Literatura japonesa,
O olho que nunca fecha
Best-seller no Japão, médico e escritor Mikito Chinen fala sobre sua série de horror Não Mexa, que tem como foco a hipervigilância digital
27out2026 | Edição #111Um médico que passou anos diante de pacientes em situações-limite encontrou na escrita literária uma maneira de investigar o medo e as inquietações humanas. Mikito Chinen, escritor japonês nascido em Okinawa, estreou na literatura com Dare ga Tame no Yaiba [Por quem a espada clama?, inédito no Brasil], há mais de uma década, e se viu alçado a autor best-seller com romances que exploram os mistérios de um mundo cada vez mais conectado.
“Ser médico faz com que nos deparemos com vários aspectos da vida dos pacientes”, conta Chinen por e-mail à Quatro Cinco Um. “Como atuava no pronto-socorro, passei por muitas experiências angustiantes. Acredito que isso serviu de base para a realidade que descrevo em meus livros.”
A obra do autor chega ao Brasil com uma duologia de horror em que o sobrenatural se confunde com uma das experiências mais banais da vida contemporânea: carregar um smartphone
no bolso. Em Não mexa neste arquivo e Não mexa neste celular, traduzidos por Lídia Ivasa e Luis Libaneo, Chinen parte da lenda japonesa de Doumeki, um yōkai de inúmeros olhos, para imaginar uma sociedade em que ninguém está inteiramente fora do campo de visão de alguém. Câmeras de segurança, inteligência artificial, geolocalização e mensagens de celular deixam de ser apenas elementos da vida cotidiana e passam a alimentar uma narrativa em que a sensação de estar sendo observado ganha outra dimensão.
Para Chinen, além dos dispositivos de gravação, o desenvolvimento de inteligências artificiais tem feito com que a sensação de vigilância deixe de ser um delírio. “Entre pacientes com transtornos mentais, não são poucos os que se sentem ‘constantemente vigiados’. Porém, na sociedade atual, em que há câmeras de segurança por todo lugar, e com o desenvolvimento da inteligência artificial, isso deixou de ser um delírio e sinto que as pessoas talvez sejam monitoradas por programas”, diz.
‘No pronto-socorro, passei por muitas experiências angustiantes; isso serviu de base para meus romances’
Com mais de 140 mil exemplares vendidos somente no primeiro mês de lançamento no Japão e uma carreira que já inclui adaptações para a televisão e anime, Chinen entende que suas duas atividades, a medicina e a literatura, alimentam formas distintas de observar a realidade: é justamente na tessitura entre a dinâmica do pronto-atendimento, a forte cultura japonesa no gênero do horror e as novas tecnologias que se encontra parte da força de sua ficção.
Você vem de uma família de médicos, mas nunca abriu mão do sonho de se tornar escritor. Como foi conciliar os plantões com a escrita antes de sua estreia literária, em 2012? De que maneira o trabalho no hospital influenciou ou dificultou seu processo criativo?
No período em que prestei o Exame Nacional de Medicina e nos anos que levei para obter o título de especialista em clínica médica, minha jornada de trabalho foi extenuante e eu não dispunha de tempo para escrever. Depois do título de médico, pedi transferência para um hospital com uma jornada de trabalho menos exigente e continuei escrevendo até tarde da noite. Ser médico faz com que nos deparemos com vários aspectos da vida dos pacientes. Como atuava no pronto-socorro, passei por muitas experiências angustiantes. Acredito que isso serviu de base para a realidade que descrevo em meus livros.
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Sua obra transita por mistérios do cotidiano, thrillers médicos e, mais recentemente, pelo terror sobrenatural. Poderia falar sobre suas influências literárias e culturais?
Desenvolvi as bases para criar obras de entretenimento lendo muitos livros, principalmente os de mistério, e assistindo a muitos filmes. Além disso, pude desfrutar de diversas experiências por ter sido criado em Okinawa e em um país com uma cultura única como o Japão. Além de ter uma profissão especial como a de médico. Essas influências se acumularam lentamente, camada por camada, se tornando a fonte para eu criar meus romances. Se por um lado há uma natureza abundante no Japão, por outro o país é assolado por desastres naturais. Por isso, existe o pensamento de que divindades habitam a natureza e as pessoas aprenderam a reverenciá-la. Penso que essa sensação se tornou a raiz do medo do ordinário.
O Japão passa por um boom de histórias de horror, especialmente do chamado falso documentário, em que os leitores têm a impressão de que as histórias aconteceram de verdade. Não mexa neste arquivo e Não mexa neste celular são obras desse tipo. Espero que os leitores se divirtam com o horror que corrói a realidade.
Falando em divindades, a série Não Mexaapresenta uma releitura ficcional da lenda urbana de Doumeki, o “oni de cem olhos”. Como essa lenda se tornou o ponto de partida para explorar o tema da vigilância?
