A FEIRA DO LIVRO 2026,
‘Somos a espécie mais burra que já apareceu no planeta’, diz Stefano Mancuso
Botânico e filósofo italiano defende cidades mais verdes e reforça que ‘as plantas conversam muitíssimo’ por meio de moléculas químicas
05jun2026 • Atualizado em: 07jun2026O botânico italiano Stefano Mancuso defendeu uma transformação profunda das cidades para enfrentar a crise climática, com menos espaço para carros e mais árvores, parques e áreas de convivência na conversa com a jornalista Maria Guimarães n’A Feira do Livro, na tarde de quinta (4).
Ao relacionar urbanismo, saúde e evolução humana no Palco da Praça, o autor de Fitópolis (trad. Regina Silva, Ubu, 2026) argumentou que os seres humanos mantêm uma ligação biológica profunda com as plantas e citou estudos que mostram os benefícios da natureza para a recuperação de pacientes hospitalizados, a aprendizagem e o bem-estar.
“As cidades devem ser consideradas um ecossistema. Hoje, elas são monoculturas humanas”, afirmou no debate, que contou com tradução simultânea de Marcello Lino.
Inspirado em como a organização das plantas pode inspirar uma nova forma de conceber as cidades, Mancuso sugeriu que as administrações municipais tenham coragem de fechar ruas para transformá-las em espaços de convivência e arborização. Segundo ele, a resistência inicial da população tende a desaparecer rapidamente.

“Fechem 20% das ruas, um pouco de cada vez. Depois de alguns meses, ficará tão claro o número de vantagens diante da pequena quantidade de incômodos, que todas as outras ruas também vão querer ser assim”, disse, arrancando aplausos do público.
Plantas no cotidiano
Ao comentar a presença das plantas no cotidiano humano, o botânico lembrou que a espécie humana evoluiu em íntima relação com as árvores. “Nós não vivíamos com as plantas, vivíamos em cima das plantas”, afirmou.
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Para ele, o corpo humano ainda carrega as marcas dessa origem arborícola, e a simples exposição à cor verde produz efeitos fisiológicos imediatos. “Nos primeiros trinta segundos, o cortisol [hormônio do estresse] diminui em 30%. O batimento cardíaco cai, a pressão também diminui”, explicou.
Nessa linha, o pesquisador citou estudos científicos que demonstram benefícios da presença de vegetação em hospitais e escolas. Um dos exemplos mais emblemáticos foi o de um hospital americano em que pacientes internados em quartos com vista para árvores apresentavam recuperação mais rápida, consumiam menos analgésicos e recebiam alta antes dos demais.
Para ele, a raiz do problema está na concepção moderna de cidade. Em tom crítico, observou que os espaços urbanos foram historicamente planejados como ambientes apartados da natureza.

“Sempre imaginamos o lugar onde vivemos como algo diferente do resto da natureza”, disse.
Ao analisar modelos urbanos tradicionais, ironizou: “As cidades desenhadas por arquitetos são muito bonitas, mas não têm uma graminha sequer. Nem seres humanos aparecem nos projetos”.
Língua das árvores
A conversa ainda avançou para a discussão sobre sustentabilidade e alimentação. Mancuso apresentou dados sobre o uso global das terras agrícolas para defender uma redução no consumo de produtos de origem animal. Sem propor o vegetarianismo como obrigação, argumentou que pequenas mudanças poderiam gerar impactos gigantescos.
“Se reduzíssemos em 25% o consumo de alimentos de origem animal, já teríamos espaço para plantar 2 trilhões de árvores. Quando falamos do que devemos fazer pelo planeta, imaginamos sacrifícios insustentáveis. Mas muitas soluções exigem muito menos do que pensamos”, afirmou. “O nosso tipo de alimentação não é apenas insustentável. É ridículo.”
Questionado pela plateia sobre o negacionismo climático, o pesquisador classificou o fenômeno como uma das maiores contradições da contemporaneidade. “Pela primeira vez desde que o método científico existe, aquilo que a ciência diz se tornou uma opinião política”, afirmou.
Para ele, a negação do aquecimento global ignora um consenso científico sem precedentes sobre o que considera “o problema mais grave que a humanidade já teve no curso da sua história”.
Sobrevivência da espécie
Foi nesse contexto que o escritor fez uma de suas declarações mais firmes da tarde. Ao comparar o comportamento humano com o de outras espécies, disse: “Eu realmente julgo que nós somos a espécie mais burra que já apareceu no planeta”. Segundo ele, a humanidade perdeu de vista o objetivo fundamental compartilhado por toda forma de vida: a sobrevivência da espécie.
“Tudo o que fazemos serve à sobrevivência do indivíduo. Quando olhamos para os problemas do ponto de vista da humanidade, os resultados são completamente diferentes.”
O pesquisador comentou ainda iniciativas ambientais em grandes centros ao redor do mundo e como elas poderiam ou não ser seguidas. Elogiou as políticas urbanas feitas em Paris nos últimos anos, sob a administração da ex-prefeita Anne Hidalgo: “Precisamos de prefeitos jovens e de mulheres”.
Em tom de crítica, disse que a maioria dos governos veem no plantio de árvores a solução de todos os problemas ambientais, a exemplo da Etiópia, que conseguiu plantar 350 milhões de árvores em doze horas, mas que viu boa parte não conseguir sobreviver nos anos seguintes: “É fácil plantar milhões de árvores, muito mais difícil é mantê-las vivas”.
Comunicação das plantas
Nos momentos finais da conversa, o cientista falou sobre a comunicação entre plantas, tema que se tornou uma de suas principais áreas de pesquisa — e sobre a qual escreveu no best-seller Revolução das plantas: um novo modelo para o futuro (trad. Regina Silva, Ubu, 2019). “As plantas conversam, e conversam muitíssimo”, disse.
O italiano diz que elas trocam informações por meio de moléculas químicas capazes de transmitir mensagens complexas, como pedidos de socorro ou alertas sobre falta de água.
“Já encontramos a molécula que significa ‘socorro’, a que significa ‘não tenho mais água’, a que diz ‘estão comendo minhas folhas’ etc”. Para Mancuso, decifrar essa linguagem vegetal é uma das fronteiras mais promissoras da ciência contemporânea.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.