451, Bagagem Literária,
Uma sobrevivente da ditadura argentina rompe o silêncio
Depois de décadas de exílio no Brasil, Ana María Massochi tem sua história contada por Teresa Donato em Desaparecida duas vezes
28out2026Depois de passar anos na clandestinidade, em fuga pelo interior da Argentina, com o filho no colo, Cristina, oficial dos Montoneros, grupo da esquerda peronista, foi capturada em maio de 1978. Presa extraoficialmente pelo Exército e torturada num centro clandestino de detenção, seu destino parecia estar selado, como o de tantos outros companheiros de luta armada: tornar-se uma “desaparecida”.
Assim o sinistro jargão da repressão definia aqueles que eram sequestrados, torturados e ao fim mortos por agentes do Estado. Muitos foram atirados ao mar nos voos da morte, ou enterrados em valas comuns, como provavelmente ocorreu com o marido de Cristina, Jorge, em 1975. Mas com ela o final foi diferente: escapou do horror e contou à escritora Teresa Donato como “desapareceu” duas vezes.
O livro nasceu de um pedido de Carlos, o filho da ex-guerrilheira, cujo verdadeiro nome é Ana María Massochi, para que contasse como tudo aconteceu antes de chegarem a São Paulo, no início dos anos 1980. O pedido resultou em Desaparecida duas vezes, que conta essa história pela primeira vez.
O livro sai no Brasil pela Tinta-da-China Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um), com tradução de Paloma Vidal, no ano em que o golpe de Estado na Argentina, responsável por 30 mil desaparecimentos e inúmeros crimes contra os direitos humanos, completa cinquenta anos.
Um evento de lançamento das memórias acontece no sábado, 14 de novembro, às 18h, na livraria Megafauna do Cultura Artística, no centro de São Paulo. A conversa reúne a autora Teresa Donato, a própria Ana María Massochi e seu filho, o psicanalista Carlos Livieres, em bate-papo mediado pelo escritor e jornalista Humberto Werneck.
A Argentina em convulsão
Estudante na capital da província de Corrientes, Ana María, como tantos jovens da época, se engajava em organizações sociais e políticas de esquerda, com atuação nas periferias. O país vinha de uma sucessão de golpes de Estado, com grupos à esquerda e à direita disputando o legado de Perón, que retornava de um exílio de dezessete anos. Com atentados, assassinatos políticos e o sequestro de jovens por grupos de extrema direita, o país já estava em convulsão antes mesmo do golpe de março de 1976.
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Militante nas Fuerzas Armadas Revolucionarias, Ana María mal sabia manejar uma arma. As FAR se fundiriam ao maior grupo da resistência à ditadura na Argentina, os Montoneros, e assim ela e o marido, Jorge de Livieres, se tornaram oficiais da organização. Ao mesmo tempo, nascia Carlitos, o filho do casal. O livro de Teresa Donato é muito vívido ao retratar o dia a dia de famílias de guerrilheiros: enquanto preparam ações armadas, eles mantêm uma vida normal, como a de qualquer família, com festas, crises, vida sexual intensa e quadros fofos no quarto do bebê.
Viúva e clandestina
Ao participar da mais ousada ação da luta armada argentina, a tomada do Regimiento de Infantería de Formosa, em 5 de outubro de 1975, antes do golpe de Estado, Jorge morreu sob os fuzis dos soldados. Ana María se viu obrigada a deixar a casa onde vivia com o marido e a sair com Carlitos no colo, com documentos falsos, para tentar viver como uma pessoa comum, fora do radar dos militares. Ela não abandonou, no entanto, o posto nos Montoneros.

Mesmo ocupando uma patente alta, Ana María enfrentava o machismo arraigado nas organizações de esquerda, que discriminavam mulheres e ao mesmo tempo pretendiam construir o “novo homem”. Cenas como a da reunião comandada por Ana María, com interrupções para dar de mamar e trocar as fraldas do bebê na sala ao lado, trazem uma perspectiva que costuma ficar de fora dos relatos sobre a guerrilha latino-americana. Seu temperamento forte, que deixava calados os marmanjos da organização, também seria decisivo para a sua sobrevivência, anos mais tarde.
Desaparecida uma vez
Militantes de todas as organizações “desapareciam” todos os dias. Eram sequestrados sem registro oficial e levados aos mais de seiscentos centros clandestinos de detenção, verdadeiros campos de concentração onde eram torturados, escravizados e por fim mortos. Calcula-se em 30 mil o número de desaparecidos entre 1976 e 1983. A etapa final era o “traslado”, isto é, ser jogado de um avião no rio da Prata ou no oceano, para que o cadáver nunca fosse encontrado. Mas naquela época poucos sabiam da dimensão desse extermínio.
Em 1978, quando estava para acontecer a Copa do Mundo na Argentina, Ana María acabou “caindo”. Uma tentativa de atualizar seus documentos falsos levaram os policiais a descobrir que estavam diante de uma das oficiais mais procuradas, a viúva de um guerrilheiro morto numa ação de grande repercussão. Ana María então foi transferida para um centro de detenção clandestino. Começaram os interrogatórios humilhantes, as sessões de tortura com choques elétricos, os socos, a privação de comida, de sono, de banho, das necessidades mais básicas.
Nas páginas, Ana María reconstitui o pavoroso dia a dia do centro de detenção. Os repressores argentinos faziam das mulheres capturadas verdadeiros troféus de guerra, sobre os quais tinham poder de vida e morte e que exibiam publicamente como demonstração de poder.
