Literatura infantojuvenil,

A incansável Ruth Rocha

Aos 89 anos, a autora lança Almanaque do Marcelo, diz que o imposto sobre os livros é “um horror” e fala de planos para o futuro

01jan2021 - 01h00 | Edição #41 jan.2021

Com mais de cinquenta anos de carreira, a escritora Ruth Rocha lança uma espécie de spin-off de Marcelo, marmelo, martelo (1976), que vendeu mais de 20 milhões de exemplares: o Almanaque do Marcelo — e da turma da nossa rua, publicado pela editora Salamandra e que ela escreveu junto com sua filha, Mariana Rocha — a obra foi resenhada na edição de outubro da Quatro Cinco Um. Aos 89 anos, a autora paulistana continua incansável. Além do Almanaque, as histórias de Marcelo, marmelo, martelo ganharão pela primeira vez uma adaptação audiovisual pela Viacomcbs International Studios (VIS), em parceria com a Coiote Produções Cinematográficas. Ruth também está finalizando um livro sobre a evolução humana. Nesta entrevista ela fala sobre esses novos trabalhos, o imposto sobre os livros e se há alguma diferença entre os leitores dos anos 1970 e os da atualidade.
 
Como surgiu o personagem do Marcelo, marmelo, martelo?
Toda criança me pergunta isso. Tiro das minhas leituras. Sou leitora há 82 anos. As coisas surgem também das conversas, dos acontecimentos do mundo, das minhas vontades. Fiquei com vontade, meti o pau na ditadura naquela época, por exemplo. Os livros saem da vontade de falar, das minhas opiniões.

Por que Marcelo, marmelo, martelo faz tanto sucesso até hoje?
Eu não sei. Se soubesse, fazia duzentos Marcelos. Tenho livros que não vendem muito. Outros que vendem bem, mas nem tanto. Não sei dizer, é um mistério para mim.

Você escreveu o Almanaque com sua filha Mariana. Como é essa parceria?
Ela trabalha comigo há muito tempo. Mas esse foi o primeiro trabalho que fizemos juntas. Foi uma delícia. A gente vai fazendo e vai acontecendo. Eu lia para ela o que escrevia, e ela fazia sugestões. Mariana sempre foi a minha maior crítica, ela e meu marido [Eduardo Rocha, com quem Ruth foi casada por 56 anos até o falecimento dele, em 2012]. Mariana foi sempre a pessoa de quem mais aceitava críticas.

Como foram feitas as escolhas dos temas do Almanaque?
Trabalho há muito tempo com esse assunto. Fiz isso por anos na Editora Abril [onde passou a trabalhar como editora em 1973, para depois coordenar o departamento de publicações infantojuvenis, além de escrever sobre educação na revista Claudia e ter editado a revista Recreio]. Era uma atividade da qual gostava muito. Também apreciava o formato quando era criança: a revista Tico-Tico lançava um almanaque todo ano. Meu primo tinha a coleção da enciclopédia Tesouro da juventude e eu gostava muito de lê-la. Assim como O livro dos porquês. Esse Almanaque mostra os personagens da Turma da Nossa Rua nesse formato. Por exemplo, o Marcelo é especialista em palavras, então a parte dele seguiu por esse tema. O Catapimba gosta de futebol, daí fizemos uma parte de esportes. Uma das personagens das meninas foi escolhida para falar da luta das mulheres, e assim por diante.
 
O Marcelo vai receber uma adaptação audiovisual. Como surgiu a ideia do projeto?
Minha filha tem amigos no Rio que trabalham com audiovisual e que tinham interesse em fazer uma adaptação do Marcelo. Eu já havia pensado em fazer isso antes, em desenho animado, mas só agora deu certo.
 
Falando nisso, sente alguma diferença entre o seu público leitor de meados dos anos 1970 com os de agora?
Escrevi o Marcelo em 1969 e lancei  em 1976. É a obra de que as crianças mais gostam. Até mesmo cinquenta anos depois. Não tem diferença. Hoje a gente ouve mais as crianças, aceitamos mais a opinião delas, isso é que mudou. As crianças menores são muito parecidas. Os adolescentes é que são mais diferentes, pois são quase adultos. Criança é sempre parecida. A educação é que mudou.
 
O ministro Paulo Guedes apresentou uma proposta de reforma tributária que inclui a taxação de 12% sobre os livros, o que aumentaria o preço deles. O que acha desse imposto?
Acho um horror! Estive presente em Brasília quando fui com editores pedir o fim do imposto sobre os livros no governo Lula. Eu vivi isso. Esse governo só faz besteira. Não faz nenhuma coisa boa para o país.  
 
Tem algum livro que você gostaria de ter lido quando criança e não leu?
Muitos. Todos os da Ana Maria Machado, do João Carlos Marinho, da Marina Colasanti, do Ziraldo. Gosto de todos os escritores modernos brasileiros. Na minha infância, li muito Monteiro Lobato.
 
Como incentivar o hábito de leitura nas crianças?
Teria que fazer um livro inteiro sobre o assunto. Primeiro é preciso que a criança ouça, fale bem, o que significa que tem que cuidar da alfabetização, que a família leia livros. Os pais deveriam dar o exemplo. É importante que a criança domine a língua e que ela seja ouvida pela família. Existe muito analfabetismo funcional, em que as pessoas conseguem ler, mas não entendem o que leem. Então, é preciso ter uma boa alfabetização, ter livros em casa (ou que a criança tenha contato com livros em bibliotecas, na escola) e a família precisa dar o exemplo. Criança brinca fazendo tudo o que o adulto faz. Quando vê o adulto lendo, ela quer ler também.
 
Está escrevendo algum outro livro?
Estou acabando um livro sobre evolução. Chama O grande livro dos macacos. Falo sobre as pessoas serem descendentes do macaco, que foi nosso ancestral há 4 milhões de anos. Somos muito parecidos com eles, geneticamente falando, somos 98% semelhantes aos chimpanzés. Mostro assim a evolução do homem. Observo que fomos descendentes também de pequenas moléculas do fundo do oceano e de como somos parentes de todas as formas vivas, inclusive das plantas. Faço noventa anos em março e ainda gosto muito de trabalhar. Estou muito animada com esse novo livro.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #41 jan.2021 em dezembro de 2020.