Fichamento,
Victor Vidal
Historiador da arte estreia na literatura com romance sobre trauma e violência doméstica vencedor do prêmio Leya
31ago2025 • Atualizado em: 16set2025 | Edição #97Construídos sobre escombros da sociedade brasileira, Não há pássaros aqui (Todavia) mergulha no corpo e no trauma de uma mulher violentada e violenta.
Não há pássaros aqui é seu primeiro romance publicado, mas li que você já tem nove escritos…
Onze. Mas não são publicáveis, considero mais exercícios. Só na hora em que tive a ideia para este romance senti que era algo especial, valia insistir.
Quando foi isso?
Comecei a escrever em 2020, depois de uma viagem a Amsterdã. Conheci a casa onde Anne Frank se escondeu, voltei com a imagem de duas crianças em um sótão.
Como passou do esconderijo de Anne Frank para um thriller nos escombros brasileiros?
Fui me perguntando quem eram essas crianças no sótão e me veio a ideia de um orfanato para onde elas queriam fugir. Ficou óbvio que essas crianças tinham lares destruídos, e isso foi puxando a narrativa.
Foi difícil escrever em primeira pessoa na voz de uma protagonista mulher vítima de violência doméstica?
Os sentimentos que ela evoca, de perda, de violência, todo mundo pode experimentar. Além disso, como eu nunca tinha publicado, não era conhecido em nenhum lugar, tinha essa possibilidade de escrever o que quisesse, liberdade total.
O romance se passa numa metrópole suja e feia, apesar de ter mar. Como foi a escolha desse cenário?
Eu imaginei ser o Rio de Janeiro, onde moro, mas não quis dar nomes aos locais, aos bairros. O orfanato eu imaginei no subúrbio, na zona Norte; o museu que os personagens visitam eu visualizei o Museu de Belas Artes, que fica no Centro. Tudo com um olhar mais sombrio para a cidade. As pessoas reconhecem o Rio, mas dizem que a cidade [do romance] é muito horrível. Respondo que é horrível porque a protagonista vê assim, vive num ambiente de violência. Quando escrevo, sempre me pergunto o que o meu corpo estaria sentindo se eu estivesse nesse tipo de ambiente.
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Como foi passar esse tempo no corpo de uma mulher abusada, traumatizada, que agride os outros?
Escrever as partes em que ela sofria violência não foi difícil, a gente vive num ambiente em que todo o tempo tem alguém contando sobre episódios de violência que viu ou pelos quais passou. O difícil foram as partes em que a protagonista era violenta, me colocar no papel de uma pessoa que causa dor ao outro. Não faz parte da minha personalidade reagir impondo violência, foi duro técnica e emocionalmente. Eu me pegava pensando: “as pessoas a tratam tão mal, ela está certa de deixar um animal morto na frente da casa da vizinha”, e me arrependia por pensar assim.
Mas criou uma protagonista muito dura e cruel, que agride até o único amigo que tem. Não quis dar nenhuma esperança?
Quis fugir dessa ideia de uma vítima perfeita, que sofreu muito, não revida e vira quase mártir. Entendi que, se você vê violência o tempo inteiro, não tem muito como escapar. Há narrativas de superação, de melhora, mas na maioria das vezes não é isso que acontece. Fui entendendo aos poucos. Gosto de deixar o livro ir me mostrando o que ele quer contar, e ficou claro que eu estava escrevendo uma história sobre trauma, sobre a violência doméstica, que também é social… Aquela frase de efeito que ouvimos muito, “violência gera violência”.
Fui uma criança muito passiva. Tive professores que eram grosseiros, violentos até, e minha resposta era ficar de cabeça baixa e seguir em frente. Mas tinha colegas que enfrentavam, e me lembro de pensar que até gostaria de ser essa criança que revida.
Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025. Com o título “Fichamento: Victor Vidal”
