A FEIRA DO LIVRO 2026,
Biografia não deve ter uma fórmula, defende Pedro Bial
O jornalista, autor de livro sobre Isabel do vôlei, conversou com Uirá Machado, que biografou o enxadrista Mequinho, sobre as possibilidades do gênero
02jun2026Entre confissões e risos, os jornalistas Pedro Bial e Uirá Machado colocaram em xeque algumas das regras que o “biógrafo dos biógrafos”, como Bial se referiu a Ruy Castro, preconiza para uma boa biografia. A dupla, que acaba de biografar dois ícones do esporte brasileiro, conversou sobre as possibilidades do gênero na mesa Além do jogo, que encheu o Palco da Praça no frio fim de tarde desta segunda-feira (1º).
Bial, que lançou Isabel do vôlei da vida (Gente, 2025), lembrou que já escreveu sobre o seu patrão e sobre uma figura ainda viva, a empresária Luiza Trajano, empreitadas que deram origem aos livros Roberto Marinho (Zahar, 2004) e Luiza Helena: mulher do Brasil (Gente, 2022).
Machado também não esperou Henrique Mecking, o Mequinho, morrer para narrar a vida do maior enxadrista brasileiro em Entre bispos e reis, que acaba de sair pela Todavia, nem se prendeu a uma narrativa em ordem cronológica.
“A biografia não precisa, não deve ter uma fórmula. Cada biografia, cada história pede a sua forma de ser contada”, afirmou Bial na mesa mediada pela jornalista Anita Efraim. “Procuro ser honesto, estou contando a história dessa posição: repórter d’O Globo escrevendo sobre o fundador d’O Globo; amigo da Isabel escrevendo sobre a Isabel. Não vou ocultar esse meu envolvimento profissional ou afetivo com o retratado.”
Figuras extraordinárias
Cada uma à sua maneira, essas duas figuras — Isabel Salgado (1960-2022) e Henrique Mecking, hoje com 74 anos — foram extraordinárias.
“Mequinho aprendeu a jogar xadrez praticamente sozinho, quando tinha cinco anos de idade”, contou Machado. “Por volta dos sete, já ganhava de adultos. Aos treze, foi campeão brasileiro. Aos quinze, campeão sul-americano. Vira Grande Mestre. Ganha torneios muito importantes, atinge o terceiro lugar do ranking internacional, é cotado para ser campeão mundial e abandona o xadrez no auge, em 1979, aos 27 anos, sem muitas explicações.”
Mais Lidas
Uma delas seria uma doença neuromuscular chamada miastenia grave. Mequinho se converte ao catolicismo, ingressa na Renovação Carismática católica e diz ter sido abençoado por um milagre de Jesus que teria salvado sua vida. Após tentar virar padre e fracassar, volta ao xadrez.
“É uma história incrível. Não preciso saber jogar xadrez, não preciso conhecer o Mequinho, preciso saber reconhecer uma história”, disse Machado, que não rotula seu livro como uma obra sobre esporte ou xadrez. “É um livro sobre excelência, uma trajetória heroica e dramática. Um livro sobre seres humanos.”
Bial ressaltou a importância de Isabel nas quadras e fora delas. “A geração dela foi fundamental para que o vôlei se tornasse o esporte popular que é no Brasil. Ela educou o público, educou uma torcida, e se destacou perdendo. Isabel não tem nenhum grande título, não ganhou medalha olímpica, não ganhou campeonato mundial, mas foi inspiradora de gerações que alcançaram esses objetivos.”
O jornalista recordou o episódio em que Isabel, durante o Mundialito de 1982 no ginásio do Ibirapuera, “pegou o microfone e deu um pito na torcida” que arremessava iogurte nas jogadoras japonesas. “Uma cena bastante louca, uma atleta ensinando a torcida a torcer.”
Fantasmas
Sobre as interações entre biógrafos e biografados, no caso de Mequinho, que hoje mora em Taubaté (SP), surgiu a inevitável pergunta: ele leu a biografia?
“Mandei para ele”, respondeu Machado, que confessou não ter tido a melhor das relações com o biografado. Na primeira tentativa de conversa, Mequinho desmarcou. O jornalista da Folha de S.Paulo conseguiu uma entrevista por vídeo, durante a pandemia, para uma reportagem sobre os setenta anos do enxadrista, completados em 2022. Desde então, trocou mensagens com a irmã mais velha, que atuou como intermediária.
Mequinho leu partes da biografia e disse “que está muito bem pesquisado, mas que ele não tem nenhum interesse nesse livro porque acha que o meu livro compete com os dele” — o enxadrista publicou Como Jesus Cristo salvou a minha vida (Loyola, 1981) e outros dois títulos de partidas comentadas. “Espero que ele mude de opinião ao longo do tempo”, afirmou Machado.
Bial, que atendeu a um pedido dos filhos de Isabel para narrar sua vida, percebeu à certa altura que estava escrevendo a própria história, formada pelo mesmo caldo cultural da Ipanema dos anos 60 que formou a jogadora.
“A gente andava na rua, estavam lá o Vinicius, o Tom. Na praia, os atletas, intelectuais, todo mundo ali, conversando. Isso nos formou e fazia parte de um projeto de Brasil que tinha beleza e acabou em 1964. Aquele Brasil não vingou. No entanto, deixou fantasmas por aí, eu sou um fantasma, Isabel é um fantasma”, afirmou Bial, que ainda revelou no final da mesa ter namorado a amiga. Ao ouvir que essa informação não aparece no livro, brincou: “Talvez eu tenha cortado”.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.