Editora 451,

Otavio Frias Filho, editor de cultura

Jornalista que trabalhou por mais de vinte anos nos cadernos culturais da Folha de S.Paulo lembra sua relação com diretor de Redação

23out2018 - 11h42 | Edição #16 out.2018

Em junho de 1988, encontrei-me pela primeira vez, cara a cara, com Otavio Frias Filho, meu patrão. Recém-chegado à Folha de S.Paulo, eu estava empregado como redator da “Ilustrada” havia dois meses. O trabalho exaustivo, tenso e corrido consumia a maior parte da minha energia e das horas ativas do dia, mas esse era o preço a pagar pela chance de poder participar daquela empreitada jornalística tão inovadora e criativa, feita com tanta liberdade.  

Liberdade talvez seja um termo vago, mas é a palavra que eu tinha na época e que encontro agora para expressar o sentimento predominante em mim e, creio, em meus colegas. Os tempos horrorosos da ditadura militar estavam ficando para trás, a Assembleia Nacional Constituinte discutia em Brasília a nova Carta Magna e a Folha representava para a minha geração a força decisiva na imprensa capaz de conduzir o Brasil até a democracia.

Apesar do poder que havia adquirido junto à opinião pública desde a campanha das Diretas, a Folha ainda era um lugar materialmente precário, onde faltavam cadeiras e os computadores “paraguaios”, como se dizia, pifavam na hora h. Repleta de jovens, a Redação era movida a gritos, as pessoas tinham ataques nervosos na hora do fechamento e por vezes um mal-estar se espalhava, por causa de exigências absurdas ou do destempero de algum chefe.

Nada disso, porém, reduzia o entusiasmo, quando não a euforia, dos jornalistas — o subdesenvolvimento ainda era uma fonte de energia e cada um tinha, ali, a pretensão de conquistar o leitor para um mundo diferente, em que os brasileiros seriam politicamente livres, cosmopolitas e audaciosos o bastante para melhorar o país que tinham herdado. 

É certo que éramos, muitos, anarquistas, socialistas, comunistas, igualitaristas de todos os tipos, vagando entre as sobras das revoluções e rebeliões — desde a de 1917 até a de 1968. Mas, ao entrar na Folha, nossas fantasias revolucionárias eram pouco a pouco domadas pelos princípios de Frias Filho, que, acredito, formavam este tripé: liberdade política, liberalismo econômico e desregulamentação da moral.

Tripé cujo eixo só podia ser uma imprensa livre, independente e apartidária, impulsionada por certo “espírito de porco”. E se manifestava na polêmica, na irreverência, na surpresa e na coragem de dizer o que não se dizia, o que ainda não havia sido dito.

A caneta vermelha

Eu esperava encontrar um sujeito intempestivo e irritadiço, como costumavam descrevê-lo na Redação. Mas ao entrar na sala de Frias Filho, deparei-me com alguém de aparência mais jovial do que a minha (embora eu soubesse ser ele um pouco mais velho), que falava com voz baixa, media cada movimento, cada palavra, e cujo semblante dosava em sutil teatralidade tensão, impaciência, curiosidade e necessidade de comando.

Não foi isso, contudo, o que mais me chamou a atenção naquele primeiro encontro, mas sim a meticulosidade de Frias Filho. Entreguei-lhe a página da “Ilustrada” a ser impressa para que ele conferisse o artigo que escrevera, enquanto eu era convidado a me sentar diante de sua mesa, sobre a qual havia uma agenda, uma lata de Coca-Cola, um copo, um cinzeiro, um maço de cigarros Hollywood, uma pilha de laudas em branco e uma máquina de escrever. Sem paletó, mas de gravata, ele carregava no bolso da camisa social branca, à maneira de um comerciário, duas prosaicas canetas Bic: uma azul, outra vermelha — o que me levou a esconder a minha presunçosa caneta Aurora folheada a ouro, adquirida na Itália.

