O escritor mineiro Leonardo Piana (Fabio Audi/Divulgação)

Livros e Livres,

Desejo em construção

Literatura de Leonardo Piana, verve de um erotismo clandestino, transa com a natureza, com os astros e principalmente com o idioma

24jun2026

O desejo, a família e a literatura são terrenos pantanosos onde amantes, pais, filhos e leitores rebolam. São neles que Leonardo Piana também se embrenha em seu díptico romanesco formado por Sismógrafo (2022, relançado este ano) e Tarde no planeta (2025). Se no premiado romance de estreia Piana ilumina a vida de um “menino de mentira” nascido na pequena cidade de Andradas (MG) (terra natal do autor), no segundo ele estica sua geografia até um lugarejo inominado, cravado aos pés da Serra da Mantiqueira — que se esparrama entre Minas, São Paulo e Rio de Janeiro, e insinua um deslocamento espacial, assim como o fazem os personagens forasteiros que habitam as páginas do escritor mineiro. 

No jogo literário, algumas estratégias biográficas estruturam a vida-escrita de Leonardo Piana, como o lugar de enunciação e a sexualidade. Isso se encarna na poeta e professora de literatura de Tarde no planeta, que se chama Diana. Minas Gerais também é reencenada no nome do protagonista Carlos — não por acaso homônimo do grande poeta mineiro do século 20 — e em referências diretas à produção de Ana Martins Marques — que, assim como Piana, venceu duas vezes o prêmio Cidade de Belo Horizonte e, também com isso, alcançou projeção nacional.

Esses recursos estabelecem um diálogo com os clássicos estaduais e traçam paralelos audaciosos com o cerne ficcional, mas também flertam com o que há de trivial em determinadas citações — algo que se torna mais evidente, por exemplo, nas recorrentes menções a Belchior no romance, já amplamente revisitadas em nossa cultura. O método soa como se a expectativa depositada na poesia fosse tão grande que, por vezes, o que chega é um lirismo envolto em tubos de ensaio, balões volumétricos e dessecadores. Vem o poema, mas a redoma permanece.

Ao escrever uma prosa abertamente poética, tendo ainda uma das protagonistas como escritora, Piana apresenta um romance que tange o processual, como se algumas das referências da pesquisa invadissem as páginas sem uma costura que melhor justificasse sua razão de ser. Escolhas gráficas de pontuação, espaçamento e oscilação entre maiúsculas e minúsculas apontam para uma estetização desse diálogo metalinguístico, porém o direcionamento não tem uma atenção mais ostensiva diante da variedade de temas tratados no romance.

O tesão impresso por Piana não é o mesmo de Lúcio Cardoso, Adélia Prado ou Fernando Sabino

Tendo em vista a boa recepção de Sismógrafo, é um mérito que o autor investigue outras formas de narrar, refazendo seu arcabouço temático (a vida no interior, a homossexualidade na adolescência, a relação entre filho e pais, discussões de classe), mas versatilizando as maneiras de contar, expondo seus personagens a novos tratos com a emoção e a recepção dos leitores. A doçura e as reflexões por vezes pueris de Eduardo (protagonista de Sismógrafo) dão lugar, em Tarde no planeta, a personagens menos palatáveis: retilíneos, com uma vida interior muito prolongada e poucas ações, rancorosos, violentos, moralizantes, mal resolvidos em muitas ocasiões e sempre à espera de algo que nunca vem. Carlos, Diana, Ernesto e Sérgio são expectadores de uma iminente tragédia e esperançosos de alguma poesia. 

Metaforicamente, é como se Sismógrafo fosse narrado por um anjo barroco renascido nos anos 1990; e Tarde no planeta, por uma igreja incendiada que relata os escombros do fogo com uma boca que lhe falta, consumida pelas chamas e pela dificuldade de narrar o próprio fim — seja pela dificuldade de se ter uma voz, de se entrar para a história, de formalizar uma ficção em um livro impresso, bem distribuído e, por que não, premiado. O narrador de Tarde no planeta reitera que a história não se importa com pessoas como estas e coube a ele escrevê-las. Mas de que modo?

