Coluna

Cidade aberta

Cidade aberta

Richard Sennett critica modelos de urbanização icônicos para atualizar a relação entre a maneira de morar e construir

01out2018 - 04h51 | Edição #16 out.2018

Todos guardamos fragmentos de memória das cidades que já visitamos. Uma rua larga e agitada, cheia de pedestres em ritmos e direções variados, uma esquina diferente de todas as outras, uma arquitetura inconfundível, um caminho repetido inúmeras vezes, com todas as suas pequenas variações cotidianas. Se fecharmos os olhos, talvez seja possível não só acessar imagens e ritmos, mas também fazer um recenseamento de cheiros, perfumes, texturas, sons, sabores e relações. 

Uma cidade interessante é necessariamente torta: são as irregularidades, as marcas distintivas, as estruturas incompletas e a diversidade que atraem o olhar. Padrões urbanos ordenados, homogêneos e fixos são percebidos como monótonos e inautênticos, seja para o visitante, seja para o morador. Em seu novo livro, Richard Sennett se propõe justamente a pensar nesses elementos tortos e abertos que conformam a experiência urbana. 

Sennett faz uma distinção entre ville e cité, que ilustram as diferentes gamas de sentido atribuídas à “cidade”. Cidade é tanto um espaço construído, com prédios, ruas, parques, pontes e passagens, quanto um modo de viver. É um lugar físico e concreto — ville —, mas também uma experiência, uma consciência coletiva, uma cultura — cité. Para evocar o título do livro, construir, por um lado, e habitar, por outro. Cité também faz referência à cidadania, ao lugar da democracia e de uma esfera de sociabilidade, ao vivido no cotidiano. Ville, por sua vez, associa-se à técnica e à tecnologia, aos modos de configurar a forma urbana. 

Em português, “cidade” é palavra polissêmica: abarca todos esses sentidos sem anunciar a diferenciação, de maneira muito semelhante à memória, que já vincula, de saída, aquela esquina específica aos encontros que tivemos nela, consolidando espaço construído e modos de vida numa coisa só. 

Mas, para Sennett, marcar a diferença não é apenas importante — é fundamental. Isso porque modos de construir e modos de habitar nem sempre caminham juntos. Exemplos dessa desconexão são os projetos desenvolvidos por Haussmann, Cerdà e Olmsted, tido por Sennett como os “três fundadores ocidentais” do urbanismo. A abertura de grandes bulevares por cima de ruas tortuosas e irregulares em Paris, habitadas pela população mais pobre e utilizadas para montar barricadas, foi uma das principais marcas do barão de Haussmann. Em forma de rede, a nova cidade privilegiava a circulação e a ordem política, num arranjo em que o espaço construído faz terra arrasada da vida associada ao lugar — a ville desbanca a cité

Já a trama das ruas que Ildefons Cerdà implementou em Barcelona pretendia estimular a sociabilidade, o acolhimento e, principalmente, a igualdade entre classes sociais, por meio de quarteirões octogonais intervalados, cujas esquinas surgiam como potencial lugar de encontro. A pretensão era igualar a cité igualando a ville

O Central Park de Frederick Law Olmsted foi concebido para reunir classes, raças e etnias diferentes, afirmando que a inclusão social pode ser fisicamente planejada — ao integrar a ville, seria possível integrar a cité.

Esses urbanistas tentaram moldar o espaço construído para resolver questões sociais, ainda que os valores de fundo de cada um fossem distintos. Para Sennett, revisitar essas propostas mostra suas inúmeras limitações e consequências inesperadas — as grandes avenidas de Haussmann acabaram se tornando um enorme espaço de sociabilidade, as tramas de Cerdà imprimiram monotonia e não exatamente igualdade social, o Central Park passou por um período de abandono e, hoje, é um lugar predominantemente frequentado pela elite de Manhattan.

Boas intenções

Construir para destruir espaços existentes de sociabilidade, na tentativa de criar uma ordem social do zero, decerto já não é um caminho aceitável, seja na versão de Haussmann, seja no modernismo de Le Corbusier. Mas, como mostra Sennett e a história do planejamento urbano, o urbanista bem-intencionado que pretende vincular ville e cité pode alcançar resultados desastrosos. Essa relação é um enigma que precisa ser explorado e compreendido para ser solucionado. 

Além de ser um dos principais sociólogos urbanos contemporâneos, Sennett também tem uma importante atuação como planejador. Assim, resolver o enigma entre ville e cité não passa só pela criação de categorias conceituais mais complexas, mas também — e principalmente — por um saber e um fazer iminentemente práticos. Resolver este enigma é repensar o planejamento urbano de cima a baixo.

O ponto de partida não poderia deixar de ser a obra de Jane Jacobs, autora do livro de urbanismo mais influente de todos os tempos, que, já em 1962, criticava todo o planejamento urbano que não tivesse por base necessidades e desejos sociais concretos. Sennett conta uma de suas conversas com a amiga de longa data, em Toronto: “Certa vez, quando tentava entender a relação entre cité e ville, comentei com Jane Jacobs que ela acertava mais com a cité que Mumford, ao passo que ele acertava mais com a ville. […] Talvez nossas discussões servissem para animá-la, evocando lembranças da velha torrente verbal incontrolável que animava suas incursões semanais. Mas dessa vez, lembro que ela resumiu a coisa sumariamente, perguntando-me: ‘Mas o que você faria?’”

O próprio Sennett também pergunta: “O urbanismo deve representar a sociedade tal como ela é ou tentar mudá-la?”. A questão é problemática. Totalizar e fixar uma essência a uma sociedade ou a uma cidade é o contrário do que deveria ser o trabalho de um urbanista.

“Mas o que você faria?” A questão de Jacobs permanece. Valendo-se da experiência de Délhi, Xangai e Medellín, Sennett tenta responder formulando o que chama de uma ética para uma cidade aberta. Abertura que se dá em muitos planos: no combate à hostilidade às diferenças, na busca por suprimir os efeitos embotadores da tecnologia, no desejo de levar o meio ambiente a sério e sobretudo aumentar a densidade da experiência urbana. 

Sennett fornece pistas que todos aqueles que se preocupam com o futuro das cidades deveriam conhecer. Mas o pano de fundo já é conhecido há muito tempo: toda tentativa de conciliação entre ville e cité não pode vir apenas dos desejos e das vontades de um planejador bem-intencionado, por melhores que sejam as intenções. O planejador é apenas mais um, a técnica é somente um dos elementos. Talvez Jacobs abrisse um sorriso ao chegar ao final deste livro.  

Matéria publicada na edição impressa #16 out.2018 em outubro de 2018.