Fichamento,

Cristhiano Aguiar

O escritor paraibano lança uma série de contos de terror ambientados na Paraíba e em Pernambuco

01fev2022 - 05h51 | Edição #54

Em Gótico nordestino (Alfaguara), Cristhiano Aguiar dá forma aos nossos medos, de mortos-vivos em meio à Covid-19 a cadáveres de noivas encontrados na ditadura.

O que é exatamente o “gótico nordestino”? 
Em 2018, quando comecei a escrever Na outra margem, o Leviatã (Lote 42), iniciei um outro livro, composto de contos de terror. Daí, folheando um gibi da DC Comics chamado Monstro do Pântano, escrito nos anos 80 por Alan Moore, lembrei que um dos arcos naquele quadrinho é conhecido como “gótico americano”. Em cada edição desse arco, havia uma história de horror diferente ambientada na América profunda. Na hora percebi que era isso que eu estava fazendo, mas com o “meu” Nordeste, que é o litoral e o agreste da Paraíba e de Pernambuco. Daí, veio o nome de “gótico nordestino”. 

Como seria um “gótico sudestino”?
Que tal os poemas de Álvares de Azevedo, os contos insólitos de Lima Barreto e João do Rio, os romances de Cornélio Pena, os contos sombrios de Lygia Fagundes Telles? Mas uma das maiores obras de um gótico nacional é sem dúvida Crônica da casa assassinada, do mineiro Lúcio Cardoso.

Doenças são uma constante nos seus contos. Como a Covid-19 influenciou a sua escrita?
Só agora percebo que o livro é muito marcado pelo tema da doença! Do primeiro conto, “Anda-luz”, ao último, “Vampiro”, a doença, em alguma dimensão, está presente. A Covid-19 influenciou diretamente o livro, porque quase tudo foi escrito durante a pandemia. Eu decidi não ter medo da influência do presente, entende? A Covid-19 me colocou contra a parede: que escritor eu quero ser, que livro fazer? Eu voltei àquele Cristhiano adolescente, que escrevia narrativas de horror, fantasia e ficção científica para se divertir e para enfrentar o que o atormentava.

“Anda-luz”, “As onças” e “Firestarter” fizeram parte do seu Trilogia da febre, lançado em e-book pela Vacatussa em 2020. Você chegou a fazer alguma modificação nesses contos?
Esses contos foram muito bem editados e revisados pela Alfaguara, em especial “Firestarter”. Embora o enredo não tenha mudado tanto, eu diria que eles foram polidos e melhorados. O e-book foi importante porque funcionou como um teste. Eu estava indo por um caminho novo para mim, então ainda haveria algum leitor interessado? O retorno positivo me deu o sinal verde para seguir adiante. 

“A noiva” situa-se no contexto do regime militar brasileiro. Esse seria o verdadeiro terror da vida real?
Enquanto construía o livro, eu me propus a ideia de que Gótico nordestino poderia ser um espelho retorcido da história do Brasil nos séculos 20 e 21. A ditadura militar não poderia faltar como tema. Desde tempos coloniais, somos uma sociedade forjada na violência e no autoritarismo. Gótico nordestino aborda a nossa violência social, mas o livro enfatiza também o terror da intimidade, as sombras na alma.

Por acaso você tinha medo de histórias de terror quando era criança?
Eu tinha medo de ET! Pânico mesmo de disco voador, de ser abduzido, de aqueles seres do cabeção fazerem experimentos comigo. Eu tinha medo do diabo, mas também do olhar vigilante de Deus, que a tudo vê, porque fui criado na religião protestante; minha família é bastante religiosa. 

É verdade que gótico não sente calor?
O trevoso brasileiro sofre demais com o sol. A solução é virar gótico festivo, gótico tropical, dançar um remix dark de Barões da Pisadinha, abraçar um papagaio e chamar de Edgar Allan Poe.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #54 em outubro de 2021.