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Fora da caixa

Autores da geração Z impulsionam venda de romances para jovens protagonizados por gays, lésbicas, trans e pansexuais

01out2022 - 04h51 | Edição #62

Filas imensas, choro e declarações de amor. O ritual se repete a cada feira, bienal, sessão de autógrafos com a presença de Clara Alves, Elayne Baeta, Pedro Rhuas, Vitor Martins, Juan Julian, Felipe Cabral, entre outras e outros autoras e autores que se transformaram na face mais pop de um novo fenômeno editorial. Em comum, além de jovens (entre vinte e trinta e poucos anos), vendem milhares de cópias — Conectadas, de Clara Alves, chegou a 100 mil em maio deste ano —, são assumidamente gays, bissexuais, lésbicas, trans e não bináries e escrevem romances juvenis em que garotas namoram garotas, meninos paqueram meninos e menines flertam com quem der na telha.

“Quando eu era adolescente, não existia literatura pop young adult com investimento de grandes editoras como temos agora”, afirma o carioca Felipe Cabral, que é escritor, jornalista, ator e roteirista. “Tive de me entender assistindo a tv e filmes. Mesmo assim, nos anos 90, na novela Torre de Babel, as [personagens] lésbicas morreram num desabamento no shopping; o André Gonçalves, que interpretou um gay em A próxima vítima, foi espancado na rua”, lembra Felipe. Episódios como esses apontavam para o que o escritor chama de “caminho de dor”, reforçando o discurso de que ser gay era sinônimo de sofrimento e perseguição. “Essa nova literatura tapou um buraco de histórias sobre problemas com a família, saída do armário… Os enredos acolhem e mostram que gay, lésbica, bi, pan ou trans, todos podem ser felizes, ter um amor e amigos.”

Pesquisador e ativista, Felipe fez curtas-metragens, é o responsável pelo perfil “Eu Leio LGBT” (30 mil seguidores no Instagram) e como roteirista colaborou nos folhetins globais Totalmente demais (2015) e Bom sucesso (2019), primeira novela das sete a ter um beijo gay. Seu romance de estreia, O primeiro beijo de Romeu (2021), foi o primeiro do segmento juvenil de uma grande editora brasileira, a Galera Record, a trazer na capa a imagem de dois homens se beijando. Na trama, o protagonista Romeu é “arrancado do armário para toda a escola”, ao mesmo tempo que seu pai, que lançaria um livro na Bienal, é censurado pelo prefeito da cidade.

Escritoras e escritores fazem das plataformas digitais uma extensão de seu trabalho

A referência é famosa e emblemática: após uma visita à Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 2019, o então prefeito da cidade, Marcelo Crivella, pediu que a graphic novel Vingadores, a cruzada das crianças (Marvel) fosse recolhida por ter uma cena com dois personagens masculinos se beijando. Segundo ele, tratava-se de “conteúdo sexual para menores”. No dia seguinte, um grupo de fiscais da Secretaria Municipal de Ordem Pública foi ao evento para confiscar obras com temática LGBTQIAP+.

“Crivella deu um tiro no pé ao chamar a atenção para esses autores e esse tipo de literatura”, diz Thalita Rebouças, best-seller do segmento juvenil que, na mesma Bienal, lançou Ela disse, ele disse, seu primeiro trabalho com personagens LGBTQIAP+. Thalita se lembra de ouvir Pedro Bandeira, Ana Maria Machado, entre outros que estavam ao seu lado na manifestação realizada contra a censura, dizerem nunca ter vivido nada parecido. “Foi histórico. Até então, os livros lgbt estavam numa prateleira escondida. Agora, estão cada vez mais expostos, porque a gente tem que ser diverso e falar sobre isso.”

