A Feira do Livro,

Um grande dia em São Paulo

As escritoras Giovana Madalosso, Natalia Timerman e Paula Carvalho, que organizaram o chamado para a foto, contam suas impressões desse dia histórico

27jun2022 - 16h44 | Edição #59

Em 1958, todos os jazzistas que tocavam em Nova York foram chamados para integrar uma foto, feita por Art Kane, no Harlem, que deu origem a um registro histórico: “Um grande dia no Harlem”. No mês de junho de 2022, em um chamado público e aberto, A Feira do Livro convidou todas as escritoras para fazer parte de “Um grande dia em São Paulo”. O registro aconteceu no domingo, 12 de junho, às 11h, no Estádio do Pacaembu, sob as lentes da fotógrafa Mariana Vieira Elek, com assistência de Daniela Ribeiro. As mais de quatrocentas mulheres foram clicadas na arquibancada do local historicamente ligado ao gênero masculino empunhando suas obras. A seguir, as escritoras Giovana Madalosso, Natalia Timerman e Paula Carvalho (editora da Quatro Cinco Um), que organizaram o chamado para a foto, contam suas impressões desse dia histórico.

Por trás do 12 de junho

Giovana Madalosso

Às vezes não acredito na rapidez com que tudo aconteceu. Em 12 de maio, exatamente um mês antes de serem feitas as fotos das escritoras, essa ideia nem sequer existia. Por esses dias eu andava procurando uma referência para fazer uma foto de família, quando um amigo me apresentou “Um grande dia no Harlem”. Ao olhar para o retrato histórico de uma geração do jazz, não enxerguei família alguma: só vi mulheres.

Nunca tantas mulheres publicaram no Brasil e pensei que este momento histórico também era digno de registro. Procurei a Paula Carvalho, a Natalia Timerman e o Paulo Werneck, que sugeriu fazermos a foto em São Paulo, durante A Feira do Livro, dentro de vinte dias. Ainda que meus parceiros estivessem entusiasmados, entrei em pânico: como fazer o chamado chegar a tantas mulheres, negras, indígenas e periféricas, em tão pouco tempo? Achando que não teríamos abrangência, cheguei a desistir. Foram eles que me deram coragem.

Para minha surpresa, em menos de duas semanas, 31 cidades aderiram à proposta espontaneamente. Em São Paulo, não fazíamos ideia de quantas escritoras viriam. No dia da foto, ao sair de casa, resolvi catar um megafone que usamos nos panelaços. Ainda bem. Logo depois eu olhava perplexa para quatrocentas escritoras sentadas na escadaria à minha frente e imaginava outras centenas em cidades por aí. Foi um dos momentos mais bonitos da minha vida, e também um dos mais reveladores. Sempre nos disseram que mulheres eram menos publicadas porque escreviam menos, mas a verdade é que, apesar da divisão desigual de tarefas domésticas, sempre demos um jeito de escrever, e a prova estava naquele retrato arrebatador e nas vozes que ecoavam de Pelotas a Londres, de Vitória a Manaus. 

Mariam Pessah batizou a data de “O dia em que as gavetas estouraram”. Esse movimento não é de hoje e ainda tem muito que avançar, mas como foi bonito ver tantos livros e manuscritos empunhados ao vento.

Sair da gaveta e do armário

Natalia Timerman

Uma das primeiras questões que se colocaram para nós depois da ideia da foto coletiva de escritoras, de um recorte que representasse parte do cenário brasileiro atual, foi: o que é ser uma escritora? Como se delimita isso, como se define? 

Começamos pensando no mais óbvio: em livros. Mulheres que tenham publicado ao menos um livro ao longo da vida. Mas a publicação de um livro, ainda que possa ser considerada uma espécie de consolidação, nos pareceu uma definição tão excludente quanto insuficiente: e as mulheres que publicaram contos, poemas, ensaios, capítulos, teses, dissertações? E as slammers? E as escritoras de veículos digitais, de blogs, de redes sociais? E as que ainda não publicaram nada, que guardam originais, cadernos, esboços, começos vários em gavetas repletas, não seriam essas também escritoras? Não estariam ainda escondidas por não se autorizarem a publicar ou por não encontrar espaço? Quando se pode, enfim, dizer: sou escritora?