Embora tivesse grande interesse pela política, percebia-se que a cultura era a sua paixão 

Eu dizia: a meticulosidade. Frias Filho apanhou a página e começou a ler o seu artigo lentamente, mesmo sabendo que tínhamos pressa. Tendo finalizado a leitura, passou a conferir os outros textos da mesma página, mais rapidamente. Ao perceber um erro, assinalou à margem a correção a ser feita. Eu enrubesci, pois achava que não havia erro nenhum. Por fim, voltou ao seu texto e decidiu trocar uma palavra, que também escreveu na margem da página, puxando uma seta. Perguntou o que eu achava da troca. Desajeitado e um pouco afobado, respondi que ficava melhor. Também quis saber quem dera o título. “Fui eu”, respondi. Ele disse que ficara bom e agradeceu. Voltei à Redação, impressionado com a polidez de meu patrão, com sua formalidade e o seu cuidado. Fiz as trocas e encaminhei a página para o fechamento.

Ela estava prestes a ser enviada para a gráfica quando a editora Marion Strecker me chamou. Frias Filho tinha ligado, pedindo uma nova troca em seu artigo, agora no título. “Precisamos mudar”, ela disse. O que fiz, é claro, acabrunhado por descobrir que, afinal, o título que eu dera não era tão bom quanto o que ele criara no último minuto.

O editor de cultura

Embora Frias Filho, naturalmente, tivesse grande interesse pela política, percebia-se que a cultura era a sua paixão, cultivada de maneira discreta — talvez a fim de não se desviar, no dia a dia do jornal, dos assuntos mais candentes da vida pública. E é deste aspecto, do editor de cultura que ele afinal também era, que cuido aqui. 

Depois disso, passei a receber de tempos em tempos, as páginas de críticas de filmes em vhs que eu editava, marcadas com observações dele, feitas à margem com a tal Bic vermelha (ou, às vezes, com uma Futura da mesma cor). Eu me sentia um estudante que recebia a prova corrigida pelo professor, embora sem a nota. Ele apontava erros, criticava passagens (“prolixo”, “falta lide”), os articulistas selecionados (“hermético”, “confuso”) e, para minha alegria, de vez em quando assinalava: “Bom” ou “Boa pauta”. Muito raramente cravava um “Ótimo”. Eu me perguntava onde ele arranjava tempo para, além de dirigir o jornal e escrever peças, ler a página de vídeos.

Essa técnica de comentários — que se estendia a outras áreas do jornal — perdurou nos anos seguintes, quando me tornei editor do “Letras”, caderno de resenhas que ele costumava, a julgar pelas observações que enviava, ler quase inteiro, e, depois, quando passei a editar a “Ilustrada”. Ele tinha uma particular obsessão com as sinopses de filmes publicadas no roteiro de cinema, que sempre achava pedestres e para as quais cobrava, sem cessar, melhorias. 

Não era apenas para a qualidade da pauta e a excelência das ideias e da escrita que Frias Filho atentava, mas também para “detalhes”, como a precisão informativa das sinopses, a correção das fichas técnicas dos produtos culturais e a exata grafia dos nomes. Quantas vezes ele me ligou irritado porque alguém escrevera outra vez o nome de Antonio Candido com acento circunflexo! (Não evito terminar a frase com uma exclamação, o que ele costumava achar ridículo.)

Um belo dia, as páginas corrigidas por ele pararam de chegar. Em vez disso, Frias Filho começou a me chamar esporadicamente em sua sala. Após alguma conversa solta, sacava da pasta de cor rosada em que eram reunidos seus documentos um grupo de páginas arrancadas do caderno que eu editava agora, o “Mais!” (a história dessa exclamação mereceria outro artigo). Apontava-me a série de problemas que tinha visto e costumava entremear os comentários sobre a edição com perguntas a respeito do establishment cultural, observações sobre a prática jornalística e questões da atualidade. 

Era tanto o cuidado que dispensava ao “Mais!”, que ele se tornou para mim e toda a equipe o leitor nº 1 do caderno. Suas exigências mesclaram-se às nossas, a edição que eu imaginava com meus colegas de trabalho dialogava com as preocupações que ele tinha, ora a fim de satisfazê-las, ora a fim de contrariá-las, pois, confesso, passei a fazer de certa provocação um meio de encontrar a própria autonomia intelectual do caderno.

Obviamente, ele sabia disso e, longe de me cercear, parecia incentivar esses gestos de desafio, mesmo que, às vezes, eles irritassem um bom número de leitores. 

