A FEIRA DO LIVRO 2026,
‘Persépolis’ é um fenômeno porque é narrado por uma mulher, diz Gabriela Borges
Junto com Dani Marino, pesquisadora lança Quadrinhos, diversidade e insurgência, coletânea que mapeia a produção de mulheres quadrinistas
05jun2026A ilustradora iraniana Marjane Satrapi, morta na quinta-feira (4), aos 56 anos, foi a grande homenageada do debate Minas de HQ, com as pesquisadoras Dani Marino e Gabriela Borges, no Auditório do Museu do Futebol na tarde de sexta (5), n’A Feira do Livro.
“Persépolis foi um fenômeno tão relevante porque é uma mulher narrando a história. O mundo é narrado por vozes masculinas. Ela [Satrapi] traz as avós e as outras mulheres iranianas — é um ponto de vista que a gente não vê”, defende Borges, que lançou, n’A Feira, Quadrinhos, diversidade e insurgência: Mina de HQ 10 anos (Kipuka), organizado com Marino, que reúne cerca de duzentas quadrinistas de diversas regiões do país.
A compilação comemora uma década de existência do trabalho de pesquisa de Borges, divulgado, originalmente, somente numa plataforma digital multimídia.
Em conversa mediada pela jornalista Clara Rellstab, Borges e Marino conversaram sobre o trabalho de seleção das ilustradoras para a coletânea, criticaram a falta de visibilidade de mulheres no mercado de HQs e deram dicas para novos artistas.
Papel político
Borges contou que, quando tudo ainda era um esboço, em 2016, não imaginava que a plataforma Mina de HQ assumiria um papel político. A ideia foi crescendo depois de viajar para Buenos Aires, na Argentina, para fazer mestrado em estudos de gênero e conhecer publicações feministas impressas em feiras de zines e quadrinhos.
“O projeto nasceu da minha vontade de encontrar mais mulheres autoras de quadrinho. No mestrado, estudei a representação de mulheres nos quadrinhos argentinos. Lá, a Mariela [Acevedo, autora da revista Clítoris] me ensinou a ser feminista e isso abriu a minha cabeça”, contou a pesquisadora, que voltou para o Brasil e comecou a participar ativamente de encontros de ilustradoras e quadrinistas voltados para mulheres, como os promovidos pelo extinto site Lady’s Comics.
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“O Lady’s Comics fez vários encontros importantes e eu costumo dizer que eles falavam ‘nós sempre existimos, sempre estivemos aqui’; o Mina, hoje, pode dizer: ‘Nós somos muitas’”, afirma Borges.
Marino conta que, durante a infância, tinha o hábito de ir à banca de revistas com o avô para comprar revistas e figurinhas. A quadrinista que guarda na memória como referência inicial é a norte-americana Trina Robbins (1938-2024), primeira mulher a ilustrar a personagem Mulher Maravilha para a DC Comics. Mas também lembra das histórias narradas por homens.
“A Trina Robbins fazia um quadrinho chamado Misty. A personagem andava de moto e ganhava as corridas quando competia com os homens. Meu sonho era ver a Misty com uma roupa desenhada por mim. Um pouco mais velha, li alguns quadrinhos que o meu namorado tinha e ele lia muito Sandman”, lembra Marino.
A dupla relata que a organização do livro é um trabalho que privilegia a criação feminina em um espaço ainda dominado majoritariamente por artistas e editores homens. As autoras defendem que a produção de quadrinhos por mulheres deve ser avaliada, compreendida, lida e editada não como um nicho do mercado, mas como uma história relevante que homens e mulheres deveriam ler sem restrições.
“A gente percebeu que havia um mercado, mas a validação ainda é masculina — são eles que têm os canais, que editam e contratam nas editoras. Hoje acontece um pouco menos, mas sempre surge a perspectiva de colocar a produção das mulheres como um nicho, não como uma narrativa que todos deveriam ler”, criticou Marino.
Campo independente
Outra preocupação das organizadoras do livro, além da segmentação em feiras e eventos, são as premiações. Importante reconhecimento do mercado profissional de ilustradores, o Troféu HQ MIX e o Troféu Angelo Agostini fazem a diferenca quando premiam categorias exclusivas e dão visibilidade à produção de mulheres cis e trans, diversificando os tipos de criadoras e, principalmente, contribuindo para a profissionalização do mercado.
“Quadrinho não é literatura; é reconhecido como nona arte. Tem o cinema, tem a literatura, tem as artes visuais — e o quadrinho é uma delas. Cada uma tem a sua linguagem. Quadrinhos são um campo autônomo com estilo próprio. Esse ponto é muito sério, porque os quadrinhos concorrem com romances em editais — é preciso reconhecer que é uma arte própria”, explicou Marino.
A dupla foi surpreendida por uma pergunta de uma pequena leitora, Laura, de 10 anos, que assistia da plateia com um caderninho de desenho em mãos e já com a ideia de se tornar ilustradora quando crescer. Curiosa, ela queria saber como se tornar desenhista.
“Se profissionalizar é um caminho longo. Hoje existem muitas plataformas de financiamento coletivo. Um caminho, com um pouco mais de sorte, pode ser o das editoras. Mas envolve muitas questões; não é tão simples. Faz, posta, mostra para as pessoas e vai produzindo. Alguns vão ligar, outros não vão — não dá pra esperar validação. Quer fazer, faz”, incentivou a pesquisadora.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.