Capa,

Era dos extremos

?Faço meus personagens matando os ricos a pauladas; se eu fosse cientista, pensaria em formas racionais de exterminar esse câncer da humanidade? diz Rafa Campos Rocha

14dez2018 - 20h43 | Edição #7 nov.2017

Para ele, Deus assume a forma de uma mulher negra, proprietária de um sex shop, apreciadora de cerveja e futebol e amiga de Karl Marx. Rafa Campos Rocha (@rafacamposrocha), autor da graphic novel Deus, essa gostosa (Companhia das Letras), assina a capa da revista #7, de novembro de 2017, que trata de batalhas culturais travadas na internet.

Rafa trabalha como professor de história da arte, crítico, cenógrafo, artista plástico, cartunista, ilustrador e editor. É também autor de Magda (Companhia das Letras), misto de aventura e ficção científica, em que um predador pode ter sido responsável por extinções do passado se esconde na Terra. A seguir, ele fala de apropriação cultural, polêmicas literárias e a vida desconectada.

Na sua opinião, o que é um “esquerdomacho”? Imagino que seja sobre o comportamento abusivo de homens que têm posicionamento social mais humanitário, mas na intimidade são tão misóginos e preconceituosos quanto os homens de direita. Conheço vários, mas o comportamento masculino em geral me desagrada, e eu não convivo com quem, por exemplo, é favorável à prisão do Lula. Portanto, todos os machistas que conheço são esquerdomachos. Falam com propriedade sobre vários temas, são irônicos e abusam das frases de efeito, e desautorizam tudo o que todas as pessoas falam, ainda mais se são mulheres. Não sei por que não podem ser chamados somente de machistas, mas eu realmente não entendo a maior parte dessas expressões da moda.

Qual a sua opinião sobre apropriação cultural (a adoção de elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente)? A internet tem uma agilidade e uma esperteza, uma coisa afirmativa, auto-irônica e uma velocidade que não tenho. Eu não tenho celular, e uso o computador de forma bem primária. Essas discussões me lembram um pouco os assuntos dos salões elegantes, das antigas vanguardas, onde as demandas sociais eram tratadas pelo prisma da elegância e do bom gosto. Sei lá, sou meio cafona. Não a ponto de falar como se fosse um jovem negro da periferia, sendo um branco de meia-idade de classe média, mas sou cafona.

Então você nunca se envolveu numa discussão na internet? Entrei em algumas discussões ingenuamente, usando argumentos racionalistas e de fundo universalista, que é uma coisa europeia, todos sabem, mas enfim, é a minha parca formação. Fui professor de História da Arte, e a arte que praticamos no Brasil é burguesa e européia, por mais que tematize outras culturas. Tematizar culturas é outra coisa tipicamente europeia, como o "universal". Por isso, nas discussões de internet, eu sou sempre tachado de invadir o lugar de fala e coisas assim. Também não tenho o hábito de buscar dados na internet enquanto falo com as pessoas, então sou "desconstruído" a toda hora [risos]. É ridículo. 

Em geral, os temas da internet são ridículos. Me lembram o jornalismo de comportamento, as crônicas jornalísticas e esse tipo de lixo cultural que ficou famoso nas décadas passadas. Para mim, parece uma manada de consumidores iludidos com relação à própria participação na sociedade. Mas posso estar errado, é claro. Então não entro mais. Já me colocaram em lugares onde eu nunca estive, assediando pessoas que eu não conheço, e eu não me defendo. Acho uma merda isso de se defender e me recuso. Então deixo falarem. Até porque sou lento, como disse.

Como foram as reações mais polêmicas a seu livro Deus, essa gostosa, e como você lidou com elas? Me acusaram de tudo, inclusive de abusador, sendo que tenho filhos pequenos. Me acusaram de racismo e disseram que eu deveria ser proibido. Disseram que eu objetificava a mulher, ridicularizava a cultura negra, e cogitaram me processar por difamação. Enfim, a internet comporta uma violência que iria acabar levando à eleição de um nazista como presidente da república. Todo o clima da internet é esse; de vigilância e punição sobre o que você produz: punir é o mais importante. Não acho que punição resolve tudo.

Na sua opinião, provocar é um dever do artista? Acho que o dever do artista é o dever de todo profissional republicano. Fazer bem o seu trabalho, respeitando os demais, e pensando sua própria profissão. Quando falo de respeito, excluo os ricos, é claro. Os ricos já têm os jornais, o rádio e a televisão falando bem deles. Se eu falo mal dos ricos, é porque eu acho que, como humanista, a concentração de renda deve acabar. Se eu fosse cientista, pensaria em formas racionais de exterminar esse câncer da humanidade, mas como sou artista, faço meus personagens matando os ricos a pauladas, socos e pontapés. Eu posso isso, ainda. Então aproveito enquanto posso.
 

Matéria publicada na edição impressa #7 nov.2017 em junho de 2018.