Repertório 451 MHz,

Memória sapatão

Julia Kumpera fala sobre a história do Ferro’s Bar, reduto lésbico no centro de São Paulo que foi palco de uma revolta contra a violência policial em 1983

16out2026

Está no ar o 217º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Esta edição traz a historiadora Julia Kumpera na coluna Lado Beber, apresentada pela poeta Bruna Beber. Kumpera, que lançou em junho Na noite lésbica: o levante do Ferro’s Bar (Autêntica), conversa sobre a história do reduto lésbico no centro de São Paulo que, em 1983, foi palco de uma revolta contra a violência policial. O levante se tornou marco da luta lésbica no Brasil e originou o Dia Nacional do Orgulho Lésbico, comemorado em 19 de agosto.

A convidada e a colunista também falam sobre sociabilidade lésbica a partir da boemia e como a literatura, os registros orais e o mapeamento urbano ajudam a reconstruir a memória de espaços de resistência. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.

Mestra em história pela Unicamp e doutoranda na UFF, Julia Kumpera pesquisa o movimento lésbico desde 2018. Também publicou O lesbianismo é um barato: o GALF e o ativismo lésbico-feminista no Brasil (Intermeios, 2024). Em Na noite lésbica, investiga a memória coletiva e as redes de resistência construídas por mulheres em São Paulo durante a ditadura militar.

Geografia da boemia

Na conversa com Beber, Kumpera resgata a geografia do centro de São Paulo nos anos 70 e 80, quando a região era popularmente dividida entre a “Boca do Lixo” e a “Boca do Luxo”. “Esses nomes já são bastante sugestivos do tipo de imagem que se tinha desses lugares, de como eles eram representados na imprensa”, afirma. 

Enquanto a “Boca do Lixo” era associada à marginalidade e à prostituição, a “Boca do Luxo” concentrava estabelecimentos frequentados por camadas mais abastadas.

O Ferro’s Bar ocupava uma zona de fronteira estratégica. Por estar localizado no limite entre essas duas regiões, atraía um público diverso, que transitava livremente entre elas. Kumpera explica que o estabelecimento “pegava gente de todos os tipos” e “pessoas que circulavam por esses dois mundos”.

Ferro’s Bar em 1983 e a fachada atual de onde funcionava o estabelecimento (Folhapress/Divulgação; Renan Quinalha/Divulgação)


Atualmente, o espaço onde funcionava o bar, na rua Martinho Prado, serve como ponto de apoio, vestiário e alojamento para garçons de restaurantes da região. 

Stonewall brasileiro

Em 19 de agosto de 1983, ativistas lésbicas ocuparam — com apoio de grupos homossexuais, movimentos feministas e políticos como o então deputado federal Eduardo Suplicy — a calçada e o interior do Ferro’s Bar para a leitura de um manifesto público contra a censura, a lesbofobia e a repressão que sofriam cotidianamente de forças policiais. O episódio ficou conhecido como o “Stonewall brasileiro”, em referência ao protesto ocorrido em Nova York, em 1969.

Rosely Roth discursa para o público durante protesto no Ferro’s Bar (Folhapress/Divulgação)

A relação do público LGBTQIA+ com os proprietários do estabelecimento também era marcada por tensões. Eles não assumiam o bar como um espaço abertamente voltado para esse público. “Os donos eram homens conservadores e só estavam interessados em manter o bar funcionando porque era o ganha-pão deles”, diz a historiadora. 

Kumpera ainda conta que havia a negação da sexualidade da maioria das frequentadoras, tratadas com desdém e distanciamento. “Tem essa camada do ‘eu posso fingir que não estou vendo que essas mulheres são lésbicas, posso tentar ignorar isso ao máximo’, que é um desrespeito à sexualidade delas.” 

Histórias faladas

Kumpera comenta o processo de escrita do livro e destaca o valor da oralidade na reconstrução de acontecimentos históricos. Ela afirma que, durante a pesquisa, o mais interessante não eram os relatos dos acontecimentos em si, mas os sentimentos transmitidos por quem participou deles. “O que é bonito e dá riqueza são quais significados ela [a fonte] atribuiu, ao longo da vida, para aqueles acontecimentos, para aquelas relações.” 

A historiadora Julia Kumpera n’A Feira do Livro 2026 (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

Kumpera defende uma mudança de perspectiva sobre a memória do movimento lésbico-feminista. “A gente pode sair da narrativa de que a história das lésbicas é uma história de tragédia. Essas mulheres não foram só reprimidas; elas também tiveram agência, elas também foram criativas, elas também foram ousadas e elas também romperam com uma série de normas da sua época.” 

Livro Marcador

No quadro sobre livros marcantes na vida de escritores e personalidades das artes e da cultura, o episódio traz a sugestão do historiador e escritor português Rui Tavares. Ele é autor de vários livros lançados pela Tinta-da-China Brasil (selo editorial da  Quatro Cinco Um), sendo o mais recente Hipocritões e olhigarcas: passado e futuro das guerras culturais (2026). Ele recomenda A guerra das salamandras (trad. Luis Carlos Cabral, Record, 2011), de Karel Čapek.

O historiador português Rui Tavares (Nuno Ferreira Santos/Divulgação)


“Em A guerra das salamandras aparecem umas salamandras que têm um tamanhinho assim como de uma criança, um metro e pouco, e que são extremamente hábeis com as mãos e que desenvolvem a capacidade da fala. Elas aparecem numa ilha na Indonésia, são descobertas por um navegador e rapidamente a humanidade percebe que as pode usar como força de trabalho praticamente escravizada. As próprias salamandras entram em guerra — e tem todas as figuras das salamandras do fascismo dos anos 20 e 30; tem a salamandra Mussolini, a Hitler…”, diz.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.

Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]