Fichamento,
Márcia Moura
Médica e professora de ginecologia na Universidade Federal de Pernambuco lança romance vencedor do prêmio Pallas
01jul2026 | Edição #107Malhada das Graúnas (Pallas) escava memórias históricas, lendas locais e os traumas de uma
mulher que fugiu da violência doméstica.
Em Malhada das Graúnas, você faz uma espécie de arqueologia, encontrando ossos, escavando túneis. Como foi essa busca?
A ideia do livro partiu das conversas com minha sogra, grande contadora de histórias do sertão da Paraíba. E de uma pesquisa que comecei a fazer sobre Branca Dias, personagem importante da história local, que teve um engenho em Camaragibe, perto de Recife. Coloquei as histórias que elas contavam no solo de Branca Dias.
O que pesquisou sobre ela?
Parti de uma pesquisa sobre a Maria Amazonas. Sou professora na Universidade Federal de Pernambuco, o terreno da universidade foi doado pela família Amazonas. Eles têm um casarão em Camaragibe onde, até hoje, fazem uma encenação anual das invasões indígenas. Pesquisando, vi que na cidade existem túneis que ninguém sabe exatamente onde ficam, feitos na época de Branca Dias [século 16] para fugir dos indígenas. Achei que era um ponto de partida para o romance: a mãe da protagonista, Giza, era filha de uma indígena com um branco.
Quem foram Branca Dias e Maria Amazonas? E quem é Giza, a protagonista do romance?
Três grandes mulheres. A Branca fugiu da Inquisição em Portugal, como cristã-nova. Dizem que escondeu prataria e tesouros para não serem tomados dela e virou dona de engenho depois que o marido morreu. A Maria Amazonas [1908-2006] foi uma empreendedora visionária. Doou terrenos para seminário, para as carmelitas, mas também doou um terreno imenso para a universidade. Já Giza é uma pessoa hipotética (mas não tanto), que traz essa energia de tantas mulheres que tiveram que fugir da violência familiar. Uma mulher que veio a pé do interior para o litoral, arrastando um trouxa de lençol para estudar e trabalhar na capital. E volta para sua cidade quando é avisada que os ossos da mãe, desaparecida, foram encontrados em um túnel secreto de uma capela abandonada de Camaragibe.
Apesar de tudo, essa mulher não se vitimiza…
Obviamente ela é vítima, por um lado, mas também tem as culpas dela, e a raiva; ela não é boazinha com ninguém, nem com o irmão ou com o namorado. Ela é ácida.
A raiva e a ironia da personagem me lembram uma frase da escritora argentina María Negroni: “a literatura é uma forma elegante de rancor”. Concorda?
Plenamente. Talvez eu queira colocar nos livros minha própria raiva. Já me perguntaram se sofri violência. Nunca, em vinte anos de casamento, e também nunca vi meu pai ser violento com minha mãe. Talvez até por isso me revolte tanto ver pessoas passarem por violências. O rancor que me dá ouvir esses casos vividos por colegas ou pacientes está no livro.
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Também quis falar da autonomia sexual de Giza, uma mulher madura?
É importante falar disso. Tenho pacientes que dizem “ah, já estou com sessenta anos, o que vou querer mais?”, e respondo: “Queira!”. Tem gente se sentindo errada por ter desejo sexual. Coloquei uma mulher de sessenta, solteira, com um namorado, e que faz sexo casual. Veja que coisa linda. Eu vou fazer cinquenta, mas já digo para os meus alunos aprenderem a tratar vagina de mulher idosa, porque quero chegar aos cem namorando. Mas também trouxe para o romance essa sexualidade forte da protagonista como contraponto à história da mãe, violentada pelo marido, e da avó indígena, abusada e negligenciada, que morreu ao dar à luz.
Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “Márcia Moura”
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