Encontro de Leituras,
Belezas e perrengues do português
‘É uma perda enorme não estarmos a conversar sobre as diferenças e o que poderíamos fazer juntos’, diz a poeta angolana Ana Paula Tavares
20out2026 | Edição #111Historiadora por formação, Ana Paula Tavares, primeira mulher angolana a receber o Prêmio Camões, em 2025, encontra poesia em tudo: nos documentos históricos, nas crônicas do dia a dia e, principalmente, nas línguas portuguesas, diversas e iguais. Em sua vinda ao Brasil para a Flip, em julho deste ano, ela conversou com a Quatro Cinco Um sobre escrita, oralidade, o direito à utopia e seu livro de crônicas recentemente lançado aqui, O sangue da buganvília — planta que viu em lugares onde “só havia o cheiro da morte”; no meio deles, “uma buganvília completamente em flor. Tão forte que chega a ser escandaloso”.
Como é a conversa entre a poeta, a cronista e a historiadora?
Todos os caminhos se misturam. Quando comecei a fazer crônicas de forma sistemática, elas eram gravadas e transmitidas na rádio. Foi muito bom porque tenho uma grande dívida com a tradição das histórias contadas que passam de geração em geração. Sou uma mulher da escrita e fazer algo para ser ouvido me pareceu uma forma de entrar nesse universo.
Sua poesia também é tributária desse patrimônio da oralidade?
Sim. Aquelas tabuinhas de memória para se repetir e resistir no tempo. Povos que não têm sua história fixada pela escrita desenvolveram estratégias para fazer isso: poemas, adágios, formas que em algumas línguas se chamam missosso: uma história contada que obedece a formas fixas.
Algo parecido com o cordel?
Não é exatamente a mesma coisa. Mas, ainda há pouco, passei por uma lojinha [em Paraty] que tinha folhetos de cordel e me lembrei mesmo dessas formas de resistir pela memória. Algumas sociedades da família banto desenvolveram um jeito de contar histórias chamado de “desenhos na areia”.
Fazer poesia também seria criar desenhos com as palavras?
Um pouco disso. Portanto, eu não inventei nada, né? Tudo vem do que ouvi na infância e, depois, do meu trabalho como historiadora, aquele trabalho secreto e árduo de visitar arquivos, consultar documentação, escutar, gravar e transcrever.
O interesse pelas tradições orais está crescendo no mundo?
No Brasil, tenho notado crescer, mas não posso dizer o mesmo do meu país. A modernização chega de uma forma violenta e não se compadece do trabalho de ourivesaria que é a delicadeza da tradição oral. Em Angola, há línguas correndo o risco sério de desaparecer. A língua portuguesa transformou-se na língua da modernidade, a que faz a guerra: os soldados tiveram que aprender palavras que os ensinassem a lidar com as formas modernas de matar. Depois da libertação, fala-se muito mais o português do que no tempo colonial. Poderia não ser um problema se outras línguas fossem ensinadas nas escolas aos mais jovens. As pessoas mais velhas estão a morrer, e com elas suas línguas. Pelo último censo, 69% dos angolanos têm menos de trinta anos. Esta geração não tem memória da guerra, do passado colonial e não tem acesso ao que havia antes desse passado.
A modernização não se compadece do trabalho de ourivesaria que é a delicadeza da tradição oral
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Essa discussão está sendo feita?
Não, mas eu entendo que o cotidiano dessas pessoas é complexo. É difícil sobreviver num país onde há fome, muitas doenças, e não há sistemas públicos de proteção ao cidadão, um sistema de saúde como no Brasil. Não é por mal que nossos jovens não se preocupam que línguas e formas de vida estejam em vias de desaparecimento.
O fato de ter ganhado o Prêmio Camões, assim como aconteceu com a moçambicana Paulina Chiziane, pode ajudar nesse resgate?
Prêmios ajudam a chamar a atenção para outros modos de vida e de expressão, mas deveriam existir outras estratégias para o resgaste urgente do que corremos o risco de perder.
A poesia seria uma estratégia?
A poesia é um lugar de encantamento e tenho tido boas surpresas. Jovens me leem, me escrevem e começam novos trabalhos a partir de um poema meu. É tudo o que eu desejava, mas duvido da eficácia. Passaram-se cinquenta anos da independência nacional, um período curto do ponto de vista do historiador. Essas sociedades resistiram muito tempo à violência do colonialismo; neste momento precisam resgatar suas formas de estar neste mundo. Se bem que, neste momento, o mundo inteiro está estranho.
Como vê o atual momento?
Vivemos um tempo de perplexidade. Desejo que as pessoas pensem em outras maneiras de estar nesta vida para além do capitalismo na forma muito agressiva e selvagem que estamos a viver, para que possam ultrapassar essa engrenagem fascista da ordem da violência. Que possam olhar a capacidade de outras sociedades em resistir a períodos de violência tão graves quanto o que estamos a viver. Tenho vontade de falar isso todos os dias para não desistir do nosso direito à utopia.
Os falantes da língua portuguesa estão conversando entre si?
Infelizmente não o bastante. Há muita coisa boa sendo produzida nas diferentes línguas portuguesas que não circula. É uma perda enorme não estarmos a conversar sobre as diferenças e o que poderíamos fazer juntos.
Num mundo utópico, como seria essa conversa?
Começaria por termos acesso à leitura. E aprendermos nas escolas as variantes de nossa língua. Algumas editoras brasileiras têm feito um grande esforço para divulgar as literaturas africanas escritas em português, mas ainda há movimentos que não chegam, há muitos autores jovens moçambicanos, cabo-verdianos, guineenses e angolanos que não são conhecidos no Brasil.
Em O sangue da buganvília você traz o cotidiano angolano por meio de “makas”. Pode explicar o que são?
Se me zango com minha vizinha, há uma “maka” entre nós duas. É uma palavra genérica do quimbundo para um conjunto de mal-entendidos.
Talvez no Brasil seja “perrengue”…
Em português de Portugal seria conflito, confusão, mas, sim, pode ser perrengue, pelo que li. O Carlos Drummond de Andrade já usou “perrengue”. A vontade de aproximar coisas e palavras é uma das minhas motivações para escrever crônicas.
Matéria publicada na edição impressa #111 em outubro de 2026. Com o título “Belezas e perrengues do português”
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