Fichamento,
Maria Brant
Em seu primeiro romance, a escritora, especialista em direitos humanos, relembra a infância nos anos finais da ditadura
01fev2026 | Edição #102O ano do cometa (Fósforo) é uma pequena saga íntima de autodescoberta marcada por acontecimentos políticos, socias e celestes, como a passagem do Halley pela Terra.
Quantos anos levou para chegar a O ano do cometa?
Levou um tempão. Não consigo me dedicar só à literatura. Eu trabalho, tenho filhos, fiz um doutorado no meio, escrevia nos intervalos que sobravam. Tive a primeira ideia do livro em 2018, quando o Bolsonaro foi eleito, acho que a escrita foi a partir de 2019, mas na pandemia dei uma parada, escrevi muito pouco.
No romance você mistura uma narradora escrevendo no tempo recente da pandemia e duas narradoras crianças nos anos 80. Trata-se das chamadas “gerações perdidas” no Brasil?
Não tinha pensado nisso, mas é uma boa sacada. A geração dos anos 80 é a minha, e falo de filhos de famílias engajadas na luta contra a ditadura. A relação disso com a narradora na pandemia é a sensação de impotência, de ficar preso às circunstâncias. Mas tem uma diferença: 1986, quando o cometa Halley foi visto da Terra, também foi um ano de esperança, de abertura política, eleição para a Assembleia Constituinte.
A sua geração está tentando entender o que foi uma infância durante a ditadura no Brasil?
Quando comecei a escrever, não havia muita coisa sobre isso. Depois vieram outros livros, o sucesso do filme Ainda estou aqui, baseado no livro do Marcelo Rubens Paiva. Eu vivi nesse universo de oposição à ditadura, mas não é um livro autobiográfico, todas as personagens são ficcionais.
O romance trata de silêncios, coisas que não podiam ser ditas. Como foi escrever sobre o que se calava?
As pessoas se calavam por medo. Mesmo quando veio a anistia, ainda estava tudo muito incerto. Não poder falar por medo marcou a geração dos meus pais. E tem a questão das pessoas que foram torturadas. Alguns preferem não falar e não me senti autorizada a falar por eles. Não coloquei a voz dessas pessoas, mas tratei do assunto indiretamente, pela voz de duas meninas.
Em determinada parte do livro, você escreve que silêncio é mentira. É mesmo?
Essa é uma questão para mim e para minha geração. Tem um silêncio que tem a ver com o medo de ser preso, perseguido. Mas tem um silêncio coletivo no Brasil: a ideia de que devemos esquecer, não falar desse assunto. Isso é criar uma mentira sobre a sociedade. Se ninguém sabe direito o que aconteceu e não se fala a respeito disso, o silêncio pode ser uma mentira.
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Em 1986, você tinha dez anos. Como foi reviver o ano do cometa já adulta?
É um pouco como ver um filme com uma plot twist que você já conhece. Comecei a seguir umas pistas de coisas que não entendia na época. Gostei de rever esse “filme”.
Além do cometa Halley, você cita alguns outros acontecimentos celestes no livro. O tema te fascina?
O tema me interessa e faz parte da minha vida: minha mãe é astróloga. No livro, não se trata de astrologia, falo de astronomia, mas são mundos irmãos.
Relações familiares são outro tema do livro?
Acabou também virando um tema. Tem muitos personagens, é uma grande família, como a minha, cheia de irmãos, primos, muitas crianças que cresceram juntas. Também, na juventude, eu lia muito [J. D.] Salinger e adorava a família Glass [grupo de personagens recorrentes na obra do escritor]. Algumas pessoas que leram partes do manuscrito falaram que eu estava fazendo uma família Glass. Seria uma honra; não chego a tanto, mas de alguma forma também é essa família.
Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “Maria Brant”
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