Fichamento,

Martha Batalha

Autora de ‘A vida invisível de Eurídice Gusmão’ lança romance sobre repórter policial decadente e o lado B do Rio de Janeiro

20mar2023 - 12h07 | Edição #68

Chuva de papel (Companhia das Letras), terceiro romance de Martha Batalha, acompanha a tragédia e a comédia dos personagens quase sempre invisíveis da cidade.

Chuva de papel acompanha a vida de um repórter policial “das antigas”. Como foi sua experiência como repórter e nas redações de jornal?
Eu tinha dezoito anos quando comecei a estagiar n’O Dia, um jornal popular. Cobria enterro toda semana. Sou muito grata a essa experiência. O Rio de Janeiro é uma cidade muito dividida e quando você faz esse tipo de reportagem realmente conhece o outro lado. Tem um repórter que até hoje trabalha n’O Dia, o Luarlindo Ernesto, que viu de tudo. Sempre tive respeito por esses velhos jornalistas, eles pegavam muito pesado e eu queria entender como era a vida emocional deles.

Você também fez pesquisas sobre reportagens de outras épocas para escrever o romance?
Entrevistei repórteres de uma geração anterior à minha e pesquisei na hemeroteca da Biblioteca Nacional. Comecei a entender a cabeça de Joel, o protagonista do livro. Eu pesquiso menos interessada em fazer romance histórico e mais em como o lugar influencia a vida das pessoas.

A vida na cidade combinada às angústias e reportagens de Joel me fez pensar numa mistura de Ilusões perdidas, de Balzac, com true crime.
Engraçado, essa é a primeira entrevista que dou sobre o livro e aparecem coisas que não planejei. Fiquei muito atenta à questão da linguagem, como a forma de falar define o lugar e as pessoas. E o único jeito de contar as histórias do repórter Joel era colocar tudo aquilo em ação.

Joel só existia quando contava uma história. Isso vale também para uma escritora ou escritor?
Eu como escritora só existo quando sou lida e me sinto muito viva quando conto uma história. Tenho formação de jornalista, que me ajuda demais, mas nunca fiz curso de escrita. Comecei a escrever [ficção] depois de me mudar para os Estados Unidos, em 2008, e tive que me formar por conta própria. Tenho hoje uma biblioteca imensa só de livros de escrita. Pensei em passar isso adiante e criei uma newsletter na plataforma Substack sobre o processo criativo, para propagar o que aprendi com os norte-americanos. Tem uma coisa que admiro muito neles que é pensar em como fazer dinheiro com essa arte. A literatura brasileira está crescendo e se tornando mais profissional, acho importante isso.

Você sente preconceito em relação ao livro que vende muito, considerado mais comercial?
Isso acontece no mundo todo. Quando a Elena Ferrante começou a vender muito, começaram a falar “ah, não é tão boa”. Olha, passo longe dessas coisas. Quero fazer minha literatura, que tem a ver com o que é verdadeiro para mim. E acho ótimo ter muitos leitores. Para termos um país realmente democrático temos que oferecer conteúdo bom e acessível, “biscoito fino” para todos. É uma arma política, precisamos disso para mudar o país.

Seu A vida invisível de Eurídice Gusmão foi um sucesso. Isso te pegou na hora de escrever Chuva de papel?
Existe até a síndrome do segundo livro, é difícil para muitos. Depois de terminar A vida invisível passei dois anos escrevendo um livro. Mas eu detestava o protagonista, um coronel no Nordeste. Montei uma biblioteca de corrupção e coronelismo, mas era tão nojento que eu guardava os livros no banheiro. O livro não deu certo e pensei: “Tenho que começar do zero e voltar para a Tijuca [bairro do Rio]”. O apartamento onde se passa Chuva de papel é o apartamento da minha avó na Tijuca. Um universo geográfico pequeno, mas imenso em termos do que pode contar. Estou muito interessada em narrar as histórias desses personagens do Rio e mostrar o quanto eles são universais.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #68 em março de 2023.