Fichamento,

Stefano Volp

O autor capixaba estreia no romance policial com trama que trata de homofobia, racismo e seitas religiosas

27jun2022 - 16h45 | Edição #59

Junto com a reedição de Homens pretos (não) choram, o escritor, tradutor, roteirista e editor Stefano Volp publica O beijo do rio (Harper Collins), seu primeiro romance policial com protagonista negro LGBTQIA+.

Qual foi a motivação para escrever um thriller?
Li muito na infância Sidney Sheldon e Agatha Christie. Como cresci lendo romance policial, pensei que, quando estivesse um pouco amadurecido na escrita, era um gênero que me interessaria desenvolver. Tenho interesse pelo gênero domestic noir, como é chamado lá fora — livros como Garota exemplar e A mulher na janela —, que é sempre protagonizado por uma mulher que vai se “quebrar” e depois vai se transformar. A gente não vê homens protagonizando esse tipo de thriller. Queria fazer um thriller, mas não pegar uma fórmula batida. Achei que seria interessante escrever essa história do ponto de vista de um homem negro, que vai se tornando cada vez mais vulnerável ao longo do livro, até se descobrir. 

O romance tem uma influência da narrativa audiovisual. Como esse meio influenciou sua escrita?
Bastante. Eu sou roteirista, inclusive estamos conversando com várias produtoras para a adaptação do livro para uma série audiovisual. O beijo do rio era, primeiro, um projeto de série, que já estava bem robusto. Tentei vendê-la, mas nunca obtive resposta positiva. Resolvi, então, escrever o livro e, em outro momento, fazer essa venda. Foi muito divertido voltar a essa prosa, fazer essa adaptação. Herdei muito a questão de como se escreve uma cena.

Foi por isso que você escreveu o livro em vinte dias?
Sim, porque eu já tinha o projeto da série. Eu conhecia os ganchos, já tinha toda a história planejada, sinopses de capítulos. Depois disso, mergulhei na história, bem no começo da pandemia. Escrevi o livro em 2020. Não saía de casa, então não foi difícil terminar nesse período.

Você escreve as histórias já com um objetivo político em mente ou as narrativas surgem ao longo da escrita?
Ótima pergunta. A primeira coisa é que eu sou um preto gay, que me vejo como um corpo político na sociedade em que vivemos. As narrativas que eu escrevo são narrativas que transpassam. Naturalmente, quando desenvolvo o roteiro de uma história é quase inevitável essa necessidade dentro de mim de poder me conectar com outras pessoas que são transpassadas por temas como racismo, violência e homofobia. Também tem outro aspecto. Eu cresci lendo Sidney Sheldon e Agatha Christie, e nunca me vi representado nas obras deles enquanto pessoa negra, enquanto homossexual, então hoje eu escolho isso. Estou cansado de consumir esse gênero e não me ver representado.

A seita religiosa dos virgianitas de O beijo do rio teve inspiração em alguma da vida real?
Acredito que pessoas vão dizer que estou falando das igrejas evangélicas; outras, do catolicismo. A minha família é conservadora, assim como a igreja na qual fui criado. Criei uma seita fictícia, exacerbando um pouco do que vi, do que ouvi falar que acontecia em igrejas evangélicas de cidades pequenas da Baixada Fluminense.

Você produz as capas dos seus livros e traduziu recentemente Uma autobiografia, de Agatha Christie.
Trabalhei anos como webdesigner e produzir as capas é muito divertido. Traduzir é uma arte tão interessante quanto a escrita. Mas não consigo mais pegar mais traduções porque dão muito trabalho.

Você também tem uma editora, a Escureceu. 
É uma microeditora de financiamento coletivo. Nasceu com o Clube Caixa Preta, no Catarse, em que assinantes recebem mensalmente um conto de algum autor negro esquecido, nunca publicado aqui. Por demanda dos assinantes, passamos a publicar romances.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #59 em junho de 2022.