Na época, o youtuber Felipe Neto deu um empurrãozinho na audiência do incidente, ao comprar e distribuir gratuitamente mais de 10 mil livros com temática LGBTQIAP+ — entre eles a HQ Vingadores, com um adesivo que dizia “este livro é impróprio para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas”. Felipe Cabral, curador e mediador de dois encontros LGBTQIAP+ da Bienal de 2019, foi um dos que testemunharam o momento da virada. “Após o que aconteceu, houve um boom editorial e no debate sobre o tema, pois foi uma censura assumidamente LGBTfóbica.”

Sucesso editorial

O mercado editorial sentiu o reflexo. “Duplicamos o número de lançamentos: de 25, em 2020, para 50, em 2022, com mais da metade deles com protagonismo LGBTQIAP+. Além disso, triplicamos o faturamento desde 2019”, afirma Rafaella Machado, editora executiva da divisão dedicada ao segmento young adult da Record. “O Galera era o quarto selo em vendas do Grupo Record e passou a ser o primeiro. Elayne Baeta é nossa autora nacional mais vendida, com mais de 60 mil exemplares. A carência é tão grande e a produção, tão prolífica que, se eu quiser, posso lançar somente autores ou livros LGBTQIAP+ de todos os gêneros literários. Romances hétero, agora, têm de ser muito bons para furar essa bolha.”

A escritora e ilustradora baiana Elayne Baeta, de 25 anos, foi uma das apostas literárias que despontaram no rastro da Bienal do Rio de 2019. Em dezembro do mesmo ano, ela lançou O amor não é óbvio (Galera Record), primeiro romance sáfico juvenil a integrar a lista de mais vendidos da revista Veja, com mais de 50 mil cópias. Com o trabalho seguinte, Oxe, baby (2021), ela se tornou a primeira autora assumidamente lésbica a emplacar um livro de poesia na lista de mais vendidos.

“Sempre gostei de escrever. Mas meu primeiro romance surgiu porque eu não me via em lugar nenhum. Era sempre garoto encontra garota e vivem felizes para sempre. Nunca era garota com garota, e eu precisava disso. Talvez fosse tarde para a minha adolescência, mas ele pode estar no tempo exato da adolescência de outras pessoas”, diz Elayne. Antes de assinar com a Galera Record, ela fez um percurso comum ao de outros jovens autores. Ativa em grupos de literatura de plataformas digitais, ela publicou no Wattpad O amor não é óbvio — sua história de uma menina de dezessete anos, viciada em novelas, que se descobre interessada por outra garota, alcançou mais de 400 mil leituras.

“Fui procurada primeiro por outra editora, que queria alterar algumas coisas da história, mas não topei. Não vou me censurar. A Galera Record não mexeu em nada. Passei a vida inteira lendo romance hétero e não sou uma, então ninguém vai virar lésbica por causa do meu livro.”

A popularidade de Elayne reflete a cumplicidade entre ela e leitores nas redes sociais, onde compartilha seu dia a dia e suas conquistas como autora e fala sobre literatura para 105 mil seguidores no Instagram; 185 mil no TikTok e 9,96 mil inscritos em seu canal no YouTube. “Eu me abro sobre o que sinto e penso. Conto minha trajetória e falo o que tem de especial nos meus livros, para que as pessoas os escolham na livraria e não os de outra pessoa. Meus livros têm minha alma. Não escrevo por escrever.”

Fator TikTok

Como ela, autores e autoras da geração z fazem das plataformas digitais uma extensão de seu trabalho, com uma naturalidade que levou à explosão dos booktokers, criadores de conteúdo sobre livros no TikTok. Sob a hashtag BookTokBrasil (mais de 6,3 bilhões de visualizações), escritores e leitores dividem obras e dicas. Quanto mais views, mais vendas — e não só de novidades. No ano passado, A canção de Aquiles (Planeta), de Madeline Miller, livro de 2012 que retrata como gay o famoso herói da Ilíada, alcançou 1 milhão de exemplares vendidos após viralizar no TikTok.

