Festival literário,

João José Reis e os malês

Historiador fala sobre ‘Rebelião escrava no Brasil’, que levou à redescoberta da Revolta dos Malês depois de ser reeditado há 20 anos

24out2023 - 12h23 | Edição #75

Autor do clássico Rebelião escrava no Brasil: a história do Levante dos Malês em 1835, publicado em 1986 pela Brasiliense e reeditado em 2003 pela Companhia das Letras, João José Reis comemora vinte anos da reedição em 2023. Para relembrar o contexto da escrita do livro, o historiador participa de um bate-papo na quarta-feira, 22 de novembro, às 9h30, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, em Salvador.  

Ele falou à Quatro Cinco Um sobre a repercussão do livro nas últimas décadas e a expectativa de celebrar os vinte anos da reedição durante a 11ª Flica (Festa Literária Internacional de Cachoeira) — o que acabou não acontecendo —, no Recôncavo Baiano, região para onde foram levados muitos negros escravizados devido ao seu papel central na economia canavieira no Brasil colonial e imperial.

O que mudou na percepção do Levante dos Malês nesse tempo?
Acho que meu livro contribuiu para aumentar o interesse pela Revolta dos Malês desde sua primeira edição, em 1986, pela editora Brasiliense. Era o primeiro livro dedicado inteiramente a esse levante. Antes dele, autores como Nina Rodrigues, Roger Bastide, Pierre Verger, Clóvis Moura, Décio Freitas e outros haviam dedicado trechos ou capítulos de livros seus ao assunto. Alguns chegaram a fazer pesquisa séria nos arquivos, diga-se. Mas não escreveram um livro todo.

Naquela década, militantes, estudantes e intelectuais negros já tinham conhecimento da revolta. Antônio Pitanga, por exemplo, ator e cineasta, leu meu livro naquele momento, e desde então começou a planejar o filme, em parte rodado em Cachoeira, que brevemente será lançado. Antes dele, o cineasta Walter Lima Jr. já tinha escrito um roteiro. Quando publiquei a edição que agora completa vinte anos, eu escrevi praticamente um outro livro, mais detalhado, com nova pesquisa, novos capítulos, livro grande que meus alunos batizaram de Malesão.

Em 2003, vivíamos um outro período, primeiro governo Lula, tempo de otimismo, de avanço dos movimentos sociais, inclusive dos movimentos negros, circunstâncias que aumentaram o interesse, pela obra e seu tema. Mas nem sempre quem o leu ou consultou (ou quem não leu, que ficou sabendo da revolta por outras fontes) repetia simplesmente seu conteúdo ou as interpretações ali defendidas. Circula por aí, digamos, muita reelaboração sobre o que foi o evento, inclusive na forma de ficção. Já contei mais de dez romances que tematizam a revolta ou algum aspecto dela, sendo o meu preferido o de Ana Maria Gonçalves, Defeito de cor.

O que a rebelião escrava do Brasil de 1835 pode nos ensinar?
Este episódio representa a trajetória negra no Brasil, foi um momento assombroso. Então carece de ser rememorado como parte relevante para a formação da alma nacional, sem falar de suas vibrações na alma afro-atlântica.

Por que celebrar os vinte anos de reedição em Cachoeira?
É o lugar ideal. No Recôncavo aconteceu a maioria das mais de trinta revoltas da primeira metade do século 19. Por ser o epicentro do poder escravocrata, as revoltas colocaram em maior risco o sistema da escravidão. Os próprios malês sabiam que sem o Recôncavo a Bahia não seria conquistada.

Quem escreveu esse texto

Vitor Pamplona

Jornalista e roteirista, traduziu As aventuras de uma garota negra em busca de Deus (Bissau Livros)

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.