Um desses momentos delicados do “Mais!” foi quando publicamos uma antologia de poemas inéditos dedicados à vagina. Para a capa, o título surgiu de imediato: “Ela”. E para ilustrá-la me veio à mente a tela “A Origem do Mundo”, de Courbet, que na época não tinha ainda sido vítima da banalização que a atingiria mais tarde. O quadro retrata as pernas abertas de uma mulher nua, tendo a vagina, justamente, em close. A pauta havia sido aprovada, mas não a capa. Levei para ele duas opções, uma com a pintura de Courbet ocupando todo o espaço, outra mais discreta, com a imagem em cerca de meia página. “Temos uma terceira opção?”, ele perguntou. “Não pensei em outra opção”, eu disse. Foi impressa a capa de meia página.

Na segunda-feira, dia seguinte à publicação, fui chamado à sua sala. Eu sabia do escândalo que aquilo provocara, por causa dos faxes e telefonemas que o jornal tinha recebido. Ele me disse: “Você sabe que foram canceladas 46 assinaturas do jornal desde ontem por causa do ‘Mais!’?” Disso eu não sabia. “É peanuts, vamos em frente, mas é bom estarmos cientes de que temos um leitorado conservador.” Era sua persona de diretor de Redação falando, mas não havia como não ver detrás de seus óculos de míope o outro personagem, o editor, satisfeito com a polêmica causada, apesar das amolações. 

O leitor conservador, penso, sempre esteve entre as preocupações de Frias Filho, mas um pouco menos naquela época, final dos anos 1990. Com o passar dos anos, ele foi deixando que a “Ilustrada” e o “Mais!” seguissem como espaços do inconformismo juvenil, da esquerda intelectual, dos debates universitários e do que havia de experimentação artística naquele epílogo do século 20, enquanto o hardware da Folha ia adquirindo um tom diverso, mais convencional. 

Objetividade e clareza

Frias Filho se interessava menos por música, poesia e artes visuais do que pela prosa literária, pelo cinema e o teatro, sobretudo quando pressentia haver em alguma obra uma dimensão social e psicológica maior ou inédita, reveladora. Nas peças, tolerava experimentações que não lhe agradavam quase nunca na literatura e menos ainda nos filmes, o que atribuo ao seu gosto mais acentuado pela especulação filosófica e pelas análises históricas, sociológicas e psicológicas do que pelas experiências formais da arte.

A cultura, para ele, não era um mundo à parte do sistema econômico. Um filme, um livro, uma música, mesmo os que tivessem conteúdos dos mais transgressores, não deixavam nunca de participar do circuito de mercadorias no capitalismo, como produtos da chamada indústria cultural. Era uma visão fortemente anti-idealista, que ele, como diretor de Redação, tentou tornar uma ideia-mestra no jornal, e em grande parte conseguiu. Como intelectual, entretanto, menosprezava o mero entretenimento, embora se divertisse ao descobrir que um filme blockbuster revelava, talvez involuntariamente, certo sintoma social do momento. 

Tinha grande interesse pela produção intelectual anglo-saxã, sobretudo norte-americana, e por seu modelo de pesquisa e escrita. Várias vezes me mostrou trechos de livros importados dos eua que estava lendo, admirado com a profundidade da investigação empreendida pelo autor e, mais ainda, com a objetividade e a clareza da exposição. Ele julgava possível que mesmo a reflexão filosófica mais complexa pudesse ser exposta de maneira metódica e límpida, acessível a qualquer leitor bem formado. 

Reclamava, por isso, de certos pensadores franceses, italianos, alemães e mesmo brasileiros que eram publicados no “Mais!”, dizendo, de maneira sumária e com alguma ironia: “Não sou capaz de entender, mas se você entendeu e acha bom, vamos em frente”. 

Sua relação com a universidade brasileira era controversa. Como prezava o estudo, o método e a especialização (ou o conhecimento fundado em sólida pesquisa), sempre pedia que recorrêssemos a quem entendia profundamente do tema a ser tratado, e que evitássemos as especulações toscas ou elucubrações improvisadas. “É o maior especialista no assunto na academia?”, perguntava. Não escondia o orgulho ao ver publicado nas páginas do “Mais!” um conjunto de textos de gente do primeiro time da universidade.