O yōkai Doumeki possui inúmeros olhos e, por enxergar através de tudo, sua lenda parece materializar a sociedade da vigilância. Achei que seria perfeito como tema desses livros. Estar em constante vigilância promove, por um lado, a segurança pública, mas, por outro, uma sociedade sem privacidade, o que me deixa receoso de que a liberdade das pessoas possa estar ameaçada.
Entre pacientes com transtornos mentais, não são poucos os que deliram por se sentirem constantemente vigiados. Porém, na sociedade atual, em que há câmeras de segurança por todo lugar, e com a inteligência artificial, isso deixou de ser um delírio e sinto que as pessoas talvez sejam monitoradas por programas.
A ideia de publicar um livro no formato de um smartphone, com a narrativa se desenrolando por meio de mensagens de texto e capturas de tela, é inusitada. Que experiência de leitura esperava criar?
Estou sempre em busca de novas possibilidades de expressão para os romances. Quando recebi a proposta de publicar em um formato pequeno, ele tinha exatamente o tamanho de um smartphone. Tive essa ideia porque achei interessante escrever um livro que progride como a tela do celular. Como queria que esse formato mantivesse o texto ao mínimo possível e que o enredo avançasse a partir da tela do smartphone, tive trabalho em integrar as informações necessárias com uma tela que fosse de fácil visualização.
A série examina como estamos cada vez mais expostos à vigilância por meio das redes sociais, da geolocalização e das câmeras de segurança instaladas em espaços públicos. O que é mais preocupante hoje: a vigilância exercida pelos governos, pelas empresas de tecnologia ou por pessoas comuns que monitoram umas às outras?
A tecnologia de vigilância melhora visivelmente graças à inteligência artificial. O ideal seria utilizá-la para proteger a privacidade das pessoas e para a construção de uma sociedade segura, mas acredito que esconda um grande risco se for usada por pessoas mal-intencionadas. Talvez surjam situações em que figuras que não foram escolhidas democraticamente possam monitorar outras pessoas com facilidade. Penso que é necessário um sistema para impedir isso.
Vencer o prêmio Rose City Fukuyama, em 2011, marcou uma virada em sua carreira. Desde então, suas histórias viraram best-sellers, foram adaptadas para a televisão e até em anime. O que o reconhecimento dos leitores e da crítica significou em um momento em que a escrita ainda era uma atividade paralela à carreira na medicina?
Eu acreditava que meus livros pudessem agradar aos leitores e me senti aliviado ao saber que não estava enganado. Além disso, pude lançar obras de gêneros variados porque mais leitores sabiam da minha existência como escritor. Foi uma experiência nova ver minhas obras adaptadas para o audiovisual pelas mãos de profissionais de outras áreas. Foi uma oportunidade para eu aprender formas de expressão diferentes de um romance.
‘Não são poucos os pacientes com transtornos mentais que deliram por se sentirem constantemente vigiados’
O Brasil é o primeiro país a publicar a duologia fora do Japão, onde já vendeu mais de 140 mil exemplares só no primeiro mês. Você esperava uma resposta tão expressiva?
Embora esteja do outro lado do mundo, o Brasil tem laços profundos com o Japão, pois muitos descendentes de japoneses vivem no país. Graças a isso, culturalmente o Brasil tem um ambiente receptivo para meus livros. Como confiava em um formato diferente, não foi uma surpresa. Sinto que a escrita de romances ainda pode revelar novas possibilidades.
Qual de seus livros você recomendaria como próxima leitura para os leitores brasileiros, inclusive os que leem em japonês?
Se for de horror, acho que Yomotsu ikusa [Exército do submundo, sem tradução brasileira], obra de horror biológico cujo tema retrata a mitologia japonesa, é um bom livro. Eu inseri o quanto foi possível dos conhecimentos em biologia que adquiri como médico. Também recomendo Real Face, uma leitura fácil, que mistura suspense e mistério e aborda a cirurgia plástica. Se preferirem uma leitura comovente, Yasashii shinigami no kaikata [Como cuidar de um anjo da morte gentil] é uma boa pedida. Para incluir as crianças na leitura, recomendo a série Ameku Takao no Suiri Karte[Takao Ameku, o médico detetive] e a série de livros infantis Hōkago Mistery Club [Clube de mistério após as aulas].
Depois de mais de uma década conciliando o trabalho de médico e o de escritor, o que continua motivando você a escrever? E o que o continua inspirando a exercer a medicina?
Atuar como médico, profissional que zela pela saúde das pessoas, é um trabalho maravilhoso do qual tenho orgulho. Esse sentimento se tornou ainda mais forte após superar a terrível pandemia de Covid-19. Por outro lado, sinto que o trabalho como escritor, que dá vida a histórias que apenas eu posso criar e que encanta muitos leitores, é minha vocação. Minha maior motivação é entreter os leitores, levando minhas obras a outros países além do Japão, como o Brasil.
Tradução de Lídia Ivasa
Editoria com apoio Japan House São Paulo
Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.
Matéria publicada na edição impressa #111 em outubro de 2026. Com o título “O olho que nunca fecha”
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