O escritor pernambucano Walther Moreira Santos (Acervo pessoal/Divulgação)

Fichamento,

Walther Moreira Santos

Autor de mais de sessenta livros, escritor pernambucano lança, agora em papel, romance vencedor do prêmio Kindle

16set2025 | Edição #98

O ano do Nirvana (José Olympio) acompanha dois personagens deslocados que se encontram às noites de sexta-feira na orla e nas boates da Recife dos anos 90.

O ano do Nirvana se passa em Recife, mas poderia ser qualquer cidade brasileira litorânea, concorda?
As orlas das grandes cidades brasileiras se parecem muito. Não gosto de situar [um romance], mas as referências estão todas lá: o [hotel] Atlante Plaza, a avenida [à beira-mar]. Hoje [aos 46 anos] moro em Gravatá, uma cidade com cara de Suíça na região serrana de Pernambuco. Escrevi esse livro quando
tinha 21 anos, na década de 90, quando vivia no Recife. É um romance pouco escrito, ele foi mais anotado.

O que quer dizer com um “livro anotado”?
É cheio de comentários — que são as anotações que eu fazia na Universidade [Federal de Pernambuco], ou sobre personagens que existiam de fato e perambulavam pela orla. Era para ser um livro
erótico, diferente dos que publiquei ao longo de trinta anos. Tenho mais de sessenta livros publicados, quarenta para crianças, não combinava. Mas uma amiga pediu para eu não jogar fora [o manuscrito] porque os diálogos eram muito bons.

Teve de cortar muita coisa do manuscrito original?
Cortei o máximo que pude. E ficou uma novela pequena, mas densa e com uma verdade fresca,
mesmo escrita há décadas. Inscrevi no prêmio Kindle na última hora, sem a menor pretensão de ganhar.

Que outras anotações entraram na versão final?
Sobre pessoas que eu encontrava. Eu adoro conhecer gente. Na época, soube de um universitário que se prostituía para poder pagar o curso de direito. Conheci esse homem no CVV (Centro de Valorização da Vida), onde eu trabalhava como voluntário, e senti que ele poderia ser protagonista de um romance. Ele
dançava nu dentro de uma gaiola. Na primeira versão, era um romance meio sadomasoquista —
seria como um “cinquenta tons de cinza” no Recife.

O homem que se prostitui é um dos protagonistas de O ano do nirvana, mas o romance é narrado por uma mulher de outra camada social, que não sabe muito sobre ele. Por que essa escolha?
Um pouco pela forma como as pessoas se encontravam naquela época. A gente pegava recado em uma caixa postal — “estou no bar tal, a partir de tal hora” — e saía com alguém que mal conhecia. A narradora, que tem dificuldade em se relacionar com homens, não conhece muito dele. Eles se encontram à noite, nas boates. A noite nivela todos. E acontece esse encontro de uma mulher em uma situação econômica mais confortável e esse cara mais periférico. Um encontro entre dois vazios. Quando reli as anotações, vi que eram os dois lados do Brasil se encontrando na orla, que é um território neutro.

Como um livro passado na década de 90 se relaciona com o Brasil atual?
Eu me lembro de coisas como a fila de desempregados procurando uma vaga de trabalho e penso que a gente não avançou muito. Tem sempre uma coisa sombria nos bastidores do poder que pode pular no nosso pescoço a qualquer momento, não dá para relaxar.

E a relação com a banda Nirvana, em alta na época?
Há uma referência aos anos 90, a efervescência da banda, mas também uma ironia. Porque a história
da banda não tem nada a ver com “nirvana”, um estado contemplativo de paz. Há um doce-amargo
nas letras. No romance também, tem um lado doce, de amor entre duas pessoas um pouco deslocadas em seu meio, e este por sua vez é hostil, é o amargo.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “Walther Moreira Santos”