desde o ano passado, Anelis valeu-se da literatura para lidar com o luto. “Não planejei escrever um livro sobre a Serena, mas, desde que ela morreu, quase tudo que eu produzo é acerca dela”, contou a artista à Quatro Cinco Um. Nesta entrevista, ela conversou sobre assuntos delicados como a morte de seus familiares próximos, sua relação com a linguagem e sua admiração pelo trabalho de Suzy Lee.

De onde veio a vontade de publicar um livro? Foi inspirado na sua irmã? 
Na verdade, eu tenho pensado já há algum tempo na possibilidade de publicação. Embora eu não tenha uma compreensão da minha produção como escritora, ainda que eu produza muita escrita. Eu escrevo composições, o meu exercício de escrita é para construção de canções. Há alguns anos venho exercitando outras vertentes da escrita, da palavra, da comunicação, dentro de linguagens diversas. Muito por causa da internet, como meio de comunicação mais democrático, eu fui achando também uma forma de dividir e expor o que eu produzo escrevendo.

‘Não planejei escrever um livro sobre a Serena, mas, desde que ela morreu, quase tudo que eu produzo é acerca dela’

O livro foi inspirado na minha infância com a minha irmã, principalmente na nossa relação. A organização das ideias para o livro aconteceu inconscientemente por uma necessidade grande de reorganizar a falta dela na minha vida, na matéria, eu quero dizer. Retomar dentro de mim  a nossa relação, entender a minha criança lidando com a morte da própria irmã. Não planejei escrever um livro sobre a Serena, mas, desde que ela morreu, quase tudo que eu produzo é acerca dela. Minhas composições, minha música, meu disco Taurina é praticamente todo ambientado nesse sentimento de luto. Então, aconteceu de agora isso virar um livro.

Escrever o livro foi uma forma de lidar com o luto?
Na verdade, o luto parece ser algo que a gente realmente carrega a vida toda. Eu ainda vivo o luto do meu pai e já tem dezoito anos que ele faleceu. A gente transforma o luto, se acostuma a caminhar. Mas claro, tem um momento em que a gente se assusta com a morte. Talvez seja o momento mais delicado do luto mesmo. Porque desorganiza tudo. Tudo que a gente sente. Como a gente vai seguir a vida, os sentimentos…A tristeza é senhora. Ela fica muito por perto. É muito estranho, e isso acontece ao longo dos anos de diversas formas. O luto se renova, é uma coisa muito maluca. Então, sim, foi uma forma de lidar com isso, de olhar para o meu luto. Infelizmente, quando a gente perde uma pessoa, tem sempre uma dinâmica muito fria na nossa sociedade. Com pouco respeito para com o tempo. Então, a gente tem que resolver questões burocráticas. A casa da pessoa tem que ser desfeita. A Serena deixou uma criança, o Bento, meu sobrinho, que hoje vive comigo, tive que resolver todas as questões jurídicas relacionadas a um menor. A gente é atropelado por todas essas burocracias e tudo fica pausado. Então, acontecem essas renovações depois que as coisas se acalmam. A gente começa a olhar para o mundo, para a morte, e, desenvolver um processo de compreensão que dura muito tempo.


Ilustrações de Aline Bispo

Qual a lembrança mais gostosa que você tem dela? 
Tenho muitas lembranças gostosas da Serena: da gente conversando até tarde da noite, tendo ataque de riso e meus pais mandando a gente dormir. De falar que eu estava sem sono, pedir para ela ficar acordada conversando comigo, daí, de repente, eu começava a dormir, ela ficava brava comigo e falava: “Poxa, eu estava dormindo, você me acordou e agora que eu estou desperta você dormiu? Pode conversar comigo agora”. Eu não sei como a gente tinha tanto assunto, a vida toda a gente teve muito assunto. A lembrança mais gostosa que eu tenho é da Serena ser a única pessoa no mundo que entendia completamente o meu humor, o meu pensamento. Acho que a lembrança mais gostosa que eu tenho mesmo é a da nossa cumplicidade. 

No livro há muitos jogos de palavras, poesia concreta, palíndromos. Como é, para você, esse trabalho (e por que não, brincadeira) com a linguagem? 
É um trabalho e brincadeira também, podemos falar assim. Mas, como eu disse, eu sou mais uma atrevida que uma escritora. Escrever, para mim, começa com uma necessidade de organização de pensamento mesmo. Então, eu escrevo cartas para organizar os meus sentimentos. Cartas que eu nunca enviei. Isso me ajuda profundamente. Eu escrevo os meus sonhos, um raciocínio, para poder entender onde é que eu quero chegar com aquele pensamento. Então, a escrita começa em mim com uma necessidade de comunicação e de organização mental. Então, percebi que eu estava escrevendo de uma forma infantil, porque talvez quisesse escrever para a minha criança interna, que vive aqui ainda, para os meus filhos, sobretudo para o filho da Serena, essa criança que passou por esse trauma de perder a mãe aos onze anos. Precisei perceber que linguagem eu ia usar. Por ter filhos, sempre li muito para eles, sempre notei e achei curioso a síntese de uma boa literatura para criança, o que eu acho muito difícil. No meu caso, eu acho muito complexo, porque eu não tenho muito poder de síntese. Eu me senti desafiada também pela linguagem infantil para simplificar o pensamento tão complexo que é o pensamento sobre a morte, a falta, as pequenas mortes diárias.


