Trechos,

Ativista padre Júlio Lancellotti lança livro; leia trecho

Influencer e escritor, padre narra a origem do seu compromisso com a defesa de moradores de rua e antigas trocas com prefeitos

16ago2021 - 19h23 | Edição #48

No final de agosto, chega às livrarias Amor à maneira de Deus, do padre Júlio Lancellotti, pela editora Planeta. A partir de suas experiências pessoais e ensimanetos religiosos, Lancellotti faz uma leitura do que é o amor: mais do que um sentimento, é um compromisso de humanizar todas as vidas. Isso guia sua forte atuação como ativista, focada principalmente na defesa de moradores de rua, e que tornou o religioso uma sensação nas redes sociais durante a pandemia de Covid-19. 

Neste mês, a deputada federal Janaina Paschoal (PSL) fez críticas à atuação do padre na região da cracolândia, em São Paulo, argumentando que a distribuição de comida no local incentiva a criminalidade. "As pessoas que moram e trabalham naquela região já não aguentam mais. O padre e os voluntários ajudariam se convencessem seus assistidos a se tratarem e irem para os abrigos. A distribuição de alimentos na Cracolândia só ajuda o crime", escreveu em sua conta do Twitter, provocando uma avalanche de respostas, a maioria em defesa de Lancelotti. Em resposta, este publicou uma gravação em que diz que “o objetivo não é distribuir comida, mas ser alimento, força e esperança para aqueles que estão esquecidos, marginalizados e excluídos”. Segundo ele, desde a polêmica, as doações para a Pastoral do Povo da Rua de São Paulo “explodiram”.

Em outubro do ano passado, após ser ameaçado de morte por policiais, o padre Júlio recebeu um telefonema do papa Francisco, que lhe pediu para não desanimar e continuar trabalhando junto aos pobres. Na época, em discurso no Vaticano, o papa mencionou o telefonema: "Ontem, consegui ligar para um padre italiano idoso, missionário da juventude no Brasil, mas sempre trabalhando com os excluídos, com os pobres". E concluiu: "Este é o mensageiro de Deus".

No trecho a seguir, Lancellotti compartilha trocas antigas com prefeitos de São Paulo.


 

Trecho de Amor à maneira de Deus

Desde a minha ordenação, tive contato com todos os prefeitos de São Paulo, quase todos os governadores e alguns presidentes. Sempre conversei, discuti e dialoguei com eles a partir de um ponto que nunca mudou: o lugar dos desprezados. Meu lugar de fala tem como base os jovens infratores, as mulheres e os homens presos, a população de rua e a questão geral da fome, da miséria e da violência. Nunca conversei com os detentores de poder para estar do lado deles. Foi justamente o contrário: para cobrar sua responsabilidade em relação aos grupos sem poder, aos oprimidos, àqueles em situação de miséria e sofrimento

Todas as conversas que travei com autoridades tinham o objetivo de levar a elas as situações da vida do povo. Meu diálogo com o governador Mário Covas, por exemplo, que foi duro em alguns momentos, chegou ao ponto de, um dia, eu lhe
falar: “Governador, sente-se porque o que tenho a lhe dizer é do seu interesse e para o seu bem”. Ele se sentou e me ouviu.

As cobranças que fiz em prol da população pobre foram a todos os governos que lhes negou dignidade. Não elegi um governo ou um partido para apoiar e outro para criticar. No poder, esquerda e direita ficam iguais, pois sua estrutura é sempre a mesma — a diferença está em alguns que acolhem mais, e outros, menos.
 


 

Algumas conversas foram bem inusitadas. Foi esse o caso quando encontrei Paulo Maluf durante seu mandato como prefeito de São Paulo. Na época, em uma operação de urbanização da cidade, um caminhão da prefeitura fez uma manobra de madrugada e matou Ricardo, um menino de rua, no Largo do Arouche. Muitas entidades se pronunciaram contra o ocorrido. Entre elas, nós, da Pastoral da Criança. Redigimos um manifesto, assinado pelo arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, e fui à prefeitura protocolar o documento. Ali, no guichê, avisei que havia sido assinado pelo arcebispo e acrescentei: “Se essa situação não parar, o arcebispo vai vir aqui em pessoa”.

Não imaginava que minha fala chegaria à assessoria do prefeito e aos ouvidos do próprio Maluf, que telefonou para Dom Paulo e marcou um encontro com ele na Cúria. Dom Paulo, por sua vez, me ligou para falar da visita do prefeito e enfatizou: “Você venha também”.

