Fichamento,

Lauro Mesquita

Em seu primeiro livro publicado, o escritor mineiro convida o leitor a atravessar um mundo em ruínas feito só de palavras

01abr2021 - 00h00 | Edição #44

Em monólogos patéticos ou poéticos, o narrador de História de vocês (7Letras), de Lauro Mesquita, fala do absurdo e da falta de sentido da vida contemporânea.

História de vocês é narrado na segunda pessoa do plural. Por que essa escolha? 
O primeiro texto apareceu como um exercício de monólogo. A ideia era criar uma voz que se desculpasse a interlocutores indeterminados. Tinha lido discursos do Karl Jaspers sobre a reconstrução da Alemanha no pós-guerra e gostei do formato.  Imaginei isso na esfera das redes sociais, um discurso autorreferente e sem muito assunto, em que o narrador chama atenção para si e reclama que não o escutam. Um discurso que prefere repercutir ou antecipar as reações dos interlocutores; generalizar certos grupos sem especificar. Ao mesmo tempo, já buscava uma voz que funcionasse para falar com convicção do incerto. Esse modelo de monólogo patético, de palanque para ninguém, coube bem no que eu queria falar e decidi seguir em frente.

A insistência em usar repetição e lugares-comuns foi usada como provocação aos “manuais de escrita”?
Não sei se como provocação aos manuais propriamente ditos, mas certamente com um desejo de escapulir do uso da palavra escrita meramente referencial ou descritiva. Busquei uma linguagem que acontecia e não uma que explicava. Gosto muito de uma frase do Beckett no final de Watt: “no symbols where none intended” (sem símbolos onde não se pretende nenhum). Comecei a escrever História de vocês como um conjunto de poemas. Esse princípio de composição poética, gaga e não linear tem também a ver com uma busca rítmica. Eu partia de motes, que podiam ser um lugar-comum, uma métrica mais musical ou um discurso entrecortado por interrupções. A ideia era repetir essas células escritas e explorar as possibilidades de som e significados, como nas frases musicais do minimalismo de Steve Reich e Philip Glass. Os lugares-comuns sempre apareciam como mote — e os que ouvi do Francisco Alvim e da Adília Lopes foram inspiradores —, sobretudo pela quantidade de sentidos que esse recurso pode levar às mesmas sentenças e palavras. Nesse uso há uma carga de humor e ironia, principalmente à medida que os discursos perdem sentido e a autoridade do narrador derrete. 

O narrador pede a cumplicidade do leitor e sempre o frustra. Até onde você quis esticar essa corda?
Eu queria que o livro funcionasse como uma partitura para o leitor nos moldes das partituras do La Monte Young ou das peças do Peter Handke: os textos passam instruções a músicos, atores e público que dependem de uma boa dose de aleatório. O leitor, mais do que acompanhar uma história, é convidado a atravessar um ambiente com nada além de palavras, com um narrador que parece preso a situações que foram impostas a ele. 

Foram usadas referências específicas de narrativas políticas ou de redes sociais na construção do texto?
Foram, sim, e também foram usadas falas de filmes e livros, diálogos de quadrinhos. Há coisas ali que são discursos de personagens indigestos de nossa história atual. Era difícil escapar disso. Mas também tem muita coisa que eu ouvia andando pelo Rio de Janeiro (quando ainda dava para fazer isso, claro). 

Foi dito que há algo de beckettiano no livro. O absurdo é uma forma de dizer o indizível?
Pois é, no texto da orelha do livro, a Noemi Jaffe faz essa comparação, o que me deixou muito feliz. Beckett formalizou esse trabalho com personagens que não entendem a finalidade de seus propósitos. Admiro o Beckett, o Brecht, e meu interesse por literatura nasce muito do texto teatral que coloca a ação em suspenso e aposta numa atividade do espectador/leitor.    

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #44 em março de 2021.