Fichamento,
Paula Gicovate
Em novo romance, a escritora carioca acompanha a transformação de uma mulher depois da morte da mãe
29jun2026 • Atualizado em: 26jun2026Mais do que um livro sobre o luto, Como navegar o abismo (Record) traça um mapa do amor e do desamor para mostrar o que a gente pode fazer da vida.
O que há de ficção e o que há de biográfico em seu novo romance?
É uma ficção que parte da minha história. Vim para essa Terra ser filha da minha mãe; minha função primordial era ser filha da Laura. Eu morria de medo quando alguém me contava o que tinha acontecido com sua mãe e agradecia muito não ser com a minha. Quando aconteceu, foi avassalador — a descoberta de um câncer de pâncreas, em 2021, e a morte sete meses depois.
Foi quando pensou em escrever o livro?
Quando ela morreu, eu queria escrever, mas tinha medo de fazer mais um livro sobre luto. Ao mesmo tempo, era impossível não contar essa história. Eu tinha uma relação maravilhosa com minha mãe. Entendi que todo mundo é construído pelo amor da mãe. Ou a falta dele.
No livro, a falta do amor materno está na relação entre a avó e a mãe da narradora?
Quase achei que estava escrevendo a história dessa avó [que não demonstra amor para sua própria filha]. Esse sentimento de ser uma criança sem mãe ficou muito presente no romance.
Conseguiu navegar esse abismo?
Não me afoguei. Achei que não iria sobreviver e estou aqui. Queria que a Nara [a narradora] também sobrevivesse e que não ficasse presa aos cuidados com a avó, ou seja, não repetisse o que a mãe fazia. Um tema que eu quis tocar é como a obrigação do cuidado recai sobre as mulheres.
Essa obrigação de ser a cuidadora tem a ver com sua experiência familiar?
A minha mãe não conseguiu romper com essa sina. Como no romance, ela não deixou meus avós saberem que estava doente — não queria dar trabalho aos outros. Ela era uma grande assistente social, trabalhava no Caps [Centro de Atenção Psicossocial]. Eu vi o que era se doar até não aguentar mais. E a minha avó vinha desse lugar do amor como serviço. Isso contaminou o livro, mas estou orgulhosa de ter conseguido fazer ficção dentro de uma dor tão aberta.
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Onde entra a ficção?
A Nara é chef de cozinha, diferente do que sou. E não tem irmãos — quis imaginá-la numa solidão maior que a minha. Ela vai para uma cidade do interior cuidar da mãe e fica presa ali com a avó. Comigo foi o contrário. Moro no Rio, mas sou de Campos de Goytacazes. Com a morte da minha mãe eu não conseguia voltar para lá. Também carreguei nas tintas [do desamor materno] da avó, para mostrar que “nem toda mãe”, né?
Em que lugar a gente deixa os nossos mortos?
Tive que tirar [do livro] uma parte muito triste, para não patinar na dor. Os bons mortos a gente deixa em um lugar aonde pode voltar se precisar, como quando pensamos: “Vou conseguir passar por isso porque sei o que essa pessoa diria para mim”. É um acervo amoroso que tenho para lidar com essa vida.
Você disse que não queria fazer mais um livro sobre luto. Conseguiu?
Quando eu estava escrevendo, a Ana [Lima Cecilio], minha editora, me dizia: “Paula, não é um livro sobre luto; é sobre a transformação da narradora, sobre quem a gente vira”. A solidão também é um lugar para recomeçar; não ter com quem passar o Natal e ter a liberdade de fazer o que quiser a partir disso. O abismo é um recomeço. Quem não tem nada vai ter tudo de outra forma.
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