Fichamento,
Maria Vilani
Escritora, filósofa, ativista cultural e mãe de cinco filhos (um deles o rapper Criolo) lança nova coletânea de poemas
01dez2025 • Atualizado em: 30nov2025 | Edição #100Aos 74 anos, a cearense que desde 1975 mora no Grajaú — e transforma o bairro do extremo sul de São Paulo — escreve sobre dores do passado e o amor ético do presente na coletânea Na ciranda do tempo (Planeta).
Qual foi o caminho até Na ciranda do tempo?
Começou com um trabalho escolar que virou um livro muito simples, parece mais um folhetinho: Cinco contos sem desconto e de quebra dois poemas (1991). Eu estava no segundo ano do ensino médio e usava o pseudônimo de Vitória Régia. O segundo livro só saiu em 1998 — olha a distância. Eu já era professora. O livro é A florista, adaptação para teatro de um conto de fadas. Eu me inspirei muito na Cleane, minha filha, que era contorcionista. Ela nos deixou no período da pandemia.
E de onde veio a poesia?
É uma situação que a gente não consegue definir direito. Ao longo do tempo percebemos uma força que não dá para ver nem ouvir, mas que a gente consegue sentir. A impressão é que não vamos atrás da poesia, ela que vem ao nosso encontro, somos seu instrumento. No meu caso, tinha meu pai, um homem sem diploma, mas muito culto e sereno — ele lia bastante para a gente. Mas teve câncer e nos deixou quando eu tinha oito anos.
Foi quando começou a escrever poemas?
Depois que ele morreu, eu me apaixonei pelas nuvens, por ler o desenho que elas formam. Certa vez, eu estava na rua com um vestido amarelo com bolinhas de poá e babados, descalça, olhando para o alto. Chegou uma pessoa e me perguntou se eu estava “pensando na morte da bezerra”. Eu disse que não e ela perguntou se estava pensando no que iria ser quando crescer. Não tive dúvida, respondi: “Vou ser poeta”. Foi assim que começou, da menina descalça de vestido de poás até essa mulher que há pouco tempo estava conversando com a ministra [do STF] Carmen Lúcia [no encontro Mulheres que Movem o Mundo, realizado em outubro no Sesc Pinheiros, em São Paulo].
Na ciranda do tempo é o acúmulo de tudo isso?
[O livro] é composto de momentos sentidos e sofridos. Sou uma pessoa muito inquieta, indignada com as carências do ser humano — e não me refiro à falta de dinheiro no banco, a joias, mas ao mínimo de dignidade. Cada coisa que vejo e me causa indignação tenho que escrever, tirar de dentro de mim, senão tenho a sensação de que vou implodir. Escrevo por necessidade. Estou lotada de dor: a minha e a do outro.
Temos medo do passado, como você diz no livro?
É interessante, porque o passado não existe, mas nos assombra. E nos dá uma saudade de algo que não pode ser corrigido, porque já passou. Estou escrevendo um romance épico que vai se chamar Eu preciso consertar o passado. Entendo que consertar o passado é edificar o presente e viver nele de tal maneira que eu não precise sentir a dor desse presente no futuro, quando já será passado. Viver tendo um amor ético por mim mesma e por quem passa pela minha vida: eu não te conheço, mas te desejo tudo de bom, porque a humanidade é um todo. E o todo não vive sem suas partes.
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Você também é professora. O que ensina para quem quer começar a escrever?
Recentemente, estive com um grupo de literatura. Os participantes escreveram textos lindíssimos e perguntei a eles: “Onde estava tudo isso antes de você escrever aqui?”. Porque estava em algum lugar, né? Estava na ancestralidade, na memória do passado e na contemporaneidade. Sempre está em nós um pedacinho de cada experiência — o que precisamos fazer é acessar esses pedaços. E ter acesso à educação, à cultura e à arte, o tripé que sustenta nossa subjetividade.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025. Com o título “Maria Vilani”
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