O escritor português Rui Couceiro (Neusa Ayres/Divulgação)

Encontro de Leituras,

Tragédia à moda do Porto

Em seu segundo romance, Rui Couceiro faz da cidade devorada pela especulação imobiliária matéria viva da tragédia contemporânea

26jun2026 • Atualizado em: 25jun2026 | Edição #107

Para Aristóteles, a essência da tragédia está no mythos — a arquitetura da ação, o enredo. Mas, ao reduzir a tragédia ao texto, o filósofo grego teria deixado à margem do espetáculo trágico o corpo, o coro, a música, o ritual dionisíaco e, sobretudo, a cidade como acontecimento coletivo. O que se perde numa leitura aristotélica da tragédia é a khora, o território como matéria viva: o chão onde se nasce, se enterra, se pertence e se é expulso. 

A tragédia é uma história dos lugares, dos tempos e dos deuses. Invocá-la é invocar um corpo vivo, uma tradição plenamente incorporada pela poesia e pelo romance. Temos Florença em Dante, Londres em Dickens, Dublin em Joyce, Nápoles em Elena Ferrante, o Capibaribe em João Cabral — até Praga, inominada, em Kafka — para ficar em alguns autores à altura das cidades que lhes serviram de chão. A elas se junta o Porto, em Morro da Pena Ventosa, de Rui Couceiro.

No título, o escritor português entrega a khora do romance: o morro que é uma das zonas mais antigas e íngremes do Porto, centralíssimo na geografia e por décadas marginalizado na vida da cidade. O livro transforma-o num organismo vivo — o largo da Pena Ventosa, a rua de Sant’Ana, as escadas gastas, os sinos, os becos, a topografia vertical que obriga todos a subir e descer continuamente. É desse território áspero e antigo que emerge Elisabete, a Beta, narradora de um texto que é ao mesmo tempo livro de memórias, drama epistolar e romance de formação. Beta escreve à amiga Luísa Fragata, que nunca responde — e cuja existência, como a da própria Beta, será posta em dúvida no final.

 […] via as pontes velhas, via o Palácio de Cristal e a silhueta ondeante e sedutora da minha cidade, desde esse alto verdejante, até o serpenteante asfalto do viaduto do Cais das Pedras. Cabia tudo num só olhar.

Cabe tudo no olhar de Beta sobre o morro, de suas origens medievais à turistificação recente: um Porto duro, oral, cheio de velhos, pequenos comércios, vizinhança — e solidariedade — invasiva. O morro funciona como uma pólis em miniatura: todos se conhecem, toda queda é pública, toda dor reverbera pelas escadas. 

Cabe tudo no olhar da narradora sobre o morro, de suas origens medievais à turistificação recente

Beta vai narrar vida, decadência e morte: do pai, que se afogou na própria bebida, caído pelas vielas; da mãe, que desaparece aparvalhada de dor e miséria; da avó, que lhe serviu de esteio e companhia, guardiã de um presente sombrio e um passado marcado por pobreza, violência e silêncio.

Da cidade, vai narrar a Sé devorada pela especulação imobiliária; a saída induzida pela empresa Morteiro Sorridente do edifício na rua da Pena Ventosa, onde viveu mais de “13 mil dias”; o enxame de turistas chegando dia após dia. Beta, guia turística numa região ameaçada pelo AirBnB, narra de dentro o que está a perder.

O Porto resiste, no entanto. Saltam das páginas figuras vivas e picarescas, num realismo mágico da pobreza urbana. Tipos como Luís Miguel “Ideias”, o sem-teto que vive de projetos delirantes; o Meias Solas, homossexual do bairro, amante de um padre, e que se atira da ponte; o Toni Fulminante, que assalta o morro há 27 anos com pistola de brinquedo; D. Lisete, vizinha e memória viva do bairro, que em tudo se faz presente na vida de Beta e é uma das melhores personagens do livro — na linha das grandes figuras femininas de Eça de Queirós. O diapasão grotesco de Couceiro é sempre afetivo. 

Falar raiz

A oralidade marca a prosa do livro; não é ornamento: é um falar raiz, que pertence à personagem, ao bairro, à classe — insólito para quem vem de fora, previsível para quem conhece aquela gente. Couceiro domina o andamento; trechos de ritmo contido, como a intimidade dolorosa entre neta e avó, convivem com momentos frenéticos e urbanos. A cronologia embaralha-se: por vezes nos perdemos entre passado e presente em corte abrupto; outras, entramos num tempo quase mítico, como nos capítulos da seca e dos seus efeitos. Ainda que de corpo e alma ligado ao Porto, Couceiro não habita uma cidade, habita uma língua. É ela que sustenta a arquitetura do livro, as histórias que se sucedem e se emaranham como as ruas e vielas da Sé.

A estiagem do Douro produz alguns dos momentos mais contundentes do romance. Quando as águas baixam, o rio revela o que normalmente está oculto: lama, restos, estruturas encobertas, peixes agonizando, como se o Porto olhasse a si próprio despido. O Douro, espelho mágico do Porto, está morto. A cidade perde seu rio; Beta perde o rio e a avó. Ambos testemunham a ruptura da própria ordem do mundo. 

Beta perde ainda — no rito coletivo de 2 milhões de pessoas que descem dos morros — o medo do escuro, que a assombrou pela vida. Ao mergulhar na maré humana que toma conta do leito do rio, e sair dela ao amanhecer, com uma nova ideia de si e do amor erótico, na figura de um professor que ela conheceu lendo um romance e que amputou os próprios dedos, Beta se emancipa; ou assim se imagina, pois essa é uma função da escrita: 

É aqui, neste mundo desenhado por uma caneta sobre uma pele pautada, que tatuo o que vivi e que, já o disse, mas importa repetir, faço nascer aquilo que gostaria de ter vivido

Morro da Pena Ventosa reúne estéticas, ideias e linguagens que seriam improváveis juntas, não fossem a ironia latente, a segurança do estilo e a língua como território partilhado com o leitor, como propõe Couceiro — e talvez seja essa a maneira do Porto. Há ousadia também na questão de quem de fato compôs o livro. E há excessos digressivos, ingenuidades românticas e algumas excentricidades, como o caixão que Beta encomenda na internet (modelo “Porto”) para escrever, dentro dele, as memórias, emulando o caixão de pinho que levou sua avó. A própria Beta se desculpa por indulgências cometidas no texto. Está desculpada. 

Sua literatura é permissiva, crua, instintiva e brutal; escrever é para Beta vingança, invenção e domínio do sentir; seu ponto final é um acontecimento literário, um “basta” tanto narrativo quanto existencial. Couceiro mira o firmamento: seu trágico se desloca do indivíduo para o morro e a cidade; seu Porto desce ao Douro seco iluminado por telemóveis, “a viver a maior e melhor festa de São João de sempre”. Tragédias não precisam ser trágicas.

Quem escreveu esse texto

Ubiratan Muarrek

Escritor e pesquisador de filosofia política, é autor de Meio do céu (Assírio & Alvim Brasil).

Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “Tragédia à moda do Porto”