Fichamento,

Fred Di Giacomo Rocha

Jornalista e escritor mergulhou na história da colonização do Oeste paulista, onde nasceu, e descobriu um microcosmo do Brasil

30set2023 - 20h00 | Edição #74

Ficção e realidade se misturam em Gambé (Companhia das Letras), romance do jornalista, escritor, músico e game designer que acompanha uma tropa da polícia que aterrorizou o sertão paulista na virada para o século 20.

Em Gambé, você volta à violenta colonização do Oeste paulista, que já havia abordado em Desamparo. Como começou a se interessar pelo assunto?
Sou nascido e criado em Penápolis, uma cidade a quinhentos quilômetros da capital. É uma região muito semelhante ao Meio-Oeste americano, com muitas pessoas brancas pobres ou de classe média baixa e uma votação maciça em candidatos conservadores. Uma vez eu entrevistei o Drauzio Varella e ele falou que escreveu Estação Carandiru porque, se você não é um Tolstói ou um Dostoiévski, que escrevem sobre qualquer coisa, deve escrever sobre algo que só você poderia contar. Comecei a pesquisar a história e a entender sobre minhas raízes. Descobri que Penápolis era um microcosmo do Brasil.


Ficção e realidade se misturam em Gambé (Companhia das Letras), romance de Fred Di Giacomo Rocha

Pensou em escrever um livro-reportagem?
Não. Existe um livro importante sobre o Tenente Galinha, de 1965, do jornalista Adherbal Figueiredo, que usei como base na pesquisa. Mas aí tem parte da minha origem como escritor. Sempre amei literatura, desde pequeno gostava de escrever poeminha, publicava fanzines. Escolhi jornalismo porque li O anjo pornográfico, do Ruy Castro. Tinha uma imagem romântica. Por mais que o jornalismo seja a ferramenta para minhas pesquisas, nunca pensei em fazer um livro-reportagem. O material que reuni daria, mas não era meu projeto.

E quando termina a pesquisa e começa a ficção?
Gambé surgiu de uma costela do Desamparo, que era um livro muito grande. Cortei muitas coisas, não por serem ruins, mas porque eram histórias paralelas. Fui aos museus da região, ouvi áudios e li reportagens da época para pesquisar o que aconteceu no Oeste paulista de 1808 até 1929. Criei uma linha do tempo, reconstituindo como se eu fosse escrever não um livro-reportagem, mas um de história. Isso me deu insights criativos para pensar na ficção. Várias coisas que aconteceram pareciam realismo mágico. O primeiro enterro que houve em Penápolis foi de uma perna.

A masculinidade que se expressa pela violência é também um tema dos seus livros. Por quê?
Sou um cara nascido nos anos 80, num ambiente muito machista e misógino, mas a paternidade me mudou. Essa parentalidade aparece nos dois livros. O personagem Caçula, que o Gambé acaba adotando, retrata uma relação de uma forma de afeto possível. E essa história não existe só porque me tornei pai, mas porque dei aula na Énóis, escola de jornalismo de periferia, e tive uma relação mais próxima com alguns alunos. Um deles, o Alexandre Ribeiro, virou escritor. Ele vivia em uma favela de Diadema e hoje mora em Berlim. A educação por cotas que temos hoje também é uma possibilidade de exprimir sentimentos e sair dessa masculinidade muito dura.

O que diferencia o sertão de Gambé daquele descrito por Guimarães Rosa?
Tem muitas diferenças. O que aproxima é que tudo faz parte do que se chama de Grande Paulistânia, as áreas invadidas pelos bandeirantes. A colonização desse Oeste paulista é mais recente, acelerada e brutal. Em dez anos, a estrada de ferro chega e dizima toda a população indígena. Muitas das vezes que tento reproduzir a linguagem das pessoas que ouvi em áudios antigos acaba soando meio Guimarães Rosa, mas não o estou emulando necessariamente. Tem uma cultura caipira que é comum. Além disso, os jagunços da minha história são policiais. O Batalhão de Caçadores Tobias de Aguiar está lá para trazer a ordem a esse sertão. É o Estado matando pessoas e estuprando mulheres. Essa violência que é uma força fundadora do Brasil.

Quem escreveu esse texto

Amauri Arrais

É jornalista e editor da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #74 em setembro de 2023.