Como intelectual, menosprezava o mero entretenimento, embora se divertisse ao descobrir que um filme blockbuster revelava certo sintoma social do momento

Por outro lado, embirrava frequentemente com o que chamava de “feudo” universitário, que ele julgava às vezes estar interessado apenas na autopreservação corporativa. Em dada época, passou a achar que as universidades, inclusive a usp, tinham perdido o bonde da história, se descolado da nova realidade (agora: científico-tecnológica, pós-marxista e com clara dominância da cultura norte-americana), particularmente as ciências humanas. Julgava que a universidade vivia emaranhada no legado de grandes professores do passado, incapaz de produzir pensadores originais e independentes.

Em várias entrevistas, Frias Filho disse que, caso não tivesse se tornado diretor de jornal, teria sido professor universitário. Penso que essa aspiração pedagógica foi, de certa forma, transferida para o jornal. Ele gostava do termo “didático”, com o qual sintetizava o seu projeto de transmissão clara das ideias e dos fatos, em linguagem corrente. Tinha largo desprezo pela linguagem tortuosa de alguns críticos e ensaístas.

Acompanhei a sua batalha contra certo modelo de crítica que abusava de conceitos obscuros e pressupunha um leitor previamente informado sobre o tema, ou seja, um leitor (quase) tão especializado quanto o próprio crítico. Ele desejava que as críticas da Folha se dirigissem aos leitores em geral e fossem capazes não apenas de avaliar a relevância (ou não) da obra, mas de informar sobre o conteúdo, a importância do autor e a inserção histórica do trabalho.

Ele queria que a Folha fosse um meio de esclarecimento para o leitor, porém detestava que usassem o jornal como veículo de doutrinação. Exigia dos jornalistas que a atitude crítica estivesse constantemente em alerta, a fim de contestar os poderes solidificados, fossem os da política e da economia, fossem os da cultura e da mídia. Às vezes, exigia até mais dureza nos comentários, julgando-os ainda frouxos. Eis por que não menosprezava as críticas feitas ao seu próprio jornal e admirava os profissionais capazes de uma severa autocrítica.

“Didatismo”, “didatismo”, ele repetiu durante anos, para mim e para muitos na Folha. Era um de seus “dogmas”, com alguns outros: ineditismo (furo ou reportagem exclusiva), equilíbrio (o “outro lado” dos fatos e das opiniões), correção e precisão. 

Frequentemente, Frias Filho sugeria pautas, algumas extraordinárias e nenhuma nascida do improviso. Percebia-se que, antes, ele as tinha maturado com cuidado e estava inteiramente seguro de sua pertinência. Gostava, entretanto, de dar a impressão de que eram apenas sugestões despretensiosas. O editor arregalava os olhos, surpreendido pela proposta, e ele perguntava: “Você acha que vale a pena?”.

Com menos frequência, propunha a publicação de algum artigo seu, o que, para um editor de cultura, era um presente, dada a excelência de seus textos. Expunha o conteúdo como se já o tivesse escrito em sua mente e, então, recorria ao mesmo ritual anterior, perguntando: “Você acha mesmo que vale a pena? Seja sincero”.

Em um relato como esse que faço agora, e que se limita a falar um pouco da relação de Frias Filho com o jornalismo cultural (deixo para outra oportunidade seu diligente trabalho de “editor” de livros no selo Três Estrelas, do Grupo Folha), corre-se sempre o risco de fazer pipocar uma série de reminiscências e impressões, sem que se consiga criar um nexo muito esclarecedor entre elas. Algo sempre escapa, tanto mais quando se trata de uma personalidade tão excepcional quanto a dele. É como subir uma cadeia de montanhas sem nunca chegar na mais alta. 

Mas o que tenho a oferecer é apenas esse passeio no chão raso da Redação, essas fagulhas da memória de uma longa convivência profissional com alguém que eu admirava e que, toda vez que eu entrava em sua sala, sempre se levantava da cadeira, estendia a mão para um cumprimento e, polido e fraternal, dizia: “Caro Alcino”.

E eu respondia: “Caro Otavio”.   

Quem escreveu esse texto

Alcino Leite Neto

Jornalista, é editor da revista Piauí.

Matéria publicada na edição impressa #16 out.2018 em outubro de 2018.