Fichamento,

Flora Thomson-DeVeaux

A tradutora de Machado de Assis comenta sobre os ilusionismos do Bruxo do Cosme Velho

01jul2020 - 01h00 | Edição #35 jul.2020

Ao traduzir para o inglês Memórias póstumas de Brás Cubas, da Penguin Classics, a norte-americana Flora Thomson-DeVeaux não esperava que o livro se esgotasse nos primeiros dias depois do seu lançamento. 

Na introdução da obra, você comenta que Machado é um ilusionista. Qual é o maior truque que ele faz?

O truque mais bem executado é em Dom Casmurro, já que levou algumas décadas até que os leitores começassem a desconfiar não da Capitu, mas do Bento. Os exemplos são muitos. Machado é um ilusionista que nunca levanta a cortina com um grande gesto. Ele constrói armadilhas para o leitor o tempo todo, mas não faz questão de nos avisar quando caímos nelas; deve estar rindo da gente lá do além. 

Nos EUA, o livro é categorizado como realismo mágico. O que acha dessa definição?

O livro foi definido assim na Amazon por uma mistura de ignorância e bizarrice algorítmica. Não sei como funciona, mas o livro também está classificado como uma coletânea de contos. O fato é que já que a literatura latino-americana se popularizou nos EUA a partir dos anos 1960, com o boom do realismo mágico, esse espectro ainda ronda a categoria como um todo.

Durante o processo de tradução, você teve conversas imaginárias com Machado?

O mais próximo que cheguei de ter uma conversa foi o momento em que senti que estava consultando exatamente o mesmo verbete de dicionário que ele tinha consultado para escrever uma frase do romance. Deu um frisson do mesmo jeito. 

Tem planos de traduzir algum outro livro do português para o inglês?

Há mais de um ano, venho comendo pelas beiradas O turista aprendiz, de Mário de Andrade, num trabalho a seis mãos com Pedro Meira Monteiro e André Botelho. O texto, que descreve as peregrinações amazônicas do autor, se tornou infelizmente mais relevante com a recente devastação da região — e estou sofrendo e curtindo a experiência de fazer uma primeira tradução. Tenho a cabeça um pouco “monogâmica” enquanto trabalho nesses projetos literários, então tenho dificuldade de olhar para outras obras daquele jeito.

O livro esgotou no site da Amazon dias depois do lançamento, em meio a protestos contra violência racial nos eua. O sucesso comercial tem a ver com Machado ser um autor negro?

Isso só aconteceu porque subestimamos o tamanho do interesse que o público teria. Em meio a uma pandemia, com os dois países principais envolvidos pegando fogo pelos motivos mais terríveis, cheguei a temer que a ironia sutil do romance pudesse ficar abafada. Ainda não consigo explicar o fenômeno direito — precisamos ver como essa nova tradução vai ser lida, em quais chaves, com quais referências, para entender o que levou as pessoas a olharem para o Brás Cubas. 

Serão agora a hora e a vez de Machado de Assis?

Como se ser botafoguense já não bastasse para imprimir um ceticismo saudável na minha visão do mundo, ter estudado o último século da recepção da obra machadiana no mundo anglófono também me faz hesitar antes de dizer que sim. O que vimos ao longo dos anos foram pequenas ondas machadianas que se esgotaram sem criar um grande público, mas não sem conquistar alguns grandes leitores em língua inglesa. Numa entrevista dos anos 1970, William Grossman, o primeiro tradutor de Memórias póstumas de Brás Cubas para o inglês, chegou a sugerir que os ataques frontais de Machado à hipocrisia poderiam ser um remédio benéfico para a sociedade norte-americana, se ela estivesse disposta a engoli-lo. A ver.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #35 jul.2020 em maio de 2020.