Com Ana María não foi diferente: chegou a ser levada direto do centro de torturas a boates da moda e restaurantes finos por um de seus algozes, Beto, para depois ser devolvida em pânico à cela escura. Beto, no entanto, não demorou a começar a se afeiçoar a ela. “Assim, chegou o dia em que o Beto quis transar comigo”, conta ela.
“Eu sabia que isso ia acontecer.” Começa aí uma das passagens mais angustiantes do livro. A relação, que nada tinha de “amorosa” ou “consensual”, por se dar entre sequestrador e refém, acabaria permitindo a sobrevivência de Ana María e a de outras pessoas pelas quais ela conseguiu interceder ao se aproximar de Beto.
Beto dá um jeito de tirá-la do centro de detenção, aluga um apartamento para ela em Buenos Aires, onde a mantém como amante, e estabelece as bases para sua nova vida, sempre sob sua mira e de outros grupos de repressores, que andavam à solta pelas ruas da cidade. Era uma questão de tempo que ela fosse pega novamente. Por isso, pediu a ele que providenciasse documentos falsos e a ajudasse a fugir com Carlitos, que estava com a avó.
Os esforços para mantê-lo a salvo até o reencontro com a mãe, primeiro no Paraguai, depois no Rio e por fim em São Paulo, fazem do livro uma grande história sobre mãe e filho, sozinhos no mundo e treinados para o silêncio que garantiu sua sobrevivência.
Desaparecida pela segunda vez
Foi sob vigilância de Beto e ainda na clandestinidade que a ex-guerrilheira desapareceu pela segunda vez, ao se estabelecer como refugiada em São Paulo, numa Vila Madalena que vivia o início da efervescência cultural das décadas seguintes. O Plano Condor — colaboração mútua entre as ditaduras latino-americanas — era uma ameaça concreta, e tanto ex-guerrilheiros exilados como agentes da inteligência argentina monitoravam seus passos.
O clima festivo da redemocratização no Brasil fez do restaurante de empanadas e alfajores de Ana María e dois sócios um reduto de cineastas, jornalistas e boêmios — até hoje o Martín Fierro reúne artistas e intelectuais em torno de carnes e vinhos argentinos. É saborosa a descrição feita no livro do clima de abertura cultural da São Paulo do início dos anos 1980, que a ex-guerrilheira tinha dificuldade em compreender.
Livre de seu algoz apenas quando se encerrou a ditadura argentina em 1983, ela conviveria em silêncio por décadas com aquelas perturbadoras memórias, ocultando-as inclusive de seu filho. Já adulto, ele pediu que ela as contasse.
Treinada na clandestinidade a não perguntar detalhes e a manter permanente silêncio, a ex-revolucionária lida com lacunas e contradições ao revelar sua história. Vozes complementares, de irmãs, sobrinhos, do filho, de netos e amigos de Ana María ajudam a completar a história e a mostrar os fatos vistos por outras perspectivas. Sua família só conheceu os detalhes mais dolorosos quando uma peça de Teresa Donato começou a contar sua história, que ganhou forma completa no livro.
O fim do silêncio
Acusadas de colaboracionismo e de traição pelos companheiros de guerrilha, por supostamente terem consentido com essas “relações amorosas”, mulheres que foram violentadas e obrigadas a colaborar com a ditadura tiveram seu papel histórico recentemente revisto no debate público argentino e finalmente são reconhecidas como vítimas do terrorismo de Estado.
Ana María conta que o diálogo com Teresa Donato e que a leitura de livros que narram histórias como a dela a fizeram concluir que o que teve com Beto foi uma história de estupro e sequestro, e não uma relação amorosa, ideia que lhe despertava grande confusão e tristeza, levando-a a silenciar sua história por quase cinquenta anos.
Tendo se salvado por meio da relação com Beto, ela afirma ainda sentir por ele um confuso sentimento de “gratidão”, mesmo sabendo que ele a sequestrou e a violentou. Decidiu que não o denunciaria nos processos que responsabilizaram agentes do Estado por crimes contra os direitos humanos, nos quais não testemunhou, deixando de se envolver com a vida política argentina até a publicação do livro.
Ela responde com franqueza, às vezes desconcertante, aos que acusam os sobreviventes dos centros de tortura da ditadura argentina: “Não sou eu que vou julgar o que os meus companheiros fizeram. Deixo isso para os palpiteiros de plantão que nunca foram sequestrados e falam do alto da sua ética imaculada. É possível considerar traidor quem fala nessas condições? De verdade?”.
Em tom de diálogo íntimo, enriquecido por múltiplas vozes, Desaparecida duas vezes ilumina zonas cinzentas, frequentemente ignoradas pela história oficial: o sentimento de culpa por ter sobrevivido, as escolhas éticas impostas pelo terror, o peso de um silêncio prolongado e a necessidade de contar histórias difíceis.
Lançamento de Desaparecida duas vezes
Com Teresa Donato, Ana María Massochi e Carlos Livieres
Mediação de Humberto Werneck
Megafauna do Cultura Artística
Sábado, 14 de novembro, às 18h
Desaparecida duas vezes (Tinta-da-China Brasil), de Teresa Donato
Tradução de Paloma Vidal; capa de Isadora Bertholdo
288 pp • R$ 112,90
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