Política,

Trinta anos da Terra Indígena Yanomami

Quanto maior o risco de esse povo desaparecer, mais a sua imagem se projeta sobre a cultura contemporânea

01dez2022 - 05h51 | Edição #64

“No começo do mundo, o céu caiu e matou o primeiro povo que nasceu. Nós somos o segundo povo, aquele que segurou o céu e pôde sobreviver”, disse o líder Yanomami Davi Kopenawa na assembleia de líderes de seu povo, que comemorou trinta anos do reconhecimento e da demarcação da Terra Indígena Yanomami, em 25 de maio de 2022. As palavras resumem a história da formação do mundo, tal como descrita no “gênesis” de seu livro A queda do céu (Companhia das Letras, 2015), uma bíblia Yanomami que ele narrou ao longo de mais de trinta anos de convivência com o coautor, o antropólogo Bruce Albert.

Na cultura indígena, o conhecimento é disseminado de forma equânime

O discurso de Kopenawa, em seguida, passou a apontar a iminência de um novo fim, desenhando um quadro mais parecido com o “Apocalipse”: “Nós, povos indígenas do Brasil, não vamos morrer sozinhos. Vão morrer os indígenas, os não indígenas, o meio ambiente, morrem as florestas, suja a água, morre todo o planeta. O petróleo estragou o ar da terra, que foi criado para nós respirarmos. Agora, o que nós perguntamos é se vamos morrer queimados ou afogados? É o que estamos vendo por toda parte”.

Na mesma época do encontro, na pequena comunidade de Xihopi, na Terra Yanomami, no extremo norte do Brasil, as águas do rio Negro subiam a níveis inéditos, enquanto mais ao sul incêndios florestais e desmatamento atingiram novos recordes, como tem sido a rotina desde o início do governo Bolsonaro. Pode-se dizer que a visão de Davi é mais realista do que apocalíptica.

‘A queda do céu’, de Davi Kopenawa, tornou-se um dos livros mais influentes dos últimos tempos

A assembleia da Hutukara Associação Yanomami durou sete dias. Naquele discurso, Davi falava aos seus e a cerca de 150 convidados de fora, entre lideranças de outras etnias brasileiras (Ye’kwana, Txucarramãe, Kaiapó, Munduruku, Wapichana, Krenak), duas congressistas, um representante do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, duas enviadas do governo da Noruega, um ex-presidente da Funai e diretores de ONGs do Brasil e de outros países.

Ao completar trinta anos do reconhecimento oficial de suas terras pelo governo brasileiro, o maior grupo indígena de recente contato em todo o planeta (com pelo menos uma comunidade totalmente isolada) vive um paradoxo: quanto mais atacados são o povo Yanomami e sua Terra Indígena e maior o risco de desaparecimento, representado por ações da sociedade envolvente com apoio do estado de Roraima e da União, mais cresce o apoio político em torno do grupo. Soma-se a isso um movimento semelhante na esfera simbólica: quanto mais ameaçados, mais a imagem dos Yanomami se projeta sobre a cultura brasileira e de outros países, em livros, exposições, filmes.

Neste ano, pela terceira vez consecutiva, o líder Davi Kopenawa estará entre os nomes avaliados para o Prêmio Nobel da Paz (ele já ganhou o Global da ONU); seu A queda do céu se tornou um dos livros mais influentes dos últimos tempos, com traduções em vários cantos do mundo; o filme A última floresta (2020), uma parceria de Kopenawa com o cineasta Luiz Bolognesi, estreou sob aplausos no Festival de Berlim, no ano passado, e passou por festivais na Suíça e no Canadá, além do brasileiro É Tudo Verdade. Outro documentário, Gyuri, de Mariana Lacerda, que estreou nos cinemas em julho de 2022, narra a trajetória de mais de cinquenta anos de relacionamento entre a fotógrafa Claudia Andujar e o povo de Davi.

A suíça-brasileira-yanomami

A fotógrafa nasceu na Suíça, em 1931, filha de uma mulher protestante, e foi criada entre os familiares do pai, judeu, em uma vila húngara. Ali, durante a Segunda Guerra Mundial, viu o pai e todos os demais judeus serem levados para os campos de concentração, em 1944; pouco antes, ela deu o primeiro beijo no jovem Gyuri, que também viria a ser morto em Auschwitz. Até hoje, nonagenária, ela traz junto ao corpo uma pequena foto do menino e outra do pai, como revela no documentário de Lacerda.

