Literatura brasileira,

A testemunha involuntária

Lembranças do filho trazem uma perspectiva íntima de Clarice Lispector e seu ‘A maçã no escuro’

31jul2023 - 20h00 | Edição #72

Aos três anos de idade, eu estava ao lado de minha mãe quando ela colocou o ponto final em A maçã no escuro: era maio de 1956, em Washington, e Clarice estava, como sempre, trabalhando sentada no sofá da sala de estar, máquina de escrever no colo.

Nas palavras dela:

Eu me lembro muito do prazer que eu senti ao escrever ‘A maçã no escuro’. Todas as manhãs eu datilografava, chegava a quinhentas páginas. Eu copiei onze vezes para saber o que é que estava querendo dizer, porque eu quero dizer uma coisa e não sei ainda bem ao certo. Copiando eu vou me entendendo…

Outros Escritos. Clarice Lispector. Rocco.

O livro só foi publicado em 1961, durante o ii Festival do Escritor Brasileiro, uma feira do livro muito modesta se comparada às de São Paulo e Rio de Janeiro nos dias de hoje, com meio milhão de visitantes cada. Naquela época todo escritor tinha um “padrinho”, alguém proveniente de outro campo artístico. E o padrinho de Clarice era, um pouco por acaso, Tom Jobim, que à época já era famoso, mas ainda não era a lenda de hoje. Eu estava lá, um menino de oito anos. Leve e brincalhão, Tom Jobim gritava: “Compre o livro, compre o livro!”. E lembro que Clarice ficou surpresa porque, devido à hiperinflação, o livro tinha o altíssimo preço de dez cruzeiros. Há anos, leio e releio as primeiras linhas do livro, sempre emocionado por sua misteriosa poesia:

Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. O modo como, tranquilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu. Até que mais profundamente tarde também a lua desapareceu.

Lembro de consultar um professor de literatura sobre a aparentemente estranha construção, e ele me explicou, mas prefiro seguir movido com o sentido dela.

O romance, com um formidável twist no final, daria um ótimo filme de Alfred Hitchcock, e espero que um dia ele seja transposto para o cinema. Vou, entretanto, evitar spoilers para que os leitores descubram por si mesmos.

Irrestrita liberdade

Minhas duas lembranças com A maçã no escuro (de minha mãe no sofá e de Tom Jobim oferecendo o novo livro na feira) fizeram de mim uma dupla testemunha — uma perspectiva diferente daquela dos excelentes biógrafos de Clarice, que infelizmente jamais chegaram a conhecê-la. Imagino que a perspectiva de um historiador acerca da Batalha de Waterloo é muito diferente daquela dos soldados que estavam lutando.


Nova tradução de A maça no escuro, que será lançada em outubro pela New Directions nos Estados Unidos e pela Penguin na Inglaterra

Em 1961, A maçã no escuro se tornou para todos a obra-prima de Clarice no gênero romance; para mim, o livro aponta a passagem dos títulos mais herméticos e inovadores do início de sua carreira para os romances que vieram depois, marcados pela inovação plena e pela irrestrita liberdade, como em A paixão segundo G. H., Água VivaA hora da estrela. Vejo a mesma trajetória em seus contos, que se tornaram visivelmente mais experimentais e de vanguarda, na minha opinião, nos anos 60 e 70, e que são os meus favoritos.

Eu estava lá, um menino de oito anos. Leve e brincalhão, Tom Jobim gritava: ‘Compre o livro, compre o livro!’

De qualquer modo, A maçã no escuro — sucesso de público e crítica no Brasil — foi logo traduzido para o inglês pelo famoso Gregory Rabassa para a editora Alfred A. Knopf; fez-se também uma tradução para o alemão por Curt Meyer-Clason, e mais tarde uma tradução francesa de Violante do Canto para a icônica Éditions Gallimard.


Capas de edições de A maçã no escuro

Naquela época, ainda era um feito exótico que uma escritora brasileira fosse publicada fora do país. E ainda fui testemunha de eventos envolvendo A maçã por uma terceira vez: lembro-me do famoso Alfred A. Knopf, em pessoa, enorme como o Empire State Building, em nosso pequeno apartamento no Rio de Janeiro, discutindo a tradução com minha mãe — e talvez aquela tenha sido a primeira vez que percebi que algo importante estava acontecendo.

Nota do autor
Esse texto foi originalmente preparado como posfácio da edição da nova tradução em inglês The Apple in the Dark, a ser lançada em outubro de 2023, pela New Directions nos Estados Unidos e pela Penguin na Inglaterra, com o reconhecimento do entusiasmo e competência de Benjamin Moser e das equipes editoriais, o grand finale do ambicioso relançamento de toda a ficção de Clarice Lispector em inglês.

Quem escreveu esse texto

Paulo Gurgel Valente

É autor de Lealdade a si próprio (Rocco).

Matéria publicada na edição impressa #72 em julho de 2023.