Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

Verdade liberal

É espantoso que liberais ofendidinhos tenham ouvido no que foi dito por Caetano Veloso um elogio ao stalinismo

09set2020 - 04h18

A repercussão da entrevista de Caetano Veloso a Pedro Bial é sintoma da miséria intelectual alimentada pelo vício no consenso fabricado e pela crença na moderação como virtude. Ainda que tudo o que é treta se desmanche nos likes, os tediosos liberais de sempre reagiram com os moralistas de anedota que condenam como vício alheio seus hábitos mais encarniçados – nesse caso, o horror ao debate que não siga seu próprio roteiro. 

E olhe que Caetano nem sequer estava operando no modo provocador em que já fez tanto estrago. Simplesmente comentou que de 2018 para cá abandonou a convicção liberal de que regimes socialistas seriam meros equívocos, sinônimos perfeitos do autoritarismo para que de fato descambaram. E o fez, disse ele, a partir da leitura de Domenico Losurdo, de quem tomou conhecimento por Jones Manoel, jovem e radical YouTuber pernambucano tido por seus críticos como stalinista.

“Quando ouço pessoas como você dizendo ‘o comunismo e o nazismo são igualmente horríveis, são autoritarismos’, essa equalização das tentativas socialistas com o nazismo eu não engulo mais como engolia. ‘A extrema esquerda é igual à extrema direita’. Eu não acho mais, não consigo”, disse ele a Bial, sem traço de agressividade.

Bial remancheou, disse que “ia ler” Losurdo, que era “importante” mudar de opinião. E não conseguiu botar em pé a tese de que a posição de Caetano –  que se entusiasma sobretudo com a “contra-história” do liberalismo proposta por Losurdo –  fosse mera “reação” ao autoritarismo rampante. Nessa lógica, Caetano estaria sendo puramente retórico.

Brucutus

O que me interessa nesse episódio é menos o detalhe das considerações de Caetano do que a reação à dissidência que ele manifestou. É espantoso que liberais ofendidinhos tenham ouvido no que foi dito no Programa do Bial um elogio ao stalinismo. Mais ainda que tenham despejado em jornais e redes sociais um “vai pro gulag” que soa como o “vai pra Cuba” grunhido pelos brucutus da direita excremental. Não, os liberais ofendidinhos não são de nenhuma forma equivalentes ideológicos dos porcos fascistas — mas facilitam muito a vida destes por buscar esse tipo de equivalência. 

Mas a conversa aqui também não é, acho eu, sobre equivalência — esse cultuado monumento à desonestidade intelectual. O busílis está na invalidação, mais ou menos estereotipada, da perspectiva de análise à esquerda. Se eu não esperaria nada diferente de um indignado taxista, confesso que nutria expectativas mais altas de comentaristas profissionais. 

A revisão pessoal de Caetano deu um enguiço no conjunto de platitudes que se vende como visão equilibrada de mundo. De acordo com esses valores, só por excentricidade um homem de 78 anos torna-se menos liberal, pois a experiência é o caminho da conformidade. Em outras plagas, as declarações de Caetano são comemoradas como um improvável testemunho de conversão ao socialismo. 

Não faltou, é claro, quem invoque estantes inteiras, que dificilmente leram, sobre a missão nobre do liberalismo, nos brindando com aulas sobre o que significa a expressão em diferentes contextos nacionais e momentos históricos. O alegado rigor conceitual tem fins bem definidos: travar a conversa em seus supostos “fundamentos” e manter tudo onde sempre esteve pela desqualificação “equilibrada” do interlocutor. 

Em A sociedade do veredito, Didier Eribon lembra quão severas são as avaliações que se costumam fazer de intelectuais dissonantes. Deles escrutinam-se todos os posicionamentos, leem-se entrelinhas, confrontam-se biografias e bibliografia para pilhar contradições, flagrar deslizes, apontar descompassos entre dito e feito. O que se quer mostrar como falta é, no entanto, troféu para quem não confunde atividade intelectual com palpitismo, jornalismo com copismo. "É infinitamente mais fácil mostrar-se coerente com suas posições políticas quando se é conservador e se adere à ordem das coisas”, escreve Eribon. “Basta ser estúpido e se satisfazer em sê-lo, seguindo a estupidez socialmente autorizada."

O Brasil que prendeu Caetano Veloso era obscurantista. O Brasil que tenta desqualificar a dissidência é burro. E nessa batida, na exaltação da covardia, ainda vai nos levar de volta àquele arremedo de país, tão cultuado no esgoto que hoje corre a céu aberto. 

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).