A fotógrafa escapou do Holocausto por ser filha de uma mulher cristã. Antes do final da Segunda Guerra, fugiu com a mãe para a Suíça e, após o conflito, migrou para os Estados Unidos. De lá, veio para o Brasil nos anos 50 e, nos anos 70, adotou a cidadania brasileira. Mas às vésperas de chegar aos noventa anos, quando perguntei a ela qual é a sua identidade, numa entrevista para a Folha de S. Paulo, ela disse sem hesitar: “Sou Yanomami”.

As fotografias de Andujar em sua longa convivência com os Yanomami estão reunidas na exposição A Luta Yanomami, organizada pelo Instituto Moreira Salles com curadoria de Thyago Nogueira. A mostra já esteve em Paris, Roma e Londres e, em 2023, deve ser apresentada em Nova York.

Os trinta anos da Terra Yanomami foram também comemorados nos eventos paralelos da exposição Amazônia, de Sebastião Salgado, exibida  em São Paulo e no Rio, com previsão de circular por outras cidades do país, ao mesmo tempo que roda também por diversas cidades do mundo após a estreia, em Paris, em 2021. A abertura da exposição em São Paulo, em fevereiro, foi marcada por um concerto de músicas de Villa-Lobos na Sala São Paulo, que Salgado dedicou aos Yanomami. Davi Kopenawa subiu ao palco para um longo discurso de tom político forte. Pediu o apoio dos não indígenas a seu povo e ao combate ao garimpo: “Meu povo Yanomami defende a água do planeta. Sem água, vamos todos morrer de sede. Vocês precisam nos ajudar a manter a floresta e as águas”, disse naquele dia.

Em São Paulo e na França, artistas plásticos Yanomami têm trabalhos expostos em locais de prestígio. Joseca Yanomami e Ehuana Yaira são moradores da comunidade de Watoriki, fundada por Kopenawa. Trabalhos de Joseca estão em uma exposição individual no Museu de Arte de São Paulo (Masp). São 93 desenhos que expressam o dia a dia e a mitologia de seu povo, os seres visíveis e invisíveis que dividem a floresta com os indígenas. Nascido nos anos 70, Joseca começou a desenhar e a esculpir animais de madeira a partir dos anos 2000, depois de uma carreira de professor e agente de saúde. Outros trabalhos seus estão na mostra Rooted Beings, no museu Wellcome Collection, em Londres, e na exposição Les Vivants, da Fundação Cartier, em Lille (França).

A professora, escritora e artista plástica Ehuana Yaira Yanomami também participa da exposição Les Vivants. Seus trabalhos estão expostos ao lado dos de outros artistas indígenas, como Jaider Esbell, o Macuxi que foi o grande destaque na Bienal de São Paulo de 2021 e que morreu durante o período da exposição. No ano passado, Ehuana teve desenhos expostos em Xangai, em outra mostra promovida pela Fundação Cartier. As exposições têm curadoria de Bruce Albert. A Fundação Cartier já havia promovido um grande evento dedicado aos Yanomami, em 2003, denominado O Espírito da Floresta e, em 2021, sediou em Paris a retrospectiva de Claudia Andujar.

A língua Yanomami tem sido usada em diversos livros editados por entidades Yanomami, como a Hutukara, em parceria com o ISA (instituto Socioambiental). Essas publicações apresentam grande vitalidade científica decorrente da parceria entre os pesquisadores indígenas, que reivindicam o reconhecimento da riqueza de seus saberes tradicionais, e técnicos e cientistas não indígenas.