Nos dois romances, há um desejo típico de quando se deseja algo no interior de Minas Gerais. O sol recorta os rostos dos personagens “inchados de ternura” num ângulo macio, o suor que escorre das têmporas e da lascívia é quente, mas também frio e metálico — para novamente citar Carlos Drummond de Andrade e Ana Martins Marques. No entanto, o tesão impresso por Piana não é o mesmo de Lúcio Cardoso, Adélia Prado ou Fernando Sabino: é um desejo ainda em construção, que busca brechas para explorar a volúpia, a literatura e as políticas do contemporâneo. Diz Eduardo em Sismógrafo

Comecei a procurar, obsessivo, as histórias dos meninos que desejam outros meninos, as histórias dos olhos culpados dentro das igrejas e banheiros e quartos de internato que não existem por aqui, esses espaços onde é possível enxergar bem a pureza que ninguém quer ver. Foi o instinto de me reconhecer, imagino, que me levou a folhear dezenas de livros e piratear filmes na internet na tentativa de compreender o modo como esses meninos suportavam, fugiam, amavam, de conhecer os finais possíveis, decerto reservados para mim. Mas todo percurso, embora difícil de encontrar, era marcado por uma angústia que eu também sentia, é claro, que parecia destinada para a minha vida por um deus, um pai, por meninos, anjos, animais.

Pureza

No italiano e na história da arte, putto é a palavra que descreve os querubins, meninos gordinhos, nus e alados que simbolizam o amor e a pureza. Na literatura de Piana, seus protagonistas são putti e putos, meninos que se julgam “de mentira” em decorrência de sua sexualidade desviante da norma, que têm os cabelos cuidadosamente penteados pelas mães e que só deixam de ser cacheados quando o desejo os despenteia.

O erotismo em Piana é tamanho que não cabe nas formas humanas: o corpo masculino é alegorizado a partir de elementos naturais como rochas, falésias, troncos e longas estradas. Para atingi-lo em sua máxima expressão, os personagens se desdobram entre técnicas de escalada e corrida. Cada gota de suor dessas práticas é minuciosamente mimetizada pela linguagem do autor: 

Gostava era de ver Sérgio escalando, descobrir músculos se contraindo nas costas, fibras de algo que ele nem sabia existir. Gotas de suor pingaram no seu rosto um dia, ele sentiu na língua o sal do esforço de um homem. 

A literatura de Piana, verve de um erotismo clandestino, transa com a natureza, com os astros, com corpos inanimados e principalmente com o idioma.

Por consequência, o corpo homossexual é monstrualizado, como um filho que rasga e devora o corpo da mãe antes mesmo de nascer. Sua simples presença, mesmo vulnerável, desestrutura todos os lares por onde passa e requer a reelaboração de tudo o que conheciam e com que lidavam até então. Um simples “amor aéreo” por outro menino é capaz de revelar a singela crueldade das pequenas semânticas familiares, a violência adjacente aos corpos e à linguagem. 

A ambição do projeto do autor às vezes produz imagens que afetam a orquestração do romance

Diante desse campo minado civilizacional, ao longo de Tarde no planeta, a ficção apocalíptica atravessada pela emergência climática, a narrativa lbgtqia+ e o experimento autoficcional metalinguístico impõem um questionamento que não é apenas sobre o gênero literário, mas sobre a base formal que sustenta todas essas camadas. Por vezes a ambição do projeto embaralha os regimes de leitura e produz imagens que afetam a orquestração do romance e seu pacto com o leitor.

Há uma aposta insistente na literatura como espaço de reconhecimento — não apenas para sujeitos historicamente dissidentes, mas também para leitores que, mesmo não se identificando diretamente com essas experiências, são convocados a lidar com elas sem exotismo, sem mediação excessiva, sem a distância confortável da exceção. Sismógrafo e Tarde no planeta oferecem uma imaginação possível para jovens homossexuais numa produção contemporânea, situada e literariamente exigente. São livros que podem operar, para muitos leitores, como uma forma de espelho tardio ou desejado.

Quem escreveu esse texto

Felipe Cordeiro

Crítico literário, faz pós-doutorado em edição de livros na USP, com estágio na Universidade de Buenos Aires

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