Não se trata de uma designação simples e objetiva, percebi, mas carregada de inseguranças, recalques e silenciamentos. A dificuldade maior parece ser não a de escrever, mas a de se estabelecer intimamente no lugar de alguém que escreve; assumir não só a própria voz, mas o mero fato de a dizer, num mundo e numa história em que às mulheres sempre coube a vez de calar.

Quando, na manhã ensolarada de domingo, se acresciam umas às outras as escritoras no Pacaembu, o que mais se ouvia eram hesitações. “Eu não sabia se vinha, mas vim”, surpresas com o próprio gesto, com a assunção de si mesmas diante das outras. Umas dando realidade às outras. Talvez tenha sido essa a grande força daquele momento. É preciso testemunhas e sucessoras para abrir caminhos, diz Hélène Cixous. Ali estávamos nós, habitando o que havia pouco era um deserto, num movimento que se espalhou, anunciando que somos muitas, que podemos estar juntas e que o futuro — o futuro já começou.

O medo era de a foto ficar vazia

Paula Carvalho

E pensar que, no início, a gente só não queria que a foto ficasse vazia… O que agora parece um pensamento ingênuo há um mês era um receio bastante real. Os desdobramentos desta foto ainda ganham, na minha lembrança, um aspecto surreal. A forma como várias mulheres de outras cidades no Brasil e no mundo foram se engajando em um curto espaço de tempo para encontrar locais apropriados para esse registro, a adesão de várias mulheres que escrevem, a disponibilidade de fotógrafas e fotógrafos. 

O que era para ser uma foto simbólica virou, na verdade, um movimento, que cresceu de forma espontânea com uma baita rapidez. Viralizou, como dizemos na linguagem da internet.
A partir daí, tivemos que pensar como dar conta da demanda do que nos esperava na manhã do dia 12 de junho. 

Além da Giovana Madalosso, da Natalia Timerman, do Paulo Werneck, diretor de redação desta revista, da fotógrafa Mariana Vieira e da sua assistente Daniela Ribeiro, a foto não teria acontecido sem o trabalho da equipe de mulheres da Quatro Cinco Um (sim, nossa equipe reduzida é dominada por nós), que correu para realizar, ao meu lado, o cadastro das mulheres que chegavam a uma tenda branca erguida especialmente para a ocasião, próxima da escadaria Patrícia Galvão, onde foi realizada a concentração das autoras para a foto. 

Um grupo de WhatsApp foi criado para o cadastro, e logo encheu. Abrimos um novo grupo, enquanto anotávamos os dados das escritoras manualmente. Depois, a fila para entrar no Pacaembu foi se formando, e ela dava voltas e mais voltas. Usei por pouco tempo o megafone que a Giovana tinha levado no dia, mas logo tive que recorrer à minha própria voz para falar com todas as mulheres. “Já fez o cadastro?” foi o meu mantra de domingo.

Estava tão preocupada com que tudo corresse bem que demorei para relaxar e aproveitar o momento. Assim como muitas das mulheres que apareceram nesse dia, tenho uma dificuldade grande para reconhecer a mim mesma pela alcunha de “escritora”. Eu escrevo, sim, sempre escrevi, mas daí me dizer escritora é outro passo. Tanto que no livro que empunhei para a foto, Depois do fim, organizado pela Fabiane Secches para a editora Instante, que contém um ensaio meu, junto a textos de Giovana, Natalia e outros nomes pesados da literatura nacional, pedi à Fabiane que corrigisse a minha minibiografia. Ela gentilmente me descrevia como “escritora e crítica literária”; pedi que substituísse por “jornalista e historiadora”, descrições que me deixam mais confortável.

Como era de esperar, eu perdi a voz de tanto gritar. Demorei para recuperá-la. Mas, quando voltou, com certeza ela retornou mais potente, pois comecei a me reconhecer nesse nome que é “escritora”.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Natalia Timerman

Psiquiatra e escritora, é autora de Copo vazio (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #59 em junho de 2022.