Foi graças também aos tiktokers que Conectadas (Seguinte), de Clara Alves, de 28 anos, se salvou de passar batido entre os lançamentos pré-pandemia. Assim como Elayne, a escritora e jornalista carioca começou publicando seus textos em redes sociais e no Wattpad até que a vontade de ter um livro físico levou Clara a investir num trabalho independente. “Ficou supercaro para fazer e não vendeu nada”, diz ela. “Por isso, decidi buscar uma agência literária, a Increase, que foi quem apresentou Conectadas à Seguinte, que o lançou em 2019.”

Acostumada com a repercussão das redes, Clara sofreu um baque quando descobriu que seu romance protagonizado por uma personagem lésbica e outra bissexual não tinha emplacado. “Em março de 2020, bem no início da pandemia, o registro era de -35% de vendas. A primeira tiragem ainda não tinha esgotado, e eu me assustei. Eu não entendia como, finalmente estando numa grande editora, eu não chegava ao meu público. Foi quando comecei a fazer várias ações para ajudar o livro”, lembra ela.

Atentos aos novos leitores, autores do ‘mainstream’ incorporam novas questões a suas narrativas

Clara traçou uma estratégia considerando que adolescentes dependiam dos pais e, numa crise sanitária, cultura e lazer não eram prioridade. “Além disso, muitos vivem em famílias homofóbicas, que não comprariam o livro”, acredita. Clara publicou um post no Twitter, dizendo que doaria cinco edições por mês de Conectadas para quem tivesse interesse em ler, mas não podia comprar. “Muita gente me procurou querendo fazer doações também. Dos duzentos livros doados, comprei somente quinze. Os outros todos foram oferecidos por outras pessoas, e isso causou uma grande repercussão”, descreve.

Clara tentou, ainda, reproduzir o “clima” dos encontros literários, assinando cartões personalizados, encartados em edições da obra à venda na loja da edição digital da Flipop na Amazon, em julho de 2020. Por fim, no aniversário de um ano de publicação de Conectadas, o e-book foi disponibilizado por R$ 1,99, o que levou o livro às listas de mais vendidos da Amazon e da revista Veja. Com o título circulando, faltava só viralizar no TikTok. Quando isso aconteceu, Clara bateu as 50 mil cópias, chegando a 100 mil em maio deste ano. “Uma das vantagens do TikTok é que fura uma bolha que outras redes sociais não conseguem. Meu livro se espalhou no BookTok por causa dos leitores”, diz Clara.

Do virtual ao físico foi um pulo: com o sucesso no BookTok, Conectadas saiu do fundo das prateleiras para as estantes de “mais vendidos do TikTok” nas livrarias, ao lado de outros best-sellers young adult LGBTQIAP+. Entre eles, sucessos mundiais como Heartstopper (Seguinte), da britânica Alice Oseman, hq que ganhou adaptação em série da Netflix; e Vermelho, branco e sangue azul (Seguinte), romance da norte-americana Casey McQuiston, autora que participou da Flipop em setembro passado — ambas recordistas em venda no Brasil.

Sem tabu

Para além do hype das redes e do barulho da “Bienal do Crivella”, o perfil da geração z seria o verdadeiro segredo do sucesso dos livros young adult LGBTQIAP+. “Os jovens de agora são mais abertos. Ser gay, lésbica, bi, pan, trans não é uma questão. Os adolescentes estão preocupados com outras discussões, como a binariedade do gênero. Isso, claro, influencia no sucesso dessa literatura”, acredita Nathália Dimambro, editora e responsável por aquisições de novos títulos da Seguinte, divisão jovem da Companhia das Letras.

Para agradar a todes, ainda que histórias de amor como Quinze dias (Globo Alt), de Vitor Martins, ou Enquanto eu não te encontro (Seguinte), de Pedro Rhuas, continuem entre as preferidas do público, editoras e selos independentes como o Se Liga Editorial apostam em diversidade temática, com protagonistas LGBTQIAP+ aparecendo, por exemplo, como vilões.