Livros partem da mitologia narrada pelos mais velhos e descrevem resultados de pesquisas recentes

Bruce Albert explica a posição dessas publicações no fio da história do contato conflituoso dos Yanomami com a sociedade envolvente. “Em 1978, fundamos a Comissão Pró-Yanomami, que lutava pela terra; em 1980, iniciamos a luta pela saúde, pela assistência médica; em 1990, a questão era o garimpo. A partir da demarcação e da expulsão dos garimpeiros, surgiu a demanda dos Yanomami por escolas em sua língua. Em 1996, surgiu o projeto de escolas, com uma filosofia de favorecer a alfabetização em Yanomami e consolidar o conhecimento da língua. Tivemos que criar uma grafia, pois a língua era apenas falada. Começamos a produzir material didático e traduzir para as línguas Yanomami os documentos úteis para a comunidade, como os manuais de informática ou para uso de microscópios (fundamentais para detecção da malária). Havia até um manual de uso do Photoshop, traduzido em língua Yanomami. Com isso, criamos uma geração de leitores de Yanomami, que existe hoje”.

Conflito de gerações

Segundo Albert, a sociedade Yanomami vive uma espécie de conflito de gerações. Nos anos 80, as doenças levadas pelos garimpeiros provocaram uma devastação, com um forte declínio populacional. A partir da demarcação e da redução das invasões, ocorreu um baby boom, e hoje a proporção de idosos é muito menor do que a dos jovens. Segundo o geógrafo Estêvão Senra, 75% dos Yanomami hoje têm menos de trinta anos.

Isso altera o relacionamento entre as gerações: “Os velhos contam suas histórias e passam seus conhecimentos em conversas à noite. Mas, agora, os jovens à noite olham seus celulares”, descreve Senra. “Os Yanomami vivem uma espécie de ‘Maio de 1968’, com os jovens rebeldes. Então, esses livros são para serem usados no contexto Yanomami, embora também sirvam para mostrar ao mundo exterior o conhecimento Yanomami da floresta”, descreve Bruce Albert.

Os livros sobre conhecimentos tradicionais estão reunidos na coleção Saberes da Floresta Yanomami, publicada pela Hutukara e pelo ISA. Os volumes são bilíngues, produzidos originalmente nas línguas Yanomami, por pesquisadores locais, e depois traduzidos para o português. Eles reproduzem a transmissão tradicional dos conhecimentos, partindo da mitologia narrada pelos mais velhos e depois descrevendo resultados de pesquisas recentes feitas por jovens pesquisadores indígenas.

O mais recente desses livros é Puu Naki Thëã Oni: o conhecimento Yanomami sobre abelhas, organizado por Albert e Senra. Ilustrado com aquarelas produzidas a partir das fotos feitas pelos pesquisadores indígenas, o volume contém a identificação de espécies de abelhas encontradas na terra Yanomami. “Nós fomos conhecer a mitologia do mel e das abelhas com os mais velhos e depois os jovens pesquisadores foram a campo para encontrar as abelhas e documentá-las. É uma forma de restituir a sabedoria tradicional”, explica o antropólogo. “É assim que eles transmitem seus conhecimentos: a mitologia Yanomami não é um conjunto de histórias para crianças dormirem. É um saber narrativo.”

Por vários milênios, os Yanomami foram habitantes dos picos altos das montanhas da Serra do Parima. Durante o século 19, os índios das terras baixas, mais expostos ao contato com os não indígenas, desapareceram e os Yanomami desceram das montanhas para as terras baixas. Mas sua mitologia descreve com precisão o ambiente do alto das montanhas, que os jovens não encontram nas terras baixas. “Os pesquisadores em suas expedições às terras de seus ancestrais conseguem identificar claramente as coisas de que falam os mais velhos”, diz Albert.

O antropólogo cita o exemplo de uma rãzinha, desconhecida no resto do Brasil, que só existe em florestas de altitude da Amazônia. Ela está presente na mitologia Yanomami e também foi identificada por cientistas franceses nas montanhas do lado da Guiana Francesa. Os jovens pesquisadores Yanomami encontraram e fotografaram espécimes que associaram ao animal descrito pelos mais idosos. Foi uma espécie de reconstituição de um saber pragmático, que estava preservado na mitologia.

A coleção de livros põe em questão as lógicas diversas do pensamento científico indígena e não indígena. O conhecimento Yanomami sobre abelhas teve apoio científico de entomologistas da Universidade Federal da Bahia, mas é produzido a partir da lógica Yanomami, que se manifesta na taxonomia da cultura indígena: os tipos de abelha são classificados pelo formato das entradas dos ninhos (não por genótipo, como é a tradição científica europeia). “Seria megalomania achar que a classificação ocidental tenha o monopólio da compreensão científica”, diz Albert. “No caso, o saber classificatório dos indígenas dá de dez a zero no dos entomologistas.”

