Ativistas do grupo Lésbico Feminista (LF) durante ato contra a violência policial em São Paulo, em 1980 (CEDOC LGBTI+/Divulgação)

Livros e Livres,

Um passado de fervo e luta

Duas coleções reconstroem a memória LGBTQIA+ brasileira a partir de episódios de resistência festiva e biografias apagadas da história

08jul2026 • Atualizado em: 07jul2026 | Edição #108

A trajetória da população LGBTQIA+ e sua influência na vida política e cultural do país raramente ocupam lugar de destaque nas narrativas históricas oficiais. A fim de preencher essas lacunas, duas novas coleções chegam às livrarias com propostas complementares de valorização dessa memória.

De um lado, a coleção Nossas Histórias, coordenada pelo professor de direito e colunista da Quatro Cinco Um Renan Quinalha na editora Autêntica, joga luz sobre marcos da luta política e de manifestações culturais da comunidade no país. Do outro, Vidas Sequestradas, organizada pelo professor e crítico literário César Braga-Pinto na editora O Sexo da Palavra, apresenta minibiografias de importantes figuras de dissidência sexual ou de gênero.

Quinalha conta que Nossas Histórias atende a um desejo de registrar e divulgar histórias coletivas vividas em diferentes partes do território nacional. “Sendo um país continental, marcado por muita diversidade regional e diferenças culturais, o Brasil tem como ponto comum uma vida pulsante da comunidade LGBTQIA+ em várias cidades”, explica.

A ativista Rosely Roth discursa para o público durante um protesto no Ferro’s Bar (1983) (Folhapress/Divulgação)

Em parceria com o editor Schneider Carpeggiani, ele projetou volumes breves, com linguagem acessível, sem o peso acadêmico. A proposta é aproximar a militância política da efervescência criativa e alcançar o maior número de leitores. “Não é uma coleção só sobre episódios militantes e ativistas, mas também sobre cultura e produções de resistências festivas. Essa comunidade sempre foi marcada pela característica de se mobilizar de modo bem-humorado, irreverente e vinculado a festas”, pontua.

A coleção estreia com três títulos. Lançado n’A Feira do Livro, Na noite lésbica: o levante do Ferro’s Bar, de Julia Kumpera, aborda o bar paulistano que foi palco do histórico levante de 19 de agosto de 1983. O próximo título, de Milton Ribeiro da Silva Filho, será sobre a Festa da Chiquita, celebração profana que ocorre anualmente durante o Círio de Nazaré e há décadas reúne a comunidade LGBTQIA+ em Belém. O terceiro, de Márcio Bastos, mergulhará na memória do grupo teatral Vivencial Diversiones, de Recife, que desafiou a censura durante a ditadura militar.

Ao contemplar o Sudeste, o Norte e o Nordeste, as primeiras obras já sinalizam o olhar intencionalmente plural para a história do país. “Estamos buscando trabalhos de outras partes do Brasil e tentando cobrir períodos históricos distintos, mesclando o passado e o presente para ter uma composição bem colorida”, explica Quinalha.

Para ele, ter acesso a essa memória é um direito essencial. “Conhecer o passado é fundamental, porque talvez a maior violência histórica contra a comunidade LGBTQIA+ tenha sido o apagamento, o silenciamento e a privação de uma história. Isso extorquiu desse grupo a possibilidade de ter referências, linhagem, ancestralidade.”

Histórias sequestradas

Enquanto a coleção Nossas Histórias foca as ruas, episódios e movimentos coletivos, o projeto organizado por César Braga-Pinto olha para trajetórias individuais de personagens célebres e pouco conhecidos da literatura, das artes e do ativismo, sob a provocativa premissa de “sequestro”.

“A princípio, a palavra remetia à exclusão, como no conceito de ‘Sequestro do Barroco’, [ensaio] de Haroldo de Campos, e ao sentido usado por Mário de Andrade, dialogando com o recalque ou a repressão. Como isso casa bem com a noção de resgate, me pareceu uma boa brincadeira”, explica Braga-Pinto. “Mas queria também dar espaço para que reinventássemos a palavra, ressignificando-a conforme o caso. Queríamos que os autores e os leitores definissem o sequestro segundo cada biografia.”

A maior violência histórica contra a comunidade é o apagamento, que extorquiu suas referências

Na prática, o conceito da coleção Vidas Sequestradas assume diferentes faces. Vai do esquecimento, como o registrado em Tuca: a cantora lésbica exilada da história, de Renato Gonçalves, ao suicídio, presente em Raul Pompeia: desejo líquido, de Raúl Antelo. “De modo geral, eu associaria o sequestro à dissidência sexual”, resume o organizador.

Outra particularidade da coleção diz respeito aos biógrafos. Para fugir de textos meramente informativos, o projeto buscou autores “apaixonados por seus biografados”. “Isso dá espaço para a criatividade que procuramos. Não queríamos um longo artigo de Wikipédia. Queremos textos autorais, em que o escritor possa estar presente também”, conta Braga­-Pinto. Ele cita como exemplo Jean-Claude Bernardet: viajante do corpo, de Sabina Anzuategui, que é coautora dos últimos projetos literários do cineasta e crítico, morto em 2025. “O resultado é uma biografia que é também autobiografia. Um texto poético, que tem seu próprio valor literário.”

Além de Bernardet, Pompeia e Tuca, outros quatro retratados inauguram a coleção: Copi, pseudônimo do artista argentino Raúl Damonte Botana, biografado por Renata Pimentel; o transformista Darwin, por Sancler Ebert; o cineasta Pier Paolo Pasolini, por Luiz Nazario, e o ator e dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, por Marcio Aquiles. “Procuramos nos guiar pela diversidade de histórias e subjetividades. Os primeiros volumes já dão uma amostra dessa pluralidade queer”, afirma o organizador.

Entre os próximos biografados estão nomes como Arthur Rimbaud, Caio Fernando Abreu, Cátia de França, Cleto Mergulhão, Lúcio Cardoso, Roberto Piva, Sylvia Molloy e Thomas Mann. Vidas Sequestradas também contará com autores convidados da Argentina e dos Estados Unidos.

Ao recuperar trajetórias de personalidades, episódios e movimentos de resistência política e festiva da comunidade, as coleções vão além do simples resgate da memória LGBTQIA+ no Brasil. Para Quinalha, autor de Movimento LGBTI+: uma breve história do século XIX aos nossos dias (Autêntica, 2022), a ideia de dar “musculatura e densidade” a essas histórias exalta a conquista de direitos, políticas públicas e visibilidade e ajuda a lidar com os desafios postos no contexto de crescente conservadorismo e de ataques à comunidade. “O objetivo central é restituir à comunidade seu passado: seus personagens, histórias, realizações e diversões. Foram eles que nos constituíram e trouxeram até aqui.”

Quem escreveu esse texto

Amauri Terto

Jornalista e coordenador de mídias sociais da revista Gama.

Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “Um passado de fervo e luta”

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