Mudança de foco

“Há muitas discussões sobre se os personagens precisam ser certinhos ou se podem entrar numa área mais cinzenta”, diz Felipe Cabral. Ele vê a mudança de foco de alguns autores como natural. Como muitos deles são jovens, estão vivendo também o processo de “complexificar” a escrita e suas histórias. “O mercado independente e as plataformas on-line como Wattpad estão à frente de muitos debates, com pessoas escrevendo distopias, ficção científica, histórias de zumbis ou com protagonismo trans e de pcds. Nas grandes editoras, há ainda muitos romances sobre o primeiro amor, ambiente escolar e conflitos familiares”, conta Cabral.

O livro que retrata o herói da ‘Ilíada’ como gay alcançou 1 milhão de exemplares vendidos

Dos independentes, o selo Se Liga Editorial está na vanguarda de lançamentos e temáticas, com um catálogo que inclui obras como Vozes trans, coletânea ilustrada, escrita e produzida por pessoas trans, e Manda foto de agora, romance sáfico erótico de Koda G., entre outros. Criadora do selo fundado em 2018, a escritora Thati Machado, autora do romance sáfico A grande chance de Ana Luna, defende que os indies abriram as portas do mercado aos autores. “O trabalho desenvolvido nas grandes empresas vinha sendo feito pelos independentes havia muito mais tempo”, diz Thati. “As grandes empresas têm publicado histórias fofas e felizes no segmento LGBTQIAP+, enquanto nós, que fizemos bastante isso, temos ficção científica com viagem no tempo, mistério com sobrenatural, narrativas com extraterrestres. Meu livro [A grande chance de Ana Luna] tem mais de 400 mil páginas lidas na Amazon.”

Atentos ao gosto da nova geração de leitores, autores do mainstream como Thalita Rebouças incorporam novas questões e personagens a suas narrativas. Estrela da literatura jovem no país com mais de 2,3 milhões de exemplares vendidos de seus mais de vinte livros (adaptados para séries e filmes), a carioca publicou neste ano duas obras com temática LGBTQIAP+.

Com prefácio do cantor Lulu Santos, Confissões de um garoto talentoso, purpurinado e (intimamente) discriminado, publicado pela editora Arqueiro, narra as aventuras de Zeca, um rapaz que ensina tutoriais de maquiagem na internet e tem de lidar com o pai homofóbico. “Quando lancei a série Confissões, queria tratar de temas como suicídio, bullying, autoconhecimento, automutilação, preconceito de uma forma mais profunda do que nos livros anteriores, mas mantendo a leveza. Zeca era o personagem mais esperado pelos leitores, e eu queria surpreender com esse gay fora do armário. Foi muito difícil colocar as falas na boca do pai, sendo Zeca tão querido”, diz Thalita.

Um mês depois, em agosto passado, Thalita lançou Natali e sua vontade idiota de agradar todo mundo (Rocco), sobre uma adolescente que escolhe o dia de seu aniversário de quinze anos, em 25 de dezembro, noite de Natal, para revelar à família que gosta de garotas. “Após finalizar o Zeca, me dei conta de que já tinha criado dois personagens gays e nenhuma lésbica, mas meu público é formado em sua maioria por meninas. Então, sentei para escrever e veio toda a história de Natali”, conta a autora.

Thalita acredita que os títulos “furam uma bolha” e podem ajudar a tornar o tema mais “aceitável” aos pais, pois muitos deles também leram seus livros quando adolescentes. “Num dos lançamentos de Confissões de um garoto talentoso, um rapaz me disse que seu pai viu a capa, com um menino todo cheio de batom e maquiagem, e não quis comprar. Mas, quando ele leu meu nome, deixou o filho levar. Eu quero escrever justamente para quem não é lgbt. Quero promover o diálogo entre filhos e pais homofóbicos.”

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Adriana Ferreira Silva

Jornalista, escritora e palestrante, trata de temas como desigualdade de gênero e liderança feminina.

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.