 

Ao final do livro tem um glossário com algumas palavras iorubá e tupi-guarani. Qual foi o objetivo de ter esse glossário apesar de as palavras que aparecem nele não constarem no texto? 
Quando escrevi o texto de apresentação do livro, que, na verdade, ficou no final do livro, era uma ideia de apresentação minha e da minha irmã. Ali, eu pude me permitir escrever de uma forma menos infantil. Com uma linguagem um pouco mais próxima de como as palavras navegam no meu pensamento. Foi uma sugestão da editora que de pronto achei riquíssima. Porque, de fato, a gente tem poucas referências de palavras em iorubá e tupi-guarani, e até mesmo em outros dialetos indígenas e africanos que estão misturados no nosso cotidiano. É uma forma de aproximar e de reorganizar esse grande ato que se criou entre as culturas de matriz africana e as dos povos originários do Brasil. Claro que isso é muito pouco, é simbólico, mas através desses símbolos a gente começa a quebrar alguns desses padrões de pensamento. É sempre uma oportunidade de diminuir mesmo esse vale entre as culturas que ficaram apagadas e invisibilizadas dentro da história e da construção desse país.

Como foi trabalhar junto com a artista Aline Bispo? 
Foi maravilhoso. A Aline foi de um nível de sensibilidade absurdo. Eu não falei com nenhuma outra pessoa. Só que eu tinha que criar coragem de fazer o convite, e ela prontamente me aceitou. Ela já tinha uma relação com a Serena, por conta do Ascensão, o disco da Serena. Ela também é uma pessoa que a gente chama “do santo”, uma pessoa que desenvolve a sua espiritualidade dentro da religião, muitas intersecções. Ela foi uma pessoa muito doce e leve. A gente conversou muito, e fiquei surpresa com como as nossas conversas se transformaram em desenhos e pinturas. É como se fosse um arranjo para composição a ilustração de um livro. Ela fez um arranjo lindíssimo.   

‘É como se fosse um arranjo para composição a ilustração de um livro. A Aline Bispo fez um arranjo lindíssimo’

Existe alguma diferença entre escrever um livro e uma letra de música?
É completamente diferente a comunicação de uma composição de um livro. Uma letra de música tem todo um respaldo, um apoio melódico. O canto, a melodia de uma letra que vai vestir a letra de uma música, ela dá um tom onde aquela composição vai. Onde pode ir, pode chegar. Isso também é infinito, uma mesma letra pode ter infinitas melodias. Assim como as ilustrações da Aline são esse tom, esse suporte para as palavras que estão no livro. Tudo pode ser diferente se for ilustrado por outra pessoa, em outro momento, se outras cores forem usadas…Mas, no meu caso, que lanço agora o meu primeiro livro em parceria com uma artista que faz as ilustrações do meu texto, eu me sinto muito à vontade, porque eu também faço música sempre em parceria com alguém.


 

Desde o ano passado a obra voltada para crianças do seu pai, Itamar Assumpção, está sendo publicada pela editora Caixote, e você agora segue por esse mesmo caminho na literatura infantil. Como vê essa produção do seu pai? E você está trilhando esse mesmo caminho, adentrando a literatura logo depois de ter uma carreira consolidada na música?
Os livros do meu pai da coleção Homem-bicho, bicho-homem são textos que ele começou a produzir na década de 90, começo dos anos 2000. Acho muito natural que quem escreva seja uma pessoa inquieta. É muito natural que haja uma vontade de se arriscar em outros formatos. O meu pai teve esse desejo. Já quanto à minha forma, é bem diferente. Embora eu tenha sido estimulada pelo mesmo desejo de explorar a criação através de uma outra linguagem, consigo dizer com muita tranquilidade que eu sou uma compositora. Mas, que eu sou uma autora, eu ainda preciso de muitas horas de voo. Então, acho que essa é a grande diferença. Tenho outros textos, outras produções infantis e adultas que eu ainda não sei se vão virar livros. Espero seguir escrevendo letras, canções, poemas, contos, e me comunicando nesse grande exemplo que eu tive do meu pai e inclusive da Serena, que era uma excelente escritora. Uma das produções mais lindas que eu já li.  

Tem algum livro que você gostaria de ter lido na infância? 
Eu gostaria que na minha infância tivessem livros como os que eu vi ao longo desses vinte anos de maternidade. Como é rica a produção literária infantil, como é estimulante e inteligente. Eu queria ter tido essa oportunidade na minha infância. Mas não tem nenhum livro que eu gostaria de ter lido. Eu li a vida, o quintal, as relações. Tive uma oportunidade de infância que talvez esteja em extinção que é brincar. Eu sinto falta mesmo de não ter tido oportunidade de acesso a produções mais cultas, mais profundas, mais sensíveis. A gente tinha uma coleção que chamava Conhecer (da editora Abril) e a outra era O mundo da criança (editora Delta). Era uma coleção com uma série de tipos de texto, coisas de corpo humano, tinha um volume que eram só contos de fadas, outro que eram só piadas, charadas. Essas foram as minhas leituras. Muito gibi. Então, de fato, vejo que hoje a produção é cada vez mais bonita. Há livros sem palavras, e isso é de uma poesia, de uma riqueza. A primeira vez que eu chorei com um livro sem texto foi um da escritora sul-coreana Suzy Lee. Fiquei completamente atravessada por uma leitura sem palavras.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.