Literatura brasileira,

Tecer palavras

Gilmar de Carvalho, morto neste ano por Covid-19, escreveu obras experimentais e destacou a grande arte de Patativa do Assaré

01jul2021 - 00h51 | Edição #47

Em seu chão, a morte de Gilmar de Carvalho foi seguida de um lamento alto. Estava em Fortaleza, onde morou a maior parte da vida, quando no dia 17 de abril o corpo terminou por sucumbir à doença. Contava 71 anos e por três semanas e meia esteve internado. A Covid-19 havia interrompido os trabalhos de um novo livro e impediu que outros sobre os quais já falava viessem à luz.

Gilmar era um intelectual consagrado, que não agia conforme a cartilha. Avesso ao elogio fácil e à heráldica das glórias passadas, acessível a leitores e pesquisadores, ele repelia o circuito oficioso dos vaidosos. Aos cinquenta anos, já afamado, viu o ritmo de escrita e publicação se acelerar. Editou mais do que foi reeditado.

A notícia de sua morte foi seguida de um rumor mais antigo. Traduzia frustração e indignação. O nome do escritor e sua obra receberam menos atenção do que deveriam em outras partes do país e além-mar. O escritor não foi o único, e infelizmente não será o último, a ficar de fora da universalidade do provincianismo alheio. Pesam a geografia e a desigualdade do país, que também é cultural e de atenção dada às coisas da cultura. A verdade é que, mesmo no Ceará, seria preciso que se conhecesse o escritor mais além do sábio de sua aldeia que muitos viram nele. Gilmar foi o autor de uma obra incomum e de uma literatura que nem sempre foi compreendida. Ele é lido como um intelectual prolífico, um acadêmico dedicado a seu tempo, o professor Gilmar de Carvalho da Universidade Federal do Ceará (UFC), disposto a descobrir e fazer conhecer mais das tradições populares. Essa leitura não é incorreta, mas é insuficiente.

Estreou como cronista e jornalista cultural ainda nos anos 60. As referências já antecipavam uma lógica capaz de desvelar um panteão heterogêneo, em que a diferença não determina exclusões. Clarice Lispector, Rubem Braga, Stanislaw Ponte Preta. Chegou logo à ficção com Pluralia tantum (1973) e Parabélum (1977). O primeiro, de narrativas curtas; o segundo, um romance. A crítica, atordoada, ou bateu ou silenciou. Prosas experimentais, com ecos da contracultura, são livros que enlaçam extremos. Marginal e erudito, novo e arcaico. O intelectual urbano intuía que as mesmas contradições, por outras artes alquímicas, se materializavam nas tessituras da tradição popular. Heranças ibéricas, mouras, do medievo francês, devoradas por outras, tão antigas quanto elas. Caboclas, indígenas, negras.

Vanguarda

A obra-ponte entre o Gilmar da ficção experimental e o pensador da cultura popular é Orixás do Ceará, texto para o teatro, encenado em 1974, em que as referências das neovanguardas ainda vigentes dialogavam com o panteão afro-brasileiro dos terreiros cearenses, então marginalizados mais agressivamente do que o são hoje. Negro, gay, autor de uma literatura incômoda, criador de personagens que os bons modos daqueles tempos de ditadura recomendavam que vivessem, se tanto, às escondidas, Gilmar incomodou a Censura, foi chamado ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e perdeu empregos nos jornais. Viveu como publicitário enquanto escrevia. É o que os escritores fazem.

A recepção fria e por vezes hostil à sua ficção o levou a uma incursão sem volta pela escrita do encontro, em que a tudo é dado o justo nome que possui. Um projeto literário se iniciava. O que se lê, na fase não ficcional, é uma obra que parece construir-se como uma rede. Fios se cruzam, se aproximam, se distanciam, lançam-se uns sobre os outros. Assim como uma peça de renda, o que teceu o autor ao longo de décadas, livro a livro, cria uma imagem maior, tem formas e um sentido estético. É, também, arte.

Parágrafos curtos, frases bem urdidas e palavras escolhidas: tudo conferia à escrita de Gilmar um tom a ecoar as vozes e as formas de narrar que por meio dela se faziam ouvir. Ele soube reconhecer a riqueza dos saberes que escapam das pedagogias doutas.  

A obra que deixou não é tímida e o faz ser comparado a Mário de Andrade e Câmara Cascudo 

Gilmar tomou gosto pela estrada e pelos encontros que ela prometia já nos anos 70. Adentrou o Ceará e outros estados do Nordeste. As andanças se intensificaram em seu período como professor  da UFC (1984-2010). Foi assim que viu a grande arte em criadores como o poeta Patativa do Assaré, o mestre coureiro Espedito Seleiro, a rainha dos vaqueiros Dina e mais de uma centena de rabequeiros.

A obra que assim deixou não é tímida e, com justiça, o faz ser comparado a Mário de Andrade e Câmara Cascudo. Há, contudo, bordados de sua escrita que vão além desse escritor que buscava experiências e encontros, sempre a planejar novas viagens e livros de tudo o que trazia delas.

Em Madeira matriz (1998), livro sobre a xilogravura, feito de sua tese na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), experimenta com ideias e formatos. Parte da tradição e aprende com ela. Sabe que a cultura que não se move é artefato de museu, de um conceito de museu também já superado. A tradição vive quando se transforma. Mudar não é prerrogativa das vanguardas urbanas, das artes letradas e institucionalizadas. “É como se fosse um único texto que a gente escreve a vida inteira a partir de angulações, de ênfases”, comparou Gilmar em uma entrevista sobre sua obra.

Quando adoeceu, do hospital escreveu bilhetes, e-mails e mensagens em aplicativos: “Estou cumprindo o protocolo contra a Covid. Bom atendimento, povo atencioso. Espero logo estar de volta ao convívio dos amigos”.  

A vida dos santos, sabia Gilmar, o estudioso de Padre Cícero, é contada a partir de seu desfecho. Encontram-se sinais, anunciações e significações onde antes só havia a confusão da vida ordinária. É difícil não ler, em sua última incursão pela escrita e pela edição, pequenos acenos de Gilmar para a vida e da vida para Gilmar.

Habituado a trabalhar em vários livros simultaneamente, o escritor elegera um único projeto a que se dedicar durante o isolamento na pandemia. O tema foi aquele ao qual retornou mais vezes: a literatura de cordel. Consultou 60 mil folhetos para remontar as histórias dos cordelistas e desse gênero poético no Ceará desde suas origens, no século 19, até o presente.

Originalmente o livro se chamaria Poéticas da voz: aboios, benditos, cantoria, cordel, emboladas, loas, saraus, torém, trovas e chegou a ter mais de seiscentas páginas. A versão final contava 336. O título reescrito parece querer dar conta de um trabalho definitivo, como um ponto-final. Se chamará apenas Cordel. Para fechá-lo, Gilmar esperava conseguir duas capas de folhetos pertencentes a acervos de instituições. A morte chegou antes.

Cordel ainda chegará aos leitores, por dedicação de amigos do escritor. As capas dos folhetos que ele procurava não foram localizadas. A ausência marcará o livro. Será o testemunho de uma obra interrompida, não fossem o acaso da pandemia e o descaso genocida que a catalisou.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Cultural.

Quem escreveu esse texto

Dellano Rios

Matéria publicada na edição impressa #47 em maio de 2021.