Fichamento,
Milly Lacombe
Jornalista, escritora e feminista (como faz questão de se apresentar) lança romance sobre amor, desamor e as agruras do patriarcado
27out2025 | Edição #99Curto e direto ao ponto, Eu te amo, cretino (Seja Breve) parte de crises da pandemia e de um relacionamento para falar de machismo e feminismo sem perder o humor.
Eu te amo, cretinofala de crises sérias — a pandemia, o fim de um casamento —, mas tem uma leveza, tem humor, é amoroso. Dá alguma esperança?
Tem tudo isso porque senão a gente não sobrevive, né? O final não é óbvio — nada indica que o casal vai ficar junto, mas tem uma coisa boa no rompimento. Melhor para a mulher do que para o homem, embora ela fique com a fama de chata. Minhas amigas que leram falavam “Ela é uma chata!” e eu respondia “Mas ela é a gente!”.
E por que a gente é chata?
Numa sociedade organizada nos termos do patriarcado, somos as chatas porque apontamos os erros, as perversidades. Desculpa, mas chata é uma sociedade tão desigual, que silencia, interrompe, assedia. É isso que a [personagem] Marina está apontando.
Tem todas essas questões, mas também é uma história de amor, concorda? Pretendia isso?
Concordo totalmente. Quando veio a pandemia, me vi inundada de um medo de morrer e perder as pessoas que eu amo. Passava os dias vendo as notícias de gente morrendo. Minha ex-mulher viu minha ansiedade e me disse para ficar dez dias sem ver o noticiário. Mas precisava fazer alguma coisa para passar o tempo e comecei a escrever uma novela, que fui publicando em minha coluna da [revista] tpm. A Marina e o marido, Otávio, me salvaram da angústia. Mais tarde, quando me perguntaram se eu tinha uma novelinha para uma nova editora, revisitei os textos, mudei coisas e nasceu o livro.
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Quais foram as mudanças mais importantes?
No começo, era mais um monólogo do que um diálogo. A Marina era ainda mais palestrinha — era mais eu. Quando fui reescrever, mudei o Otávio também. Ele deixou de ser apenas um rebatedor das frases da Marina e a causa de todos os males. O diabo ficou um pouco mais equilibrado.
Você critica o modelo patriarcal de família (teve até uma mesa cancelada em um festival literário por causa dessas críticas), e o casal da novela é heteronormativo, bem padrão. Por que essa escolha?
Teve o cancelamento no festival, mas depois teve a mobilização em protesto. Se não fossem as manifestações, a censura teria dado num lugar muito ruim.
O casal, apesar de não ter filhos, é bem padrão. Queria me comunicar com o lugar de onde vim, sou fruto disso, família classe média do Sudeste, muito branca, muito convencional. Peguei exatamente esse núcleo para dar uma atualizada. Na pandemia, eu via minhas amigas reclamando dos maridos por eles fazerem coisas horríveis. Deu vontade de retratar o que eu via.
Mas foi generosa com o Otávio, que começa a entender alguma coisa no decorrer da história.
Bom falar isso, porque foi minha intenção. O homem é fruto da mesma sociedade perversa e, em certa medida, também é vítima. Fui generosa com ele, mas dura com a estrutura que o torna assim.
Ao mesmo tempo, você quis mostrar como o personagem não era tão desconstruidão quanto imaginava ser?
O cara se acha desconstruído por fazer o óbvio. Muitos homens absorveram a ideia do que precisam fazer para não serem tão criticados, mas vão só até um limite: o da perda dos privilégios. Não conseguem entender a profundidade do machismo — nem vão entender enquanto acharem que estão nos ajudando. A gente quer é que entrem nessa luta, porque é para a emancipação deles também. Eles não vão acordar um dia e falar “ah, tá, agora entendi”. É um processo que envolve perdas e nem todo mundo está disposto. Não sei se a nossa geração vai ver a mudança.
Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Milly Lacombe”
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