Senra explica a capacidade superior dos Yanomami no que tange ao conhecimento sobre abelhas: “O que impressiona é que muita gente sabe muito sobre abelhas, enquanto entre os napë (os não indígenas) a maioria não sabe nada e poucas pessoas sabem muito”. Isso talvez seja uma característica essencial da cultura indígena em relação à cultura urbana ocidental: o conhecimento, como os bens de consumo materiais, é disseminado de forma equânime.

Antes do volume sobre abelhas, a coleção lançou Përisi: o fungo que as mulheres Yanomami usam na cestaria (ISA/AMYK, 2019), que relata uma descoberta científica: a identificação de uma espécie de fungo até então desconhecida pela ciência não indígena mas de uso corrente pela cultura Yanomami. O fungo tem um formato semelhante ao de uma raiz fina e longa, como um fio de plástico preto. Usado na tradicional cestaria trançada pelas comunidades Yanomami, o material foi identificado como desconhecido pelos pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), parceiro dos projetos de pesquisa desenvolvidos pelas comunidades. Ganhou o nome científico Marasmius yanomami, em reconhecimento ao povo que o descobriu. O estudo contribui com as pesquisas muito em voga sobre redes de fungos que servem de “comunicadores” entre as árvores das florestas. Escrito em Yanomami com tradução para o português, o livro tem coautoria de Floriza da Cruz Pinto Yanomami e pesquisadores locais e de Noêmia Kazue Ishikawa e Jadson José Souza de Oliveira, pesquisadores do Inpa.

Um projeto coloca no mercado alimentos e temperos que geram renda para comunidades

Em 2017, a coleção tinha lançado Ana Amopö: cogumelos, sobre o uso que o grupo Sanöma faz dos cogumelos na culinária tradicional. O livro, que ganhou o prêmio Jabuti na categoria gastronomia, tem edição bilíngue em Sanöma e português, como ocorre também com outro volume sobre comidas desse grupo: Salaka Pö: peixes, crustáceos e moluscos.

Sanöma é uma das seis línguas do tronco Yanomami, que inclui: Ninam; Yanomami ou Yanonami; Yaroamë; Yãnoma; e Yanomam. A diversidade das línguas faladas no território Yanomami é o tema de As línguas Yanomami no Brasil, de Helder Perri, Ana Maria Machado e Estêvão Senra (orgs.), lançado em 2019. Segundo o estudo, o Sanöma tem pouco mais de 3 mil falantes. Eles habitam a região de Awaris, no alto da Serra do Parima.

A população total Yanomami no Brasil é de 26 mil pessoas. A língua com mais falantes é a Yanomam (ou Yanomae), com 11,7 mil pessoas no Brasil, e é a língua falada pela comunidade de origem de Davi Kopenawa. Em seguida, vêm os falantes do Yanomami ou Yanonami, com 8,7 mil; depois os Ninam, com 1,7 mil falantes; Yaroama, 360; e Yãnoma, 180. O livro de Perri, Machado e Senra contém um “furo de reportagem”: a identificação da sexta língua no universo do tronco, o Yãnoma (até então, eram identificadas apenas cinco línguas).

Os cogumelos Sanöma se tornaram também um produto comercial de alta culinária, vendidos desidratados em mercados de produtos gastronômicos, como parte da parceria da Hutukara com o ISA e o Instituto Atá (fundado pelo chef Alex Atala). O programa tem colocado no mercado produtos indígenas, como a pimenta jiquitaia, dos Baniwa, e o mel do Xingu. São alimentos e temperos caros, que geram renda para comunidades indígenas de lugares distantes das grandes metrópoles. Um pacote de 15 gramas de cogumelos Sanöma é vendido em São Paulo por cerca de R$ 35. Já um pequeno vidro com 15 gramas de pimenta jiquitaia Baniwa tem preço em torno de R$ 45. Cada vidro tem a identificação da pessoa que o produziu e da aldeia em que ela mora na região do rio Negro (Amazonas). O tempero em pó é produzido conforme receitas familiares, o que faz cada dose ser diferente de outras.

