Identidades, Literatura infantojuvenil,

Jovens queer precisam de histórias queer

Em efeito dominó, bibliotecas escolares baniram o meu livro só porque escrevi que pessoas trans não binárias existem

01out2022 - 04h51 | Edição #62

Na noite de 23 de setembro de 2021, fui marcada em um vídeo no Instagram. Parecia ser uma filmagem de uma reunião do conselho municipal, e uma mulher discursava com raiva diante de um suporte para ler livros. Não liguei o som. “Esses são os doentes que escrevem esses livros horrorosos”, alguém comentou ao marcar o meu perfil e o de outro autor, Jonathan Evison.


 

Na manhã seguinte, acordei e vi vários e-mails de jornalistas da Associated Press e de agências de notícias de Washington. Meu livro de estreia, Gender Queer: A Memoir, havia sido censurado em uma reunião do conselho escolar do condado de Fairfax, nos arredores de Washington, na Virgínia.


 

A história foi se desdobrando ao longo da semana seguinte. Fiquei sabendo que o norte da Virgínia havia se tornado o centro de um debate acalorado, com protestos contra e a favor dos direitos de estudantes transgênero, provocando gritaria, correntes de orações e até uma prisão durante reuniões de conselho. Ao ler o Washington Post descobri que uma das mães de Fairfax “escolheu como alvos Gender Queer e Lawn Boy [de Evison], livros com personagens LGBTQ, ao tomar conhecimento desses textos durante a cobertura midiática de protestos realizados por pais de alunos no Texas. Ela vasculhou a biblioteca do colégio onde seus filhos estudavam e percebeu que os livros também estavam disponíveis na rede pública de Fairfax”. Alguns alegaram que o livro incentivaria a pedofilia, baseando-se em um único quadrinho, que retrata um vaso erótico da Grécia Antiga. Outros simplesmente o tacharam de pornografia — acusação muito comum contra trabalhos que têm a sexualidade queer como temática.


 

Uma semana depois, fiquei sabendo que Gender Queer também havia sido censurado em uma escola distrital na Flórida. Um mês depois, o livro passou a ser formalmente contestado em escolas de Rhode Island, New Jersey, Ohio, Washington e, mais uma vez, Texas.

Na turnê de lançamento do livro, em 2019, me perguntaram várias vezes: “Você indica esse livro para leitores de que idade?”. Em geral a minha resposta era: “Para alunos a partir do ensino médio”, mas a verdade é que escrevi o livro tendo em mente os meus pais e parentes próximos. Quando estava me assumindo como não binárie, ouvi muitas vezes comentários do tipo: “Nós te amamos, estamos do seu lado, mas não temos a menor ideia do que você está falando”.


 

Contei para a minha mãe que era queer no último ano do ensino médio. Levei quase uma década para dizer a ela que também era não binárie, embora já questionasse a minha identidade desde o início da puberdade, aos onze anos. Um dos principais motivos para esse longo hiato entre a primeira e a segunda saída do armário foi a falta de visibilidade das identidades trans e não binárias na época da minha adolescência. No ensino médio, conheci diversos gays, lésbicas e bissexuais assumidos, mas fui ver alguém assumidamente trans ou não binárie apenas quando entrei na faculdade. Só tive acesso a informações e histórias sobre pessoas transgênero pela mídia — e principalmente por livros.


 

No início dos anos 2000, eu não tinha tv em casa e o acesso à internet era limitado, de modo que eu precisava recorrer à biblioteca local em busca de entretenimento. Toda semana eu vasculhava pilhas de mangás e romances de fantasia. Tinha particular interesse por histórias com personagens queer. Devorei Skim, de Mariko e Jillian Tamaki, e Luna e Keeping You a Secret, de Julie Anne Peters. Li a obra-prima de Howard Cruse, Stuck Rubber Baby. Também mergulhei nas páginas de Paradise Kiss, Rainbow Boys, Weetzie Bat, Annie on My Mind, Geography Club, Swordspoint, Totally Joe, Very LeFreak e de todos os livros de David Levithan que consegui encontrar. Esses livros me fizeram companhia durante os meus anos de confusão e questionamentos.


 

A American Library Association, que monitora contestações, restrições e censuras a livros em escolas e bibliotecas dos Estados Unidos, registrou que o livro mais contestado em 2020 foi Melissa (antes intitulado George), de Alex Gino, a narrativa de um aluno trans do ensino fundamental escrita por ume autore não binárie. Não raro, os jovens queer não têm opção senão procurar fora de casa e do sistema educacional as informações sobre quem eles são.

Banir ou restringir livros queer em bibliotecas e escolas é como privar os jovens queer de coletes salva-vidas, jovens que talvez ainda nem saibam quais palavras devem digitar no Google para descobrir mais sobre o seu próprio corpo, sua identidade e sua saúde.

Três semanas depois de ter ficado sabendo do banimento de Gender Queer nas escolas do condado de Fairfax, recebi a seguinte mensagem:

“É provável que você nem leia isto, mas sou ume estudante queer de escola pública em Fairfax! Minha mãe e eu lemos o seu livro. Eu amei! Me identifiquei com quase tudo o que você diz. Senti que não estava sozinhe, que alguém me compreendia. Acho que a minha mãe me entende melhor agora, e eu me sinto mais confortável para desabafar com ela depois de ela ter lido o seu livro. Muito obrigade por compartilhar suas memórias!”.

(Tradução de Bruno Mattos)

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Maia Kobabe

Escritore e ilustradore, escreveu Gender Queer: A Memoir (Oni Press)

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.