As Cidades e As Coisas,

Mobilidade urbana e mudanças climáticas

O questionamento aos combustíveis fósseis deve ser encarado como uma oportunidade para rever as políticas públicas de estruturação dos centros urbanos

14nov2023 - 11h35 | Edição #75

As mudanças climáticas deixaram de ser um horizonte abstrato e passaram a ocupar nossas preocupações mais cotidianas. Políticas para reconhecer, mensurar e combater os efeitos das transformações agudas do clima estão na pauta do dia. A mobilidade urbana é um importante vetor de produção de poluentes e se destacam tecnologias que buscam reduzir as emissões dos transportes.

No Brasil, este setor é o terceiro que mais polui, sendo responsável por 14% do total das emissões equivalentes ao CO2. A poluição do ar em áreas urbanas é crítica. Provoca problemas de saúde para seus habitantes, doenças respiratórias graves e estimados 50 mil mortos por ano. Neste sentido, veículos elétricos são apresentados como uma oportunidade para a redução desses números.

O Brasil tem uma matriz energética considerada limpa, com 87% de sua produção vinda de fontes renováveis em 2022, o que garante que a eletricidade utilizada por veículos seja livre de emissões. Além disso, o uso de biocombustíveis é relevante e resulta em viagens de baixas emissões, dado que as plantas utilizadas em sua produção absorvem CO2 enquanto se desenvolvem. A adoção de veículos elétricos, entretanto, esbarra nos altos preços. Mesmo que os custos venham caindo, o carro elétrico mais barato ainda é o dobro da opção mais em conta de um automóvel a combustão, limitando o acesso a poucos consumidores.

A principal alternativa para baratear os elétricos é o fortalecimento da indústria local. Parte da montagem de alguns carros elétricos já é feita aqui e há uma expectativa de crescimento. Ainda que com investimento inicial mais alto, os elétricos resultam numa redução dos custos de uso e manutenção. Assim, veículos que rodam por mais tempo justificam o aporte inicial mais facilmente, o que explica a eletrificação começar por veículos de carga, táxis ou transporte público. Algumas estimativas apontam que ônibus elétricos, ainda que de duas a quatro vezes mais caros, podem se tornar mais baratos que os movidos a diesel já no primeiro ano de uso.

A eletrificação não muda o status quo da mobilidade, em que os mais pobres morrem mais nas ruas

No entanto, com frota montada, estrutura de operação estabelecida e mercado de segunda mão já encaminhado, é difícil convencer o atual empresariado do setor de ônibus a adotar a alteração em larga escala. Algumas experiências, inovando nos papéis entre poder público e empresas, têm apontado para o desmembramento das licitações como uma saída para viabilizar veículos elétricos. É o caso da Linha Verde de São José dos Campos (SP), em que a prefeitura assumiu a compra dos veículos e licitou separadamente operação, controle e bilhetagem, reduzindo os custos das empresas envolvidas.

Dentre os esforços governamentais para ampliação da frota de veículos elétricos no país, as principais ações são incentivos fiscais, como isenção ou alíquota reduzida de impostos sobre a importação. Por um lado, associações e empresas consideram este tipo de incentivo benéfico, pois ajuda a ampliar o mercado consumidor nacional. Por outro, promover a importação pode ser desestimulante para o desenvolvimento da indústria nacional.

Neste sentido, a BYD, maior fabricante chinesa de automóveis, anunciou que irá começar a produzir baterias no Brasil. Será a primeira fábrica do país a fabricar o veículo elétrico em sua integridade, incluindo as baterias. O lítio, insumo necessário para isso, deve vir do Chile, onde a empresa explora o minério.

Embora possa parecer animador, é importante lembrar que o otimismo em relação aos veículos elétricos não é unânime. Existem diversas controvérsias em relação ao seu aspecto de “zero emissão”. Alguns especialistas apontam que o processo de extração das matérias-primas para a produção das baterias resulta em extensas áreas de desmatamento, utiliza energia suja (em especial termoelétrica) para funcionar e impacta negativamente as comunidades do entorno das fábricas com os detritos e rejeitos liberados no processo. É importante lembrar que o descarte das baterias, apesar de já ter soluções mapeadas, ainda é um problema não resolvido, uma vez que não existe mercado consolidado para absorvê-las depois que deixam de ser utilizadas nos veículos. Ou seja, a poluição evitada na cidade pela combustão do motor tem um lastro de impacto socioambiental, ainda pouco mensurado, que não pode ser esquecido quando abordamos este modo de transporte.

Congestionamento verde

Além de dúvidas em relação às emissões evitadas, a eletrificação também não resolve problemas do uso intensivo de automóvel nas cidades. Um congestionamento verde é ainda assim um congestionamento, resultando em atrasos e impactos negativos na saúde mental dos cidadãos. Impacta negativamente ainda a economia urbana, seja por afetar a produção dos trabalhadores, seja pelo uso do recurso público no atendimento de pessoas com aumento de estresse e ansiedade. A eletrificação tampouco ajuda nas questões relacionadas à segurança viária — ocorrências de trânsito estão entre as principais causas de morte dos brasileiros.

Embora essencial para a redução das emissões, a eletrificação veicular não apresenta ganhos diretos em relação ao tempo de viagem. A tecnologia utilizada nos motores não muda o status quo da mobilidade, em que os mais pobres levam mais tempo para se deslocar que os mais ricos e morrem mais nas ruas das cidades. O veículo elétrico também não soluciona a questão da desigualdade espacial: automóveis particulares ocupam, em média, 80% do espaço viário, carregando apenas cerca de 20% dos passageiros. O questionamento aos combustíveis fósseis deve ser encarado como uma oportunidade para rever as políticas públicas de estruturação das nossas cidades, para que sejam mais seguras, limpas e democráticas.

Longe de colocar em dúvida a relevância da descarbonização, é importante refletir sobre o modo como ela vem sendo conduzida. A eletrificação é, sim, uma boa solução mas não resolve todos os problemas associados ao transporte. A questão é ampla e requer medidas que busquem o adensamento das cidades, o investimento em transporte público, a promoção do transporte ativo e novas fontes de energia renovável.

Quem escreveu esse texto

Victor Callil

Matheus Barboza

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.