O sonho envolve ou define a experiência dos xamãs em seu transes durante as pajelanças

Essa característica atribui alto valor agregado aos produtos, o que faz com que sejam degustados em restaurantes de luxo. Também como parte do projeto, foi lançado em 2021 Umami: receitas para o dia a dia com os cogumelos Yanomami (ed. Istud/ISA/Hutukara), com prefácio de Atala e receitas de dez chefs de restaurantes renomados de diferentes cantos do Brasil. Entre as receitas, estão um nhoque de macaxeira ao molho do cogumelo de Debora Shornik, do Caxiri, em Manaus (am); ostras empanadas em pó de cogumelos de Danillo Amaral, de Vitória (ES); um lombo com purê de batata ao molho de cogumelo, de Clóvis Lima (Ceará). Especializada em culinária indígena, Kalu Brasil (Roraima) faz um bolinho de chuva com o produto Sanöma.

Etnografia dos sonhos

Uma característica marcante da cultura Yanomami é o papel estruturante dos sonhos. Ele dita o dia a dia: dependendo do sonho, com uma cobra, por exemplo, uma pessoa pode ficar em casa para não se expor ao risco de ser picada. Pode ensinar também: quando querem saber mais sobre algo, os Yanomami procuram sonhar com elas: “Esse é o modo nosso de ganhar conhecimento. Foi, portanto, seguindo esse costume que também eu aprendi a ver”, escreve Kopenawa. Os sonhos também conduzem a política, pois, para eles, “são as palavras que escutamos no tempo dos sonhos”.

Os indígenas viajam quando sonham, podem conhecer lugares distantes, diferentes dimensões do mundo e outras pessoas. Ao chegar à Europa, Davi Kopenawa se deu conta de que já havia estado lá algumas vezes, em sonhos. O sonho também pode conduzir o relacionamento entre as pessoas, como sociedade. Já os não indígenas têm sonhos limitados: “só sonham consigo mesmos” e “não fazem do sonho um instrumento de conhecimento sobre o mundo”.

Isso é explicado pela antropóloga Hanna Limulja no livro O desejo dos outros (Ubu/ISA), um estudo sobre esse aspecto da cultura Yanomami. Para eles, os sonhos nascem em uma árvore criada por seu deus Omama, “a fim de que os humanos pudessem sonhar. Quando as flores dessa árvore desabrocham, os sonhos são enviados aos Yanomami”, explica a autora.

O universo dos sonhos ultrapassa os limites do sono: segundo a autora, o sonho envolve ou define também a experiência dos xamãs em seu transe sob efeito da substância chamada yãkoana, que eles inalam em pajelanças. Segundo o antropólogo Renato Sztutman, no texto que apresenta o livro, “para os Yanomami, saber sonhar é saber ver, ver o invisível”, entrando em contato com os espíritos que vivem em outra dimensão não visível. Essa viagem xamânica tem paralelo com a morte, de tal forma que a palavra que define a alteração da consciência propiciada pela substância enteógena, nomai, também quer dizer “morrer”. Quem sonha atinge um plano chamado mari tëhë, que define o “espaço-tempo do sonho” mas também o “espaço-tempo do mito”.

Limulja trabalha com os Yanomami desde 2008, tendo uma longa convivência com a comunidade Piaú (ou Pya ú, na região Toototobi, dentro da Terra Indígena), cujos habitantes falam a língua Yanomae. Ao longo desse período, dedicada originalmente a projetos de educação, a autora constatou a importância fundamental do sonho para os Yanomami e estranhou a falta de um estudo profundo sobre sua relação com o universo onírico. Daí nasceu o trabalho, para o qual gravou cerca de trinta horas de narrações de cem sonhos que ela e seus conselheiros Yanomami consideraram tão profundos “que apenas os xamãs conseguiam acessar”.