Eu nem dormi na noite anterior à reunião, pensando no que falaria para o Maluf. Só consegui descansar quando coloquei na cabeça que não conversaria com ele na posição de alguém que é mais nem menos. Falaria de pessoa para pessoa.

O clima na Cúria, na manhã seguinte, estava tenso. Havia um batalhão da imprensa à espera do prefeito, que chegou acompanhado de seu assessor e do secretário de assistência social. Na sala de reuniões, Maluf fez um discurso para o arcebispo, no qual apresentou suas credenciais religiosas.

Dom Paulo tinha um dom: saber ouvir sem retrucar. Ele esperou o prefeito dizer tudo o que queria. Só então ele se pronunciou:

— Agora, quem vai falar é o Padre Júlio, porque ele é o responsável pelo povo de rua.

E se sentou.

— Prefeito — comecei —, não sei se o senhor sabe, mas muitos moradores de rua são eleitores. E muitos são seus eleitores. Que o senhor mantenha a cidade limpa, está todo mundo de acordo. Mas que o senhor a mantenha limpa com as mãos sujas de sangue, isso não vamos aceitar.

Ele levou um susto.

— Temos a Comunidade São Martinho — continuei. — Não sei se o senhor sabe, ela é mantida pela prefeitura. Lá, fazemos curativo nas mãos do povo de rua, que sangram de tanto descarregar cimento na Bresser. Lá, depois que eles tomam banho, o chão fica com uma camada de gordura da espessura de um dedo por causa de tantos dias sem higiene. Lá, eles comem com tanta avidez que parecem que vão engolir a mão junto. Isso é mantido pela prefeitura, mas o senhor tem que conhecer um pouco melhor a cidade que governa. Quantos banheiros públicos tem São Paulo? Quantos desses são acessíveis à população de rua?

Fui enumerando várias coisas que julgava necessário ele saber. Quando terminou a reunião, seu assessor comentou:

— Impressionante. Ele nunca tinha ouvido essas coisas.

Por que não? Porque as pessoas ficam receosas de falar a verdade para os poderosos.

Verdade e amor não são opostos. Deus é amor, mas também é verdade e vida. Jesus, cheio de amor, chamou os poderosos de víboras, de raposa, de sepulcros caiados. Ao chamar a atenção deles, é como se ele nos dissesse: “Diante da dor e do sofrimento, não fiquem parados. Não sejam omissos, insensíveis. Por menos que vocês possam fazer, não sejam iguais aos que querem destruir. Busquem ser semelhantes àquele que é a misericórdia”.

Talvez, diante disso, nos sintamos impotentes e incapazes, pensando: “O que eu posso fazer num mundo tão violento e injusto?”

A primeira coisa que um seguidor de Jesus pode fazer é não aceitar a injustiça e a maldade. O Evangelho propõe uma proatividade que rompe com a lógica do sofrimento, da dor e da destruição. Não é para aguentar calado. Se você está sofrendo, ame! Lute! Enfrente! Mas não o faça na mesma lógica.

A lógica do Evangelho não é reagir à violência com armas, sendo mais violento que os violentos. Sua lógica é: “Assim como desejais que os outros vos tratem, tratai-os do mesmo modo. Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lucas 6,31;36.). Com o amor de Deus, que é a misericórdia, devemos buscar transformar situações de violência.

A segunda coisa é não ser conivente. Não se comportar da mesma maneira excludente, visando o lucro e o acúmulo. A indignação ética é um primeiro passo. Se não for dado, não há um segundo. Temos de manifestar nosso desacordo e podemos fazê-lo de muitas formas. As redes sociais são uma maneira. Organizações comunitárias são outra. Quando não conseguimos agir no macro, buscamos agir no micro. Aquilo em que acreditamos, aquilo que falamos, repetimos, compartilhamos e para que damos nosso like revela quem somos. Nossa boca fala daquilo que nosso coração está cheio.

O que vai nos libertar é a força do amor, que não tem medo de lutar contra a tirania dos poderosos. Somos livres não porque carregamos uma arma escondida, mas porque não há arma nenhuma. Não queremos conquistar nada com arma nem com força. Temos de olhar para nossa fraqueza e acreditar que é na condição de fracos que lutaremos.

Matéria publicada na edição impressa #48 em junho de 2021.