Publicações raras

Não são só os lançamentos recentes de livros, filmes e exposições que manifestam a influência da imagem dos Yanomami. Uma das representações mais claras desse impacto sobre a cultura contemporânea é o preço das publicações antigas de Claudia Andujar com imagens desse povo indígena. A raridade e os preços altos começam com os exemplares da edição especial da revista Realidade sobre a Amazônia, publicada em outubro de 1971, tendo na capa a foto de uma mulher Yanomami feita por Andujar. O fotógrafo George Love (1937-95), que participou da edição (na época ele era casado com Andujar e viajou com ela para a Amazônia), contava que a revista esgotou em menos de uma semana e a Editora Abril não teve condições de fazer uma nova tiragem. Trabalhando para essa edição, Andujar entrou em contato pela primeira vez com a etnia.

Quanto mais longe da população indígena, mais empatia; quanto mais perto, maior a rejeição

O jornalista Lúcio Flávio Pinto, criador, autor e editor do Jornal Pessoal (Belém, PA), que participou da equipe de Realidade sob comando de Raimundo Rodrigues Pereira, contou ao site Observatório da Imprensa, em 2011: “A edição especial da revista Realidade de outubro de 1971 não foi apenas a ‘mais longa, custosa e apaixonante reportagem’ já realizada pela Editora Abril, como proclamava o seu dono, Victor Civita, na ‘Carta do Editor’, mas a maior de todas as reportagens da história da imprensa brasileira. Para criar as 328 páginas da edição (das quais 137 de anúncios), em formato grande, foi recrutada uma equipe de quarenta pessoas, dezesseis delas jornalistas, dos quais treze foram a campo, incluindo o maior grupo de grandes fotógrafos que já trabalharam juntos (Maureen Bisilliat, Claudia Andujar, George Love, Amancio Chiodi, Darcy Trigo e Jean Solari), responsáveis pelas deslumbrantes fotografias (dentre elas, o antológico ensaio de Claudia sobre os índios Yanomami, que passariam a ser sua causa)”. A edição, de 350 mil exemplares, logo se esgotou e se tornou relíquia. Ao completar cinquenta anos, em 2021, a Abril lançou uma edição fac-similar da revista.

A sociedade contemporânea, quando se preocupa com alguma coisa, é porque a está destruindo

Valores galácticos são praticados por quem vende exemplares dos fotolivros Yanomami e Amazônia, editados pela Práxis, em 1978. O primeiro, com fotos de Andujar, vale em torno de R$ 7 mil; já o segundo, com fotos dela e de George Love, tem preço de R$ 15 mil no Estante Virtual. No site internacional AbeBooks, os preços de Amazônia podem subir ainda mais — já vi ser cotado a US$ 10 mil.

A ideia de que a ameaça de desaparecimento dos Yanomami e sua cultura possa provocar um culto à sua imagem não é de todo exótica: depois de navegar por muitos rios da Amazônia e viver na região por vários anos, o fotógrafo Pedro Martinelli se admirava com o paradoxo: “Onde se veem menos indígenas, mais presentes eles estão em pinturas nas paredes e em nomes de lugares”. A própria cidade de São Paulo é um exemplo disso: a metrópole mais influenciada pelo tupi-guarani em seus espaços públicos só passou a ter uns tantos indígenas em seu território depois que eles migraram do sul do país e ocuparam algumas nesgas de áreas verdes ao longo das décadas mais recentes. O antropólogo Beto Ricardo, um dos fundadores do ISA, ressalta que, em todas as pesquisas de opinião pública feitas para conhecer a imagem dos indígenas entre a sociedade não indígena brasileira, os resultados revelam uma maior preocupação com a defesa de seus direitos entre os moradores das metrópoles do que entre os do interior, mais apoio entre os habitantes do Sudeste do que no Norte, mais próximo das principais áreas de população indígena. “Quanto mais longe, mais empatia; quanto mais perto, maior a rejeição”, conclui.

Falando desse paradoxo, Bruce Albert cita o ensaísta francês Jean Baudrillard (1929-2007), para quem a sociedade contemporânea, quando se preocupa com alguma coisa, é porque a está destruindo. No mesmo sentido, Davi Kopenawa ficou chocado ao visitar o Museu do Homem, em Paris: “Quanto mais os homens brancos colocam arco e flecha nos seus museus, mais nós indígenas morremos”.

Quem escreveu esse texto

Leão Serva

É diretor internacional de jornalismo e correspondente em Londres da TV Cultura e autor de A fórmula da emoção na fotografia de guerra